EUA a um passo de ter de devolver o Af-Paq aos Talibã, al-Qaeda, por MK Bhadrakumar

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Da série “EUA perderam”:      EUA perderam o Af-Paq
31/10/2018, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga
Segundo matérias traduzidas, os Talibã anunciaram na 3ª-feira que cinco homens, da alta direção do grupo, que estiveram presos em Guantánamo, apresentaram-se ao gabinete político do grupo, no Qatar. É desenvolvimento dramático, que assinala que as conversações entre os Talibã e os EUA avançam seriamente, em busca de um acordo para o Afeganistão.
Os cinco foram figuras da alta hierarquia do governo do regime dos Talibã nos anos 1990s, homens de confiança do falecido Mulá Omar: o ex-ministro do Interior Mulá Khairullah Khairkhwa; o ex-comandante do Exército Muhammad Fazil; o ex-governador de Balkh e Laghman Noorullah Noori; o vice-chefe da inteligência dos Talibã Abdul Haq Wasiq; e o comandante de comunicações dos Talibã, Nabi Omari.
Os cinco foram libertados da prisão de Guantánamo em 2014, pelo governo de Barack Obama, depois de 12 anos de prisão, em troca do sargento de Exército Bowe Bergdahl, mantido refém dos Talibã por cerca de cinco anos. Os cinco comandantes Talibã foram transferidos da Baía de Guantánamo para o Qatar, onde permaneceram sob proteção de autoridades locais. Se estão agora no escritório político dos Talibã em Doha, não há dúvida de que o movimento foi aprovado pelas autoridades do Qatar, com a concordância dos EUA.
A parte realmente espantosa desses eventos é que esses cinco líderes dos Talibã já carregaram, aos olhos dos EUA, o estigma de serem intimamente associados à al-Qaeda. Fato é que Washington já previu há muito tempo que, mais dia menos dia, seria necessário tentar reaproximar-se construtivamente da liderança mais linha-dura dos Talibã, para os EUA conseguirem arrancar-se de seu autoatoleiro no Afeganistão. Isso basta para explicar por que os Talibã afegãos foram atentamente deixados de fora da lista do Departamento de Estado, de Organizações Terroristas Estrangeiras. Washington acatou a versão de que o Talibã Afegão é “insurgência” com controle sobre vastas porções de território e aspirações a governar o país. Convenientemente deixou a porta aberta para negociar com os “insurgentes” e reconciliar-se com eles, queira Deus, quando chegasse a hora.
Evidentemente, o governo Trump avalia que é chegada a hora. A libertação dos cinco temidos líderes dos Talibã com ligações com al-Qaeda tem tudo a ver com conversações de paz que vêm depois da recente visita do novo representante especial dos EUA Zalmay Khalilzad ao Paquistão e Qatar. Khalilzad é diplomata fazendo hora extra, correndo para negociar qualquer paz, ainda que envolva interlocutores que tenham sido muito intimamente associados com a al-Qaeda nos anos 1990s.
Na verdade, aí se vê o realismo e o frio pragmatismo de Khalilzad, que é diplomata veterano, ao mesmo tempo em que também evidencia o senso de urgência dentro do governo Trump, de que é necessário negociar algum acordo, o mais depressa possível.
Não há qualquer sinal de que o governo de Cabul tenha sido consultado ou seja parte desse desenvolvimento no Qatar. Khalilzad trabalhará em regime de distribuir a mínima quantidade indispensável de informação, caso a caso, porque a política afegã é muito fragmentada, e será pílula dura de engolir, para a elite de Cabul, admitir que cinco internos da prisão de Guantánamo estarão de volta aos palcos políticos, como protagonistas.
Bem diferente disso, Khalilzad trabalha em regime de consultas próximas e intensas com Islamabad. A libertação do ex-número 2 da hierarquia Talibã, Mulá Baradar, pelo Paquistão (por interferência de Khalilzad) está em sincronia com o desenvolvimento no Qatar. Claramente, o Paquistão está posicionando Mulá Baradar, já antecipando o início de fatídicas conversações no Qatar, em futuro muito próximo.
O tempo voa, porque estão previstas eleições presidenciais no Afeganistão em abril de 2019. Os EUA estão intensamente conscientes de que mais um governo fantoche eleito em eleições-farsa e escandalosa manipulação pós-eleitoral não terá a mínima legitimidade necessária e condenará o país à desgraça. A parte complexa agora é levar os Talibã para o campo de jogo e conseguir que joguem na próxima disputa político-eleitoral.
Como isso seja possível, em tão pouco tempo, não se sabe. Em todos os casos, o que se vê adiante é transição difícil – perigosamente semelhante à transição patrocinada pela ONU em 1992, do governo dos comunistas para o governo dos Mujahideen, que colapsou de modo tão espetacular.
No instante em que começarem as conversações com seriedade e boa-fé, desaparecerá a última grama de legitimidade que ainda exista no cenário montado em Cabul. A pressão aumentará para que se preencha o vácuo que inevitavelmente aparecerá. Porém, tudo isso comparado com 1992, a parte boa é que, se os Mujahideen Afegãos racharam em grupos rivais, com alguns como o Jamiat hoje bem afastados do controle pelos paquistaneses, o mesmo não aconteceu com os Talibã. O Paquistão está em posição para empurrá-los na direção certa.
E o Paquistão esperará reciprocidade dos EUA; esperará que levem em consideração as sensibilidades e interesses dos paquistaneses – especialmente o renascimento do relacionamento de corpo inteiro entre os dois países. Sobre isso, publiquei coluna hoje no jornal Dawn na qual reforço a ideia de que é criticamente indispensável que Washington e Islamabad andem lado a lado, em busca de ‘solução conjunta’ ao longo dos próximos seis meses, para que as conversações de Khalilzad, para pôr fim à guerra no Af-Paq, sejam frutíferas e produtivas.*******
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