E, de repente, um vilarejo no Marrocos vira… uma nova “primavera”

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Por Babel Hajjar, especial para o Orientemidia
Nasser Zefzafi, o líder dos protestos em Al Husseima (fonte: www.amazighworldnews.com)

Nasser Zefzafi, o líder dos protestos em Al Husseima (fonte: www.amazighworldnews.com)

Al Hoceima é um vilarejo costeiro de menos de 60 mil habitantes no Marrocos. Como muitos lugares no mundo, é um local carente de infra-estrutura básica e que passa por dificuldades econômicas, já que a pesca, atividade principal da cidade, vem trazendo resultados cada vez menos satisfatórios nos últimos anos. No dia 29 de maio, Nasser Zefzafi foi preso ao protestar em uma mesquita local pela situação da população de Al Hoceima, utilizando como símbolo a morte de um jovem pescador em 2016, Mohcine Fikri.

Friki foi esmagado ao tentar recuperar sua carga ilegal de peixes de um caminhão de lixo em outubro de 2016.

Desde a prisão de Zefzafi, protestos ocorrem todas as noites na cidade. Reportagem da rede de TV France24 de 15/06/2017 afirma que estas manifestações são espontâneas e legítimas, e que a prisão de Zefzafi é injustificada. No entanto, o governo marroquino acusa Zifzafi de receber dinheiro do exterior e de atentar contra a soberania nacional. O ativista integrou as manifestações de 2010-2011 no país.

É necessário levar-se em conta o recente movimento de engrenagens que se deu no Oriente Médio desde a visita de Donald Trump à Arábia Saudita e à Israel. Ao liderar um boicote ao Qatar supostamente por  “financiar o terrorismo”, mas certamente mirando o Irã, a Arábia Saudita conclamou os diversos países a se unirem em um corte de relações com o país, o que incluiria o Marrocos. O Reino se recusou a participar do boicote, o que levou os sauditas a subirem o tom, e a ameaçarem intervir na questão do Saara Ocidental. Controlado pelo Marrocos, o Saara Ocidental é uma região desértica rica em minérios, que é disputada pela Frente Polisário, que reivindica sua autonomia e é apoiada pela Argélia.

Há rumores de que Sauditas pretendam compor um novo exército mercenário, composto por marroquinos e jordanianos, para atuar no Saara Ocidental.

Portanto, e pelos demais casos de apoio cego aos grupos “rebeldes” na Síria e na Líbia que se revelaram grupos jihadistas, a propagação da ideia de apoiar manifestações no Marrocos deve ser observada com muito cuidado, e talvez ceticismo. Independentemente da questão do Saara Ocidental, que já comove certos grupos de esquerda, existem outras razões, não humanitárias, para conflitos na região, com potencial inclusive de provocar a guerra entre Marrocos e Argélia. 

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