Efeito Borboleta, no reset do paradigma global 

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8/5/2021, Alastair Crooke, Strategic Culture FoundationVer a imagem de origem

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“É claro que a mudança de paradigma centrada no movimento de pivô dos EUA para longe da Ásia Ocidental tem impacto sobre o cálculo do Irã no JCPOA” – escreve Alastair Crooke.
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Na Teoria do Caos, “efeito borboleta” é a ideia de que pequenas coisas podem ter impactos não lineares sobre um sistema complexo. O conceito é imaginado com o bater de asas de uma borboleta. Nesse caso, é pouco provável que esse movimento cause um tornado. O que não implica que pequenos eventos não possam causar mudanças em cascata dentro de um sistema complexo. Consideremos a Europa, onde a Alemanha está mudando.

O Partido Verde Alemão está batendo asas no vácuo deixado pela esperada partida de Merkel. E embora o Partido, há alguns anos, fosse quase integralmente Corbinita (i.e. anti-establishment clássico), hoje, por baixo da cobertura liberal, a retórica Verde é bem diferente disso. São furiosamente Norte-Atlanticistas, pró-OTAN e anti-Rússia (mesmo quase neoliberal).

Hoje, a visão política europeia ‘de época’ [ing. European political zeitgeist] está mudando. Está absorvendo o meme ‘temos de nos unir para dobrar comportamentos de chineses e russos’, de Biden. Claro, essa mudança não pode ser deixada à porta dos Verdes Alemães; mesmo assim, parecem destinados a emergir com papel crucialmente decisivo na política do crucialmente decisivo Estado da União Europeia. Assim acontece de a emergência dos Verdes tornar-se de algum modo uma representação icônica do efeito borboleta.

A linguagem de uma ideologia de direitos humanos definida numa multidão de circunstâncias de gênero e diversidade tomou de assalto o discurso de Bruxelas. Há quem receba bem em princípio esse desenvolvimento, vendo-o como acerto de antigas injustiças. Contudo, é preciso compreender que a raiz disso tudo não é tanto a compaixão humana, mas uma dinâmica de poder e, o que é mais relevante, num quadro de dinâmica de poder particularmente perigosa.

De um lado, a ‘agenda Biden’ tem a ver primariamente com excluir do poder, permanentemente, um grupo de eleitores norte-americanos (os EUA Republicanos, Red America). É dito explicitamente. E de outro lado, como Blinken insiste e repete infindavelmente, a ordem baseada em regras modeladas pelos EUA ‘tem de’ prevalecer no mundo. Os ‘valores progressistas’ de Biden não passam de ferramenta para mobilizar políticos para que alcancem aquele objetivo dos EUA. (Biden, em toda sua longa carreira no Senado, jamais se destacou por ter qualquer posição progressista.)

O bater de asas da borboleta alemã na Europa facilita e gera capacidades para que Washington vá em busca de sua tão almejada mudança de paradigma geoestratégico.

A Guerra Fria, tão fundamente impressa a ferro e fogo no modo de pensar da política exterior dos EUA – e, também gravado a ferro e fogo, o seu resíduo tóxico, de russofobia visceral –, só deixou de fora a China.

Assumiu-se que a virada da China na direção de um modelo econômico de estilo ocidental simplesmente ‘lavaria’ a coloração comunista – mediante o agenciamento de uma emergente classe média consumista. Hoje, Washington vê que a China desabrocha sem dificuldade de seu casulo, para expor ao sol as asas de superpotência plenamente formadas – superpotência que já rivaliza com os EUA e ameaça superá-los. Grupos de Biden querem agora dirigir todo o poder dos EUA rumo ao alvo de superar e descartar a China.

Se Trump vivia obcecado pelo Irã, agora, com a equipe de Biden, é diferente. Interessa-lhe mais esquecer a paixão de Trump com o Irã (e toda a Ásia Ocidental tão problemática, de modo geral), e focar-se em trazer a Europa para ‘pivô’ diferente: fazê-la cultivar a hostilidade dos EUA contra a Rússia (projeto, puxado por campanha de propaganda britânica, e por determinados estados do Leste Europeu que parecem ter-se convertido em ‘rabo’ que abana o ‘cachorro’ da política da União Europeia).

Para círculos da Beltway em Washington, paralisados na mentalidade da velha Guerra Fria, a Rússia permanece ‘economia menor e potência apenas regional’ que não merece atenção total dos EUA – diferente da China, que é grande potência econômica, com capacidades militares que, no mínimo equivalem às dos EUA.

Em Washington considera-se suficiente para a Europa cumprir ordens de insistir em ‘atrito pesado’ contra a Rússia, com os EUA ‘liderando pela retaguarda’ – como Obama fez na Líbia. Victoria Nuland, que ganhou fama na mudança de regime na Ucrânia, foi confirmada pelo Senado como mais alta funcionária do Departamento de Estado.

Por que círculos bidênicos desejam que a Europa gire como pivô, agora, contra Rússia e China? Ora! É a velha regra de Mackinder: jamais permitir que a Terra Central (ing. Hartland) unifique-se. China e Rússia (e Irã) devem ser mantidas separadas, e ser divididas mediante ‘triangulação’, como costumava dizer o Dr. Kissinger. Primeiro, o Afeganistão foi o ‘pântano’ no qual a Rússia (então URSS) afundaria; depois a Síria; e agora é a vez da Ucrânia manter a Rússia preocupada e sob pressão – sob ativa ação de “contenção”, enquanto os EUA focam-se em isolar a China.

Nessa linha, o parlamento europeu, que “não tem batalhões” (como o Papa, na velha historieta), lançou contra Moscou seu ultimatum prometeico: Se a Rússia voltar a ameaçar a soberania da Ucrânia, a União Europeia esclarece que haverá consequências severas por essa violação da lei e das normas internacionais. Membros do Parlamento Europeu concordaram: “tal cenário deve resultar em imediata suspensão de importações de petróleo e gás da Rússia para a Europa; na exclusão da Rússia do sistema SWITF de compensações interbancárias internacionais; e no congelamento de bens e cancelamento de vistos para a Europa, de todos os oligarcas ligados a autoridades russas”.

Mas se se observa que essa resolução extremamente hostil foi aprovada por 569/67 votos, é claro que a operação é resultado de considerável pressão política (talvez seja caso de círculos de Biden novamente ‘liderando pela retaguarda’?). Na mesma semana, a União Europeia também censurou a China por “ameaçar a paz” no Mar do Sul da China, e enviou para lá uma força expedicionária naval.

Assim os europeus vão entrando em linha com a demanda de Blinken, que, parece, quer ação e retórica coordenadas contra China e Rússia.

Nenhum desses eventos surpreendeu Moscou ou Pequim, que já haviam resolvido resistir contra tentativas ocidentais de dividir para governar. Mesmo assim, essas tramas ocidentais implicam, sim, alto risco.

O ultimatum da União Europeia sobre a Ucrânia, apoiado por tão ampla maioria parlamentar, sugere fortemente que se aproxima nova rodada de tensões em torno do Donbass (e que está em preparação).

Essa expectativa certamente estava por trás do lado majoritário do Parlamento Europeu. Assim sendo, sabem com certeza de que a Rússia não entregará o Donbass a Kiev (o presidente Putin alertou claramente que as linhas vermelhas demarcadas pela Rússia, no discurso recente à Assembleia Federal, não devem ser ignoradas). A resolução da União Europeia parece preparar o terreno para intervenção, em algum momento, pela OTAN.

Sem dúvida, a União Europeia vê o próprio papel na pré-exposição de seus ‘valores’ como parte do processo para dar peso às ambições europeias de autonomia estratégica; e de as ver tomadas a sério. Mas isso tem um preço. A Ucrânia não está sob o controle de Zelensky (há outros players – cabeças-quentes com agendas diferentes). Pode acontecer qualquer coisa. Ao cabo, a União Europeia pagará o preço por qualquer evento de hostilidades militares.

E para quê? Para recompor relações calorosas com os Democratas?! (Como antigamente?) Tudo isso só tem a ver com curto-prazismo, bem longe de qualquer estratégia discernível.

E os riscos não são só militares cinéticos: Rússia, China e EUA não buscam escalada militar, e as políticas dos EUA para a China (sobre Taiwan) e para a Rússia (no que tenha a ver com a Ucrânia) podem estar inadvertidamente empurrando os norte-americanos na direção do confronto.

Os riscos também são econômicos: a Europa precisa desesperadamente de investimento e tecnologia chineses – e de gás russo –, para impedir que a própria economia colapse em recessão prolongada.

Não faz muito tempo, pode-se dizer, os líderes da União Europeia cantavam o refrão de que o grupo deveria manter-se longe da megaconcorrência peso-pesado.

O risco político para a União Europeia é que a lua de mel política com Biden perca força. A legislação radical de choque – que vai sendo aprovada pelo Congresso sem apoio bipartidário – avança alavancada por uma ressaca que vem da era pré-eleição, de quando os Democratas odiavam tudo que ‘cheirasse’ a Trump. Mas com a passagem do tempo, esse sentimento já está em esvaziamento. Trump já não monopoliza as manchetes. A carte blanche que Biden recebeu, por efeito do ânimo emocional relacionado ao predecessor, pode começar a encolher e entrar em erosão cada vez mais rápida, mesmo antes de o presidente tentar sair do extremo progressista do espectro, rumo a políticas de centro – o que terá de fazer sem perda de tempo com vistas a 2022, se quer mesmo atrair votos dos Democratas de tendência centrista, não apenas do seu eleitorado de esquerda.

A vulnerabilidade de Biden nas eleições de meio de mandato em 2022 tem sido subestimada, porque, exceto no caso da gestão da crise da pandemia, a maioria dos norte-americanos desaprova o desempenho do atual governo em todas as demais áreas. Os EUA podem rapidamente mudar de rota, deixando a União Europeia, como se diz, ‘pendurada à brocha’, dependente de um agente irrecuperável (Biden).

A mudança de paradigma centrada no movimento de pivô dos EUA para longe da Ásia Ocidental impacta naturalmente também o cálculo do Irã para o chamado ‘acordo nuclear’ (Joint Comprehensive Plan of Action, JCPoA; Plano Conjunto Abrangente de Ação): com os EUA buscando um revide de pleno espectro de 5ª-geração contra o eixo China-Rússia, o Irã não pode (e não fará isso) deixar-se posicionar como hors de combat, atolado em longas negociações em torno do ‘acordo nuclear’. O Imã em Kerbala – e o peso que carrega como exemplo arquetípico – exigirá que o Irã mantenha posição baseada em princípios na defesa de seus aliados – e com ‘o Eixo’.

Já temos resposta da Arábia Saudita, à sua maneira, à mudança de paradigma –, ao abrir canais de comunicação com ambas as capitais, Teerã e Damasco.

Tudo considerado, a que levará isso? Significativamente, Richard Haas e Charles Kupchan, do ‘oráculo’ conhecido como Council for Foreign Relations, CFR, argumentam (em Foreign Affairs, 23/3/2021, para assinantes) que os EUA, tendo renovado seu prestígio, terão de se movimentar, os próprios EUA, como pivô, na direção de um novo Acordo de Grandes Potências. Escrevem:

“A Pax Americana está agora nos estertores finais. Os EUA e seus parceiros democráticos tradicionais não têm capacidade nem vontade para ancorar um sistema internacional interdependente e universalizar a ordem liberal que erigiram após a Segunda Guerra Mundial (…).

Estabelecer um concerto global não seria panaceia. Trazer os pesos-pesados do mundo para a mesa dificilmente garantiria qualquer consenso entre eles. De fato, embora o Conselho da Europa tenha preservado a paz por décadas depois de formado, França e Reino Unido acabaram enfrentando a Rússia na Guerra da Crimeia. A Rússia está novamente em desacordo com seus vizinhos europeus na região da Crimeia, o que põe à vista a natureza elusiva da solidariedade entre as grandes potências (…). Os EUA e seus parceiros democráticos têm todos os motivos para reavivar a solidariedade do Ocidente. Mas têm de parar de fingir que o triunfo global da ordem que apoiaram desde a Segunda Guerra Mundial estaria ainda ao seu alcance”.

Contudo, é impossível acreditar que Washington consiga operar essa autotransformação psíquica existencial de ‘parar de fingir’, sem antes passar por crise profundíssima. Será que é isso que esses autores antecipam? Uma ‘4ª Volta’ (ing. a Fourth Turning)?

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga

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