Entrevista com Alexander Dugin: Momento decisivo

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Entrevista a Eurasia & M. East Eurasia & M. East:

Dr. Dugin, em anos recentes temos assistido a uma tensão crescente nas relações entre EUA, UE e Rússia. Há quem diga que faz lembrar a “era da guerra fria”. O senhor concorda? Ou há algo mais?

Alexander Dugin: A guerra fria foi o confronto entre dois campos ideológicos. Hoje já não há distinção clara no campo da ideologia, mas, muito mais, entre duas versões da mesma liberal-democracia – avançada, no caso de EUA e UE, e atrasada, no caso da Rússia.

Assim se presumiria que as tensões fossem consideravelmente reduzidas. Mas não é o que se vê. É preciso portanto procurar a causa para o agravamento das tensões em outro campo que não seja a ideologia.As razões mais prováveis da “nova guerra fria” dessa vez são geopolíticas. Nesse sentido, a pergunta é legítima. De fato não há guerra fria ideológica entre capitalismo e socialismo no momento de contexto mais amplo, historicamente, da Grande Guerra dos Continentes, GGdC [ing. Great War of Continents, GWoC].

Essa GGdC é a própria base da compreensão geopolítica da história –Poder do Mar contra Poder da Terra, Eurásia contra Atlântica. Se se aceita esse critério, tudo se torna claro e lógico. Há uma eterna batalha entre dois tipos de civilização – a civilização dinâmica, progressista, mercante) do Mar e a civilização conservadora, heroica da Terra: Cartago contra Roma, Atenas contra Esparta.

A nossa escalada portanto é resultado de a Rússia ter-se recuperado depois do golpe letal que sofreu nos anos 1990-s. O principal fator que explica a nova guerra fria é o retorno do Poder da Terra, a nova ascensão da Eurásia. Na verdade é a velha guerra fria, a guerra fria “eterna”. Nos anos 1990s, houve o que parecia ser vitória irrevogável do Poder do Mar – daí a globalização e a unipolaridade.

Mas hoje podemos ver que não passou de um momento, de uma chance de acontecer. A recuperação do poder da Rússia, assim como a resistência da China, do mundo islâmico e a onda de populismo que se aprofunda no ocidente provam que aquela chance não foi aproveitada.

Hoje as elites globalistas estão na defensiva. A fera está ferida, mas ainda está lá. Está tentando revidar, e essa é a principal causa das hostilidades.

Eurasia & M. East (EMe): Como o senhor vê os recentes eventos que se desenrolam no Oriente Médio? O senhor vê alguma possibilidade de que as coisas se reequilibrem? Ou estamos vivendo conflito “total” entre todos os participantes naquela região?

Alexander Dugin: Vejo a região do Oriente Médio como o principal campo em que se disputam a arquitetura do mundo futuro e o novo equilíbrio entre as potências. Não é jogo caótico de “todos contra todos”: é um episódio decisivo da Grande Guerra dos Continentes. De um lado, estão Rússia, Irã e em parte a Turquia (que se distancia cada vez mais dos EUA) com discreto apoio da China. Esse é o campo multipolar, o bloco eurasiano. Do outro lado estão os EUA e seus ‘agentes representantes procuradores’ [ing. proxies] – estados da OTAN, Israel e Arábia Saudita. Representam o polo globalista, as forças da unipolaridade.

Mas Trump não prometeu aos que o elegeram uma agenda neoconservadora clássica (prometeu, isso sim, pôr fim às intervenções e retirar as tropas dos EUA do Oriente Médio). Trump foi tomado como refém pelos neoconservadores. Talvez tenha sido o preço de um acordo político: Trump entregou aos neoconservadores a política externa, e obteve algum apoio nas reformas domésticas.

Mas o Oriente Médio é o espaço mais importante de todos. Se a Eurásia vencer, haverá uma ordem mundial multipolar, e o momento unipolar estará acabado de uma vez por todas (pelo menos, por muito tempo). Se os Atlanticistas conseguirem impor-se, ganharão mais algum tempo, um certo adiamento na sua queda inevitável. A fera ferida ganhará alguma sobrevida. De qualquer modo, o Oriente Médio é crucial. Ali se decide o destino da humanidade.

Eurasia & M. East (EMe): Em meses recentes vimos uma “mudança de posição” da Rússia em relação à Turquia, de confronto direto para integral apoio em todos os níveis. Quais, na sua avaliação, são as características e traços principais dessa nova situação entre Rússia e Turquia?

Alexander Dugin: É sempre o problema crucial da multipolaridade. A Turquia é rejeitada pelo sistema unipolar e, lá, está condenada a ser dividida. Só pode sobreviver no campo eurasiano.

A Turquia entrou para a OTAN em circunstâncias históricas muito especiais, quando aquele era um passo razoável ante uma possível agressão de Stálin. A decisão foi resultado de cálculos frios. Nos anos 90s do século 20 e especialmente em 2000, a situação mudou radicalmente. A Rússia já não representa ameaça existencial para a Turquia, mas os EUA e a OTAN são hoje o desafio a superar. Com a política dos EUA no Oriente Médio e aquela estratégia para os curdos, a Turquia está condenada, como estado nacional.

Assim, Turquia e Rússia têm todos os argumentos racionais a favor de serem aliadas.

É óbvio que nos dois países o lobby atlanticista é muito influente. Esse lobby tenta sabotar o processo – e a derrubada do avião russo, o assassinato de nosso embaixador e outras provocações foram montadas para corroer a aliança turco-russa. Quando os atlanticistas compreenderam que não conseguiriam impedir a aliança, tentaram derrubar Erdogan pelo golpe de estado de julho de 2016.

Naquele momento crucial, os russos garantiram apoio delicado, mas decisivo, à Turquia.

Eurasia & M. East (EMe): As relações entre Grécia e Rússia têm passado por ‘altos e baixos’ em anos recentes. Em que ponto, na sua avaliação, estão hoje essas relações?

Alexander Dugin: A Grécia é país Ortodoxo irmão. Os russos são herdeiros da cultura de Bizâncio e da cultura grega, somos descendentes civilizacionais dos gregos. O Monte Athos ainda é a capital santificada de nossa espiritualidade. Culturalmente, somos os melhores amigos.

Geopoliticamente, a Grécia não é estado soberano e está hoje sob total controle da União Europeia e dos globalistas. Os populistas de esquerda do Syriza tentaram romper essa escravidão, mas fracassaram, apesar do vasto apoio popular. Os populistas de direita estão marginalizados e reprimidos pela elite globalista que, assim, impede o crescimento natural deles. A Grécia é hoje país refém da União Europeia, não é país livre. Não é sujeito geopolítico, mas objeto. A Rússia poderia ajudar a libertar a Grécia das garras da ocupação atlanticista, mas a tarefa principal tem de ser feita pelos próprios gregos.

Quero dizer que as relações entre os dois estados são uma coisa, e as relações entre os respectivos cidadãos são outra bem diferente.

Para começar, as relações entre os estados são relações condicionadas pela lealdade à OTAN e pela submissão ao controle pela UE. Não podem ser boas relações, porque não refletem o desejo dos gregos, mas apenas a posição consolidada do Poder do Mar. As relações entre os cidadãos, ao contrário, são excelentes, porque os russos amam os gregos, pela nossa dívida civilizacional, por nossa identidade Cristã Ortodoxa, pela gramática, idioma, estilo espiritual. A Grécia real para nós é o povo, não as elites. A Grécia do Monte Athos, nossa bem amada Montanha Sagrada – de São Cosme de Aetolia e Santo Atanásio de Paros do Monte Athos e Efraim, o Velho, abade de Vatopedi .

Eurasia & M. East (EMe): Vladimir Putin foi reeleito há poucas semanas com vantagem significativa no número de votos à presidência da Rússia. Mas há vozes, mesmo dentro da Rússia, que insistem em que ele não teria conseguido acabar com o isolamento e dar melhores condições de vida ao povo russo. Qual a sua avaliação sobre a situação doméstica da Rússia e sobre o que os russos esperam da liderança do país, nos anos futuros?

Alexander Dugin: Escrevi um livro inteiramente sobre Putin – Putin against Putin, Vladimir Putin viewed from the right (2014, ing.). Ali explico a dualidade essencial de Putin, seus dois aspectos.

De um lado é o homem que salvou a Rússia da decadência e parece inegável que restaurou a soberania e a independência do estado russo. É portanto um herói e nosso povo compreende bem que, em nome de nossa grandeza, somos obrigados a pagar um alto preço. Por isso não se ouvem críticas a Putin pela Crimeia ou pelas sanções. Bem ao contrário, é razão para apoiá-lo ainda mais empenhadamente. Putin assim é apoiado pelos russos pelas exatas mesmas razões pelas quais o ocidente (Poder do Mar, os globalistas) o odeiam.

Por outro lado, está cercado de liberais (chamados aqui de “6ª coluna”) que são pessoalmente leais a ele, mas tentam impor políticas suicidárias à sociedade. É a outra cara de Putin, bifronte, como a águia imperial bizantina e russa. No que tenha a ver com justiça social, a Rússia hoje está próxima do nível zero, a corrupção prospera, a vida espiritual e cultural estão em depressão profunda. É o que preocupa, na ‘outra cara’ de Putin.

Estou dizendo que todos estamos unidos e fortemente solidários a Putin contra seus inimigos externos – que o odeiam precisamente pelos motivos pelos quais o amamos. Mas não estamos satisfeitos com o quando ele confia nos liberais, no governo e onde for.

Eurasia & M. East (EMe): Obrigado, Dr. Dugin por essa entrevista.

Traduzido por Vila Vudu

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