Entrevista de Thierry Meyssan à RT

Share Button

Entrevista de Thierry Meyssan à Rússia Today. Tradução Natália Forcat.

A voz da Rússia: Poderia ter um efeito positivo a Conferência Genebra 2?

Thierry Meyssan: Quando falamos da oposição síria, estamos falando de títeres que intervêm em nome de potências estrangeiras. Atualmente 11 países se agrupam sob o título de “Amigos da Síria”. Por outro lado, o objetivo da Conferência de Genebra é estabelecer a paz na Síria. Está baseada em um acordo anterior entre Rússia e Estados Unidos, que foi feito há um ano e ainda não foi concretizado. Funcionará agora esta Conferência Genebra 2? Tudo parece indicar que sim, mas não é certo e EUA ainda se reserva o direito de sabotar esta Conferência se não conseguir impor essa solução aos seus aliados. É uma situação bastante complicada. EUA é quem dá as ordens nesta guerra.

Temos que lembrar que foi EUA que declarou a guerra contra Síria ao votar a Syrian Accountability Act em 2003. A partir daquele momento, os EUA tentaram entrar em guerra muitas vezes, até chegar aos acontecimentos da atualidade, que nada mais são que uma guerra através de intermediários, ou seja, de outras potências. EUA delegaram seus poderes de guerra à França e à Grã Bretanha e às potências regionais: Turquia, Jordânia e sucessivamente a Qatar e Arábia Saudita. Mas quando alguém tem aliados na guerra é mais difícil dizer a eles: “Agora acabou, voltem para casa porque perdemos!”. É esta a situação que os EUA estão tentando administrar neste momento. Eu falei momentos atrás que ainda é possível que a Conferência seja sabotada porque dentro de dois dias (16 de janeiro de 2014. Nota de RT) acontecerá a primeira audiência do Tribunal Especial para o Líbano. Se os EUA quiserem sabotar a Conferência apenas precisam acusar novamente a Síria pelo assassinato de Rafik Hariri usando qualquer falso testemunho que pode ser desmentido meses depois. Isso seria suficiente para atrapalhar o processo de negociação.

A voz da Rússia: Falando sobre a oposição síria, quem eles são realmente?

Thierry Meyssan: Não há uma oposição estruturada, o que corresponde ao desejo inicial de EUA que quis provocar na Síria não uma guerra convencional, de frente contra frente, senão o que se denomina uma guerra de quarta geração, na qual se manipula a população, fazendo estes acreditarem num caos generalizado e na queda iminente do regime. E desta forma se convencem as pessoas de coisas que ainda nem aconteceram. Em uma guerra de quarta geração decidiu-se financiar grupos dispersos, diferentes entre si, para dar a impressão que havia um movimento generalizado. Não existe coordenação entre esses diferentes grupos,  que começaram cometer atos de terrorismo aqui e acolá para convencer a população que era verdade o que viam nos canais de televisão Al-Jazeera e Al-Arabiya.

Isso funcionou durante algum tempo. Finalmente os EUA consideraram que aquilo não funcionava mais. Aconteceu a primeira Conferência de Genebra para pôr fim à guerra mas, alguns meses depois, Israel, França e Qatar primeiramente, e mais tarde Arábia Saudita, reacenderam a guerra trazendo maciçamente jihadistas do mundo inteiro. Mas como tinham sido dadas instruções para que os diferentes grupos continuassem sendo diferentes entre si, nunca chegou-se a constituir um exército homogêneo como exigia a estratégia militar.

É por esse motivo que eles foram derrotados no terreno. E também é por isso que não conseguem representação coerente para a Conferência Genebra 2. Quando falo em representantes coerentes estou falando de líderes políticos que poderiam ir à Conferência falar em nome dos grupos estrangeiros infiltrados na Síria.

A voz da Rússia: Uma última pergunta: o Sr. acredita que Bashar Al Assad possa continuar ou podemos pensar na saída do presidente sírio com a criação de um governo de transição?

Thierry Meyssan: Antes de mais nada, segundo vários inimigos da Síria – como a OTAN e a Turquia – o apoio popular a Bashar Al Assad é estimado atualmente entre 60% a 88% da população. Podemos até comparar: na França atualmente o apoio popular ao presidente da república (François Hollande) é de 15%! Então, se alguém tem que sair do poder não é precisamente Bashar Al Assad!

Por outro lado, se olharmos a técnica militar utilizada, foi necessário muito tempo para alcançar a vitória. Hoje já se fala efetivamente em vitória já que a cidade de Aleppo está sendo liberada e está sendo feita a limpeza completa da periferia de Damasco. Foram necessários três anos para conseguir isso. E durante esses três anos as potências estrangeiras não pararam de enviar combatentes estrangeiros. Não é possível saber com precisão quantos foram enviados. Alguns estimam cifras que variam entre 40.000 a 160.000 combatentes estrangeiros enviados a Síria. Possivelmente ainda há na Síria algo em torno de 120.000 combatentes estrangeiros em seu território.

Foi necessário tempo mas Bashar Al Assad conseguiu vencer apesar da coalizão exterior e por outro lado, no interior do país o Estado continuou funcionando durante esses três anos. Eu moro em Damasco e aqui não há carência de nada, absolutamente de nada. É possível encontrar aqui absolutamente todos os produtos para uma vida comum. Obviamente não há uma enorme variedade. Se você procura atum em conserva pode achar apenas uma marca, mas existem todos os produtos que alguém possa precisar. Mesma coisa acontece na costa (síria) do Mediterrâneo, onde não apenas se encontra tudo, além do que já nem há ações militares.

No entanto há regiões do país onde o Estado não funciona: as regiões chamadas de “liberadas” por essa oposição armada. Mas quando dizemos que o Estado não funciona nessas regiões, apenas queremos dizer que alguns serviços estão interrompidos, enquanto outros continuam funcionando. Por exemplo, os hospitais, e também as escolas. Inclusive nos territórios ocupados por esses bandos armadas. Há escolas que continuam funcionando e continuam recebendo recursos (do governo), mas não dos bandos armados nem de seus padrinhos estrangeiros.

Sim, a política de Bashar Al Assad foi vitoriosa e esse sucesso será amplamente estudado por todas as academias militares do mundo porque é a primeira vez que vemos este tipo de guerra. Até agora, as guerras de quarta geração aconteciam em outro contexto como no final da guerra de Vietnã ou a resistência de Hezbollah frente a Israel, mas nunca na situação de um Estado atacado desde o exterior por bandos armados.

Enrtevista feita por Alexandre Artamonov

 

Share Button

Deixar um comentário