‘Drones’ Atingem Casamentos, Funerais, Mercados, Residências, Hospitais

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“‘Drones’ Atingem Casamentos, Funerais, Mercados, Residências, Hospitais”: Medea Benjamin

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Quando desafiou Barack Obama frente a frente no discurso presidencial mais importante sobre o programa de drones dos EUA em maio de 2013, a defensora dos direitos humanos Medea Benjamin não estava apenas confrontando o presidente mais poderoso do mundo, mas também um mercado mundialmente bilionário, uma forte máfia que controla também a grande mídia de desinformação.

Não surpreendentemente Medea foi arrastada para fora do local, mas até seu último segundo ali, nos braços dos guardas, protestou e gritou verdades cruéis em relação a guerra secreta com veículos aéreos não tripulados por parte dos Estados Unidos. “Drones atingem casamentos, funerais, mercados, residências, hospitais”, conta a fundadora de CodePink pelos direitos humanos, quem já testemunhou a guerra de drones no Iêmen, Paquistão e Afeganistão.

O Rei está nu. Nunca na história o avanço tecnológico matou tantos inocentes, ao mesmo tempo que eleva sem precedentes o lucro do negócio das guerras. Trata-se do Império moribundo agonizando, desesperado por aquecer sua combalida economia, gerar o caos e, assim, poder dominar regiões ricas em petróleo e em biodiversidade.

O negócio dos veículos aéreos não tripulados é altamente lucrativo para as grandes corporações. Segundo o National Priorities Project do estado norte-americano de Massachussets, no ano fiscal de 2016 foram gastos 116.063 dólares por hora pelo regime de Washington para o programa de drones dos Estados Unidos, que inclui o General Atomics MQ-9 Reaper e o General Atomics MQ-1 Predator.

Para o ano fiscal de 2017, segundo o Center for the Study of Drone da Bard College de Washington, dos cerca de 600 bilhões do total gasto em defesa o Departamento de Defesa estadunisense alocou cerca de 4,6 bilhões de dólares para a guerra através das aeronaves não tripuladas, capazes não apenas de espionar mas também de transportar mísseis teleguiados.

As maiores fabricantes da tecnologia de veículos aéreos não tripulados, tanto ocidentais como não-ocidentais, são as norte-americanas The Boeing CompanyGeneral Atomics Aeronautical Systems Inc., Lockheed MartinNorthrop GrummanAeroVironment Inc. e E Textron Inc., a norueguesa Prox Dynamics AS, a sul-africana Denel Dynamics, a chinesa SAIC e a israelense Israel Aerospace Industries.

Cada Predator produzido pela General Atomics, tão elogiado por Barack Obama pela capacidade de bombardear, custa 4,5 milhões de dólares à Força Aérea dos Estados Unidos. Já o míssil Hellfire que vai acoplado ao Predator, fabricado pela Lockheed Martin, custa 110 mil dólares cada um.

Os cerca de 400 ataques com drones ao Paquistão que mataram entre 2 mil e 3 mil pessoas, custaram de 33 milhões 44 milhões de dólares de acordo com informações de Robotenomics (US Military To Spend $23.9 Billion on Drones and Unmanned Systems) e Mother Jones(Drones: Everything You Ever Wanted to Know But Were Always Afraid to Ask).

 

1 morto = 1 dólar; 1 morto = 1 barril de petróleo: o caos é o Reino dos ladrões. Sua plateia são os milhões de aloprados mundo afora que, deslumbrados, o aplaudem alegremente, conscientes de que possuem a mente lavada por consagrados meios de desinformação em massa. Porém, deixar a condição de ser escravo psicológico requer uma pequena dose de coragem cuja cômoda poltrona não estão dispostos a largar por nada!

“Os Estados Unidos são tão poderosos, que podem permanecer impunes diante de um comportamento tão arrogante”

“O uso de drones mantém nossos soldados fora de perigo, sendo assim mais fácil para os Estados Unidos envolverem-se em intervenções militares e fazer o governo dos Estados Unidos mais beligerante”, afirma Medea. Mesmo diante disso tudo, a maioria da sociedade norte-americana, uma das mais violentas em todo o mundo, subproduto da mídia e das próprias decisões “políticas” do regime de Washington, apoia a utilização dos veículos aéreos não tripulados justamente por poupar a vida de seus militares: segundo último levantamento de Pew Research de maio de 2015, 58% dos estadunidenses se diziam favoráveis à guerra secreta do “País da Liberdade”.

Nesta entrevista, a ativista norte-americana faz denúncias muito sérias sobre a guerra encoberta com “pássaros assassinos” de Tio Sam, diz quais interesses estão por trás disso, fala o que espera do programa de drones dos EUA para o futuro próximo, e lembra o dia em que se sentiu “obrigada a desafiar o presidente sobre um programa que estava matando muitos inocentes, e tornando-nos mais odiados em todo o mundo”.

Edu Montesanti: O que a aborreceu tanto a ponto de protestar publicamente contra o então presidente Barack Obama, em seu principal discurso sobre contraterrorismo tratando do programa de drones dos Estados Unidos na National Defense University em Washington D.C., em maio de 2013?

Medea Benjamin: Fiquei profundamente aborrecida durante o discurso do presidente Obama, em maio de 2013, ao que decidi acordar e desafiá-lo. Me aborreci porque ele continuou justificando a utilização da guerra com drones.

Estive no Iêmen, Paquistão e Afeganistão, onde conheci famílias que perderam seus entes queridos nos ataques com drones norte-americanos. O presidente disse que utilizávamos os drones apenas quando havia certeza de que nenhum civil seria morto, mas eu sabia que esse não era o caso. Eu sabia que muitos civis estavam sendo mortos, e que o governo dos Estados Unidos escondia essa informação oculta do público norte-americano.

Senti-me obrigada a desafiar o presidente por causa de um programa que estava matando muitas pessoas inocentes, e tornando-nos mais odiados em todo o mundo. Como advogado constitucional, ele nunca deveria ter autorizado o uso de drones assassinos, particularmente em países onde não estávamos em guerra.

O governo dos EUA garante que as operações de drones são uma alternativa mais precisa às tropas terrestres, autorizadas apenas quando uma ameaça “iminente” está presente e existe uma “certeza próxima” de que o alvo pretendido será eliminado. A justificativa para o uso de drones é, exatamente, que são cirúrgicos e precisos, que não matam civis. No entanto, o número oficial de civis mortos por drones é muito grande, há muito tempo.

a) O que você acha da “política” dos Estados Unidos de substituir tropas terrestres pelos veículos aéreos não tripulados?

b) Quanto os drones são precisos no combate a combatentes?

c) Como você vê a justificativa de Washington para a morte de inocentes por drones como “dano colateral”, ou que todos os mortos eram inimigos enquanto matam, na verdade, civis, Medea?

a) A utilização de drones em vez tropas terrestres é uma maneira de envolver os Estados Unidos na ação militar sem colocar a vida de nossos soldados em risco.

Se a causa for tão crítica para a segurança dos Estados Unidos, devemos estar dispostos a enviar nossos soldados.

Além disso, precisamente porque o uso de drones mantém nossos soldados fora de perigo, sendo assim mais fácil para os Estados Unidos envolverem-se em intervenções militares e fazer o governo dos Estados Unidos mais beligerante.

b) Os drones não são precisos. A grande maioria das pessoas mortas são as que os militares dos Estados Unidos, ou da CIA, nem sequer podem identificar.

Os mísseis disparados pelos drones têm atingido casamentos, funerais, mercados, casas residenciais e instalações de saúde. Isso, com certeza, não é “preciso”.

c) O exército dos Estados Unidos e a CIA chamam as pessoas que matam de combatentes e, na maioria dos casos, não têm provas disso.

Também é criminoso e insensível simplesmente ignorar o assassinato de pessoas inocentes como “danos colaterais”, como se suas vidas não fossem importantes.

Na maior parte do tempo, o governo dos Estados Unidos nem sequer se preocupa em reconhecer seus erros, em pedir desculpas nem em compensar as famílias por suas terríveis perdas. Isso apenas porque os Estados Unidos são tão poderosos, que podem permanecer impunes diante de um comportamento tão arrogante.

A professora doutora Azadeh Shahshahani, renomada jurista e diretora do Project South e ex-membro da American Civil Liberties Union (ACLU), observou recentemente a mim que:

a) No contexto doméstico dos Estados Unidos, os drones são utilizados para fins artísticos investigativos. Por exemplo, eles podem ser usados para investigar agronegócios com o fim de se verificar se estão envolvidos em abuso animal, ou não. Neste sentido, os drones podem desempenhar um papel importante e legítimo. No entanto, seu uso precisa ser regulado para garantir que sejam utilizados para vigilância por agências de aplicação da lei;

b) Segundo a lei humanitária internacional, os drones só podem ser utilizados com bombas em um conflito armado ativo e, mesmo assim, com certas restrições que incluem a necessidade militar, humanitária, a distinção e a proporcionalidade. Somente combatentes ou civis que participam diretamente de hostilidades podem ser alvo. A focalização de outros civis é proibida, e pode configurar crime de guerra

Quanto o governo dos Estados Unidos está respeitando esses princípios na utilização de drones, tanto na vigilância quanto como carregadores de bombas?

Há muitas maneiras positivas de se usar drones, mas não para matar ou para a vigilância ilegal.

Em muitas cidades em todo os Estados Unidos, grupos comunitários estão tentando impedir as forças policiais de obter acesso a drones que seriam usados para invadir a privacidade.

No que diz respeito aos crimes de guerra, eu soube, sem nenhuma dúvida, que o governo dos Estados Unidos cometeu tais crimes com o uso de drones. Um exemplo particularmente notável é o uso de “torneiras duplas”, ou seja, atirar um míssil seguido de outro que, pouco depois, atacará os socorristas. Este é, sem dúvida, um crime de guerra.

O que é pior no programa do drones, ser usado como “mecanismo de vigilância que ameaça a privacidade” ou como uma “máquina de matar”, ambos os pontos observados recentemente pelo professor Peter Kuznick [entrevista mais abaixo]?

Sem dúvida é pior matar as pessoas que espioná-las. Mas na maioria das vezes os dois crimes andam de mãos dadas. Os drones podem passar pelas aldeias, aterrorizando toda a população, e depois de alguns dias lançar mísseis para matar as pessoas que estavam espionando.

Visto que Trump tem dado maior liberdade à CIA para que ataque com drones, a situação deve piorar, não, Medea?

Sim, a situação está piorando com Trump, dando mais autoridade tanto à CIA como aos militares. Ele não está mais envolvido nos ataques aos alvos: designou essa autoridade para outros.

Em todas as áreas de combate, seja com drones ou aeronaves pilotadas, as guerras aéreas estão sendo intensificadas pelo presidente Trump.

Edu Montesanti

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