Doutrina Putin: a nova política exterior da Rússia

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21/2/2022, Professor Sergey Karaganov[1], de Russia Global Affairs.
Presidente da Rússia, Vladimir Putin, discursa à nação Foto: ALEXEY NIKOLSKY / AFP

Presidente Vladimir Putin fala à nação, no Kremlin em Moscou, dia 21/2/2022.[2] © AFP / Alexey NIKOLSKY__________________________________

Em 2021, a Rússia parece ter iniciado nova fase de sua política exterior. Vamos chamá-la de “destruição construtiva” do modelo anterior de relações com o Ocidente. Elementos dessa linha vêm-se acumulando há uma década e meia – talvez desde o famoso discurso de Vladimir Putin em Munique em 2007. Mas as tendências predominantes na política e na retórica eram ainda tentativas residuais de integração ao sistema ocidental contra o pano de fundo de um clima defensivo. Agora, isso mudou.”
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A destruição construtiva não é agressiva. A Rússia não vai atacar ninguém, explodir ninguém. A Rússia simplesmente, não precisa nem atacar nem explodir seja quem for.

Até agora, do ponto de vista puramente geopolítico, o mundo exterior já está criando perspectivas de médio prazo cada vez mais favoráveis ao desenvolvimento da Rússia.

A única grave exceção é a política continuada de expandir a OTAN e atrair a Ucrânia para o bloco, formal ou informalmente; isso, sim, cria situação de insegurança que a Rússia não pode aceitar.

Até agora, o Ocidente está na trajetória de lenta mas inevitável decadência, tanto interna quanto externamente, e até em termos econômicos. Precisamente por isso, o Ocidente iniciou essa nova ‘guerra fria’, depois de quase cinco séculos de domínio na política mundial, economia, cultura. E especialmente, depois do que pareceu ser a vitória final, dos anos 1990 a meados dos anos 2000.

De acordo com minhas estimativas, o Ocidente provavelmente perderá a nova guerra que tenta inventar. Depois, provavelmente se tornará parceiro mais razoável, no sistema global já sob novas lideranças. E parceiro mais razoável virá em boa hora, exatamente quando a Rússia precisa equilibrar as relações com a China amigável, mas cada vez mais poderosa.

Até agora, o Ocidente coletivo tenta desesperadamente defender-se contra essa realidade, com defesa desesperada e retórica agressiva. Tenta consolidar-se, usando os trunfos que lhe restam para reverter a tendência dominante. Um desses trunfos é a Ucrânia, empurrada para prejudicar a Rússia, para amarrar-lhe as mãos.

É importante não deixar que essas tentativas frenéticas transformem-se em confronto em grande escala. É importante não permitir que EUA e OTAN continuem com sua política atual. É desvantajoso para todos e perigoso – mas ainda é relativamente barato para os iniciadores de guerras.

Temos de convencer o Ocidente de que essa linha é contraproducente para o próprio Ocidente.

Outro trunfo com que o Ocidente coletivo pode contar é o domínio nas instituições do sistema de segurança euroatlântico, que se formou após o fim da última Guerra Fria, no contexto de um declínio acentuado do poder geral da Rússia.

Há mérito na posição de luta para destruir sistematicamente essa estrutura, principalmente ao se recusar a participar dele, e recusar-se a jogar por suas regras há muito desatualizadas e obsoletas e inerentemente desvantajosas para a Rússia.

A trilha na direção do Ocidente deve, o mais rápido possível, tornar-se secundária para a diplomacia eurasiana. Manter relações construtivas com a parte cidental do continente poderia facilitar a integração na Eurásia Expandida. Mas o sistema de instituições remanescentes do passado que agoniza dificulta a construção de tais relações. Significa que não temos interesse algum em preservar aquele sistema de instituições, que deve ser desmantelado.

O passo criticamente decisivo para avançar na criação de um novo sistema, o conteúdo mais importante da próxima etapa passa a ser (combinado com o desmantelamento do antigo) “reunir as terras”. Para Moscou é absoluta e premente necessidade.

Bom seria se tivéssemos tido mais tempo para fazer isso. Mas a história mostra que, 30 anos depois do colapso da URSS, descobriu-se que a maioria dos países pós-soviéticos jamais foram capazes de se tornar Estados realmente independentes. Alguns, pelo que se vê, talvez jamais cheguem à independência, e por muitas razões. Esse é tema para análises futuras, que ainda não fiz. Por enquanto, limito-me ao óbvio, que está na superfície:

– A maioria das elites locais não têm experiência histórica e cultural indispensável para construir Estado. Não puderam fazê-lo e não tiveram tempo suficiente para se tornar formadores de Estado. Com o colapso do espaço intelectual e cultural do Império Russo, os pequenos países foram os que mais perderam. Quando desapareceu o espaço intelectual e cultural partilhado, viu-se que as novas oportunidades abertas, para construir laços com o Oeste, de modo algum substituiriam aquele espaço intelectual e cultural partilhado.

A inexistência de qualquer núcleo formador de Estado deixou livres os que estavam no topo para venderem o próprio país em benefício deles mesmos. E não havia ideia de nação a ser defendida e pela qual lutar.

A maioria daqueles estados ou aceitará ser controlada do exterior, como os Bálticos fizeram, ou continuará a desmoronar. A somalização dos países vizinhos em alguns casos pode ser inaceitavelmente perigosa.

A questão, então, é: Como ‘unir’ as nações do modo mais eficiente e benéfico para a Rússia – sempre levando em conta a experiência czarista e governo soviético, quando a esfera de influência foi distendida além do limite razoável, e depois foi mantida à custa dos povos russos originários.

Deixaremos para outros artigos a reflexão sobre como lidar com a “cobrança” que a história nos impõe.

Aqui, reflito sobre a necessidade objetiva de tomar decisão difícil, na direção de adotar a política da “destruição construtiva”.

As muitas etapas pelas quais passamos

O estágio inicial da 4ª era da política exterior russa foi período de fraqueza e ilusões, que começou no final da década de 1980. A nação estava sem forças para resistir, queria acreditar que a democracia e o Ocidente viriam para nos salvar. Aquele período terminou em 1999, quando, após as primeiras ondas de expansão da OTAN, percebidas pelos russos como punhalada pelas costas, o Ocidente coletivo cometeu crime semelhante ao estupro coletivo do que restara da Iugoslávia.

Começou a fase de a Rússia levantar-se da posição ajoelhada, e começar – em segredo, sem chamar a atenção – a reconstrução.

Quando os EUA retiraram-se do Tratado dos Mísseis de Médio Alcance, o que expôs a disposição para recuperarem a superioridade estratégica, a Rússia teve de tomar decisões fatídicas, difíceis para um país ainda empobrecido: construir a série de sistemas de armas projetados para conter as ‘esperanças’ dos EUA.

O discurso de Munique, a guerra na Geórgia, a profunda reforma das forças gerais, levada a efeito em plena crise econômica global, que significou, dentre outras coisas, o fracasso do modelo de “imperialismo liberal globalista ocidental” (tomo emprestado o termo do notável especialista inglês em relações internacionais, Richard Sakwa), marcaram nova etapa na política russa.

A Rússia voltava ao papel de potência mundial, capaz de defender a próprias soberania e os próprios interesses.

Marcos nesse caminho são: a reintegração da Crimeia; a defesa da Síria; o fortalecimento das forças militares; a consistente limitação imposta à capacidade do Ocidente para influenciar a política doméstica russa; a exclusão, do serviço público, de uma elite rica que se havia associado ao Ocidente, contra os interesses russos – inclusive com uso inteligente da reação do Ocidente àquelas ações. Dada a crescente hostilidade, tornava-se inútil orientar-se em direção ao Ocidente; manter valores no Ocidente ia-se tornando menos lucrativo a cada dia.

A impressionante ascensão da China; a construção de relações de aliados de fato entre Moscou e Pequim iniciada nos anos 2010s; o movimento de pivô para o Oriente; e a crise multidimensional que engoliu o Ocidente levaram a forte alteração, a favor da Rússia, do equilíbrio geoconômico, especialmente evidente na Europa.

Há apenas uma década, a União Europeia via a Rússia como área periférica fraca e atrasada do continente, tentando fazer frente às grandes potências. Hoje, os membros da UE lutam desesperadamente tentando manter a independência geopolítica e geoeconômica que lhes escapa entre os dedos.

O período de “retorno à grandeza” terminou condicionalmente em 2017-2018. A Rússia alcançara um platô. A modernização prosseguiu, mas sob condições de desenvolvimento econômico lento, sempre ameaçado de se tornar mais lento. A economia fraca já ameaçava desmentir e desqualificar as conquistas. O povo (inclusive o autor dessas linhas) dava sinais de frustração, temendo que a Rússia, pela enésima vez em sua história, “arrancaria a derrota das garras da vitória”.

Mas, como depois se viu, aconteceu ali mais uma etapa de acumular forças, principalmente no campo do desenvolvimento de capacidades militares.

A Rússia avançou e garantiu que, por toda a década seguinte, manteria relativa invulnerabilidade estratégica e seria relativamente capaz de “predominar em cenário de escalada”, no caso de haver conflitos dentro da própria esfera de influência.

O ultimato que a Rússia lançou aos EUA e à OTAN, exigindo o fim da ampliação de infraestrutura militar perto das fronteiras russas; e da expansão do bloco para o leste, marcou o início dessa “destruição construtiva”.

O objetivo não é apenas fazer parar a inércia cada vez mais fraca, sim, mas mesmo assim ainda extremamente perigosa, da ofensiva geoestratégica ocidental.

Trata-se também de começar seriamente a lançar as bases para mudar as relações que se desenvolveram sob condições entre a Rússia e o Ocidente na década de 1990.

As renovadas capacidades militares da Rússia, a volta ao senso de retidão moral, a consideração dos erros do passado, a aliança muito próxima com a China nos permitem esperar que o Ocidente coletivo – que se autodesignou adversário da Rússia – comece a agir de modo racional, mesmo que com as inevitáveis idas e vindas.

Se acontecer assim, dentro de uma década – espero que antes disso – começará a construção conjunta de um novo sistema de segurança e cooperação, agora na Grande Eurásia, e baseado nos princípios da ONU e no direito internacional, não em “regras” fixadas unilateralmente, que o Ocidente vem tentando impor ao mundo nas últimas décadas.

Corrigir erros

Antes de continuar, quero registrar aqui que tenho em alta conta a brilhante diplomacia russa dos últimos 25 anos. Obrigada a jogar com cartas muito fracas, Moscou mesmo assim jogou jogo de mestre. De início, impediu que o Ocidente ‘acabasse’ com a Rússia; o país manteve o status formal de grande potência no Conselho de Segurança da ONU e preservou seus arsenais nucleares. Depois, servindo-se dos erros e fraquezas dos concorrentes e da força dos aliados, a Rússia passo a passo fortaleceu sua posição no mundo. Nesse campo, o grande feito foi ter construído relações amigáveis e profundas com a China.

A Rússia tem hoje algumas vantagens geopolíticas, que a URSS não teve. Mas não deve lutar para ascender à posição de superpotência hegemônica: essa aspiração arruinou a URSS.

Não devemos esquecer os erros de cálculo que cometemos, para não os repetir. Nós, com nossa fraqueza, preguiça mental e inércia burocrática, contribuímos para criar e dar longa vida ao atual sistema injusto e imprestável – mas o único que temos hoje para zelar pela segurança da Europa.

A grandiosa “Carta de Paris para uma Nova Europa”, assinada em 1990, continha cláusula segundo a qual os países escolheriam livremente as respectivas alianças, algo impensável para o Ato de Helsinque de 1975. Dado que em 1990 o Pacto de Varsóvia já agonizava, aquela cláusula garantia toda a liberdade à OTAN, para expandir-se como bem entendesse.

Esse documento ainda é usado como referência, mesmo na Rússia. Mas em 1990, o bloco do Atlântico Norte ainda podia pelo menos ser considerado “aliança defensiva”. Desde então, a organização e a grande maioria dos países-membros cometeram várias agressões – contra os remanescentes da Iugoslávia, e contra o Iraque, e contra a Líbia.

Boris Yeltsin, após animado encontro com Lech Walesa, assinou documento em 1993 em que declarou que a Rússia “compreendeu o plano da Polônia para se unir à OTAN”.

Quando o então ministro das Relações Exteriores da Rússia, Andrey Kozyrev, em 1994, soube dos planos de expansão da OTAN, começou a negociar sem a autorização do presidente os termos em que a Rússia poderia concordar com aquela expansão. A OTAN, imediatamente, espalhou a informação: se os russos estão negociando, significa que não são contra por princípio. Em 1995, Moscou pisou no freio, mas já era tarde demais: a barragem estava rompida; todos que discordavam da conveniência de o Ocidente expandir-se em direção à Rússia foram postos de lado.

Em 1997, em situação de desesperadora fraqueza econômica e dependência do Ocidente, a Rússia concordou em assinar o Ato Fundador sobre Relações Mútuas, Cooperação e Segurança Rússia-OTAN.

Conseguimos algumas concessões – a promessa de não alocar grandes contingentes militares nos novos estados-membros. Esse compromisso tem sido repetidamente violado pela OTAN ao longo dos anos.

Concordamos em que não haveria armas nucleares nos territórios signatários. Mas isso não atendeu plenamente aos interesses dos EUA, que há muito procuram (contra a vontade dos aliados) afastar-se o mais possível de potencial conflito nuclear na Europa, que quase inevitavelmente levaria a ataques nucleares contra os EUA. De fato o ‘acordo’ só fez ‘legalizar’ a expansão do bloco.

Houve erros menores, mas mais agressivos. A Rússia participou do programa Parceria para a Paz, cujo objetivo principal era criar a impressão de que a OTAN estaria pronta para ouvir a Rússia, o que justificaria a manutenção e até a expansão do bloco.

Outro erro ainda mais lamentável foi cometido mais tarde, quando a Rússia, depois da agressão da OTAN à Iugoslávia, juntou-se ao trabalho do Conselho Rússia-OTAN que chegou com conjunto encantadoramente vazio de tópicos para discussão. O único tema que deveria ter sido discutido – impedir a expansão da aliança e o avanço de sua infraestrutura militar até a fronteira russa – simplesmente não estava na agenda. O trabalho do Conselho continuou após a agressão da maioria dos países-membros contra o Iraque e até mesmo contra a Líbia, em 2011.

É uma pena que ainda não tenhamos tido coragem de dar à OTAN o nome que ela fez por merecer – organização agressora, autora de vários crimes de guerra.

Creio que seria excelente alerta, para muitos círculos políticos na Europa, por exemplo, para Finlândia e Suécia, que falam sobre a conveniência de aderir ao grupo.

Também serviria de alerta para muitos outros países, que ainda repetem o mantra de uma suposta natureza defensiva da aliança, sobre a necessidade de fortalecê-la para dissuadir inimigos imaginários.

Entendo todos que, no Ocidente, habituaram-se ao sistema atual, que permite aos norte-americanos comprar a obediência de parceiros menores – e não apenas no campo militar. – E permite aos parceiros menores economizar em segurança, vendendo parte de sua soberania. Mas por que precisaríamos nós, a Rússia, desse sistema? Sobretudo hoje, que já se torna óbvio que esse sistema alimenta o conflito e faz escalar o confronto junto às nossas fronteiras ocidentais e em todo o mundo.

A OTAN fomenta o confronto artificial. Quanto mais tempo durar o bloco, mais o confronto se agravará.

Ao mesmo tempo, o bloco é, de fato, perigoso para os próprios membros. Ao provocar confronto, não garante proteção.

As alegações de que o Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte forneceria defesa coletiva em caso de ataque não são verdadeiras. Não há garantias automáticas.

Conheço a história do bloco e a discussão norte-americana em torno de sua criação, e posso dizer com quase 100% de certeza que os EUA em hipótese alguma usarão armas nucleares para “proteger” aliados em caso de conflito com Estado nuclear.

A Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OSCE) também já está superada há muito tempo. É organização manobrada pela OTAN e pela União Europeia, que se servem da OSCE para prolongar o confronto e impor valores e padrões políticos ocidentais ao resto do mundo. Felizmente essa política da imposição vai-se tornando cada vez menos efetiva.

Em meados de 2010, tive a oportunidade de trabalhar no grupo pateticamente autodenominado “Painel de Eminentes” (que nome!) da OSCE, destinado a dar àquela organização novo mandato.

Se antes eu já tinha dúvidas sobre a utilidade e a efetividade da OSCE, esse contato próximo com a organização firmou em mim profunda convicção de que é organização extremamente destrutiva.

É organização antiquada, envelhecida e que só contribui para preservar o obsoleto.

Na década de 1990, a OSCE foi usada como instrumento para enterrar qualquer iniciativa que os russos ou outros tivessem para criar qualquer sistema europeu de segurança comum. europeu, nos anos 2000. O chamado Processo Corfu detonou a nova iniciativa de segurança da Rússia.

Praticamente todos os órgãos da ONU já foram expulsos do continente: a Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa; o Conselho de Direitos Humanos da ONU e o Conselho de Segurança.

Tempo houve em que a OSCE era vista como continuação e desenvolvimento útil do sistema da ONU para um importante subcontinente. Não deu certo.

Quanto à OTAN, vejo com muita clareza o que temos a fazer. Temos de minar a moral do bloco e a legitimidade política que lhe reste; temos de rejeitar a cooperação institucional, que se mostrou contraproducente; temos de preservar contatos apenas entre os militares. E mesmo esses devem operar como canal auxiliar que suplemente o diálogo com o Departamento da Defesa dos EUA, os ministérios da Defesa dos principais países europeus. Afinal, sabe-se que Bruxelas não toma mesmo nenhuma decisão séria no campo militar.

A política em relação à OSCE deve ser semelhante. Com uma ressalva. Embora, sim, essa organização seja destrutiva, jamais até hoje iniciou guerra alguma, nem praticou atos de desestabilização de países nem matanças.

Mas devemos reduzir nosso envolvimento no formato OSCE a um mínimo. Há quem diga que esse é o único espaço onde o ministro das Relações Exteriores da Rússia pode reunir-se com seus contrapartes. Não é verdade. Há muitos espaços onde se reúnem, até mais adequados, no sistema da ONU.

Seja como for, os diálogos bilaterais são muito mais eficazes do que essas reuniões amplas às quais se impõe a disciplina do bloco. Dispor observadores e forças de manutenção da paz da ONU sempre será mais eficiente.

O espaço limitado desse artigo não permite que me aprofunde nas específicas políticas de cada uma das organizações europeias – União Europeia e Conselho da Europa, por exemplo.

Mas posso definir o princípio geral nos seguintes termos: cooperamos, onde virmos benefícios; onde a Rússia nada tenha a ganhar, nos abstemos.

Trinta anos de experiência dentro do atual sistema de instituições europeias provaram, de forma convincente, que seria prejudicial para a Rússia manter-se o atual sistema de instituições na Europa. A inércia que tomou conta daquelas instituições, levando à reprodução e ao agravamento do confronto – já com ameaça militar no subcontinente e em todo o mundo –, nada traz ou trará de bom para a Rússia.

Houve tempo em que podíamos ainda sonhar que a Europa ajudaria a fortalecer a segurança, e a promover a modernização política e econômica da Rússia. Nada disso. Hoje já sabemos que minam a segurança no continente. Por que, então, copiaríamos o sistema ocidental, a cada dia mais disfuncional e deteriorado? São esses os novos valores ocidentais que a Europa adotou?

Teremos que limitar qualquer expansão que nos engula. Para isso, melhor nos recusar a cooperar, contribuindo para a erosão do sistema, o que já está acontecendo. Nossa esperança é que ajudaremos os vizinhos da civilização russa, se assumirmos posição firme e deixarmos que os vizinhos de nossa civilização operem as ferramentas que eles mesmos inventaram. Talvez as elites ocidentais voltem a políticas menos suicidárias, mais seguras para todos.

Claro que temos de tomar cuidados para sair desse sistema de relações, contribuindo assim para acelerar sua autodestruição, e limitando ao mínimo os inevitáveis danos colaterais que causarão. Mas mantê-lo no formato atual só faz aumentar o perigo.

Políticas para a Rússia de amanhã

Nesse mundo em ruínas, mais prudente é manter-se pelo maior tempo possível, sentado na “fortaleza” de uma Rússia neoisolacionista, cuidando dos arranjos internos. Mas dessa vez, a história exige que as decisões sejam tomadas mais rapidamente. Muitas de minhas propostas para os contornos do que chamei provisoriamente de “destruição construtiva” emergem naturalmente de análises anteriores.

Não há necessidade de interferir, nem de tentar influenciar as dinâmicas internas do Ocidente, cujas elites estão desesperadas a ponto de terem desencadeado nova guerra fria contra a Rússia.

O que temos de fazer, isso sim, é pôr um limite ao que possam fazer, usando instrumentos políticos e técnicos – incluindo instrumentos tecno-militares – e fixar determinadas linhas vermelhas. Enquanto isso, conforme o sistema ocidental continue sua trilha de degradação moral, política e econômica, as potências não ocidentais (dentre as quais a Rússia é player destacado) inevitavelmente verão que suas posições culturais, geopolíticas, geoeconômicas e geoideológicas se fortalecerão.

Nossos parceiros ocidentais, pode-se prever, trabalham hoje para apagar as demandas russas por maior segurança, valendo-se do processo diplomático para prolongar a vida útil de suas instituições. Não temos de recusar conversas e cooperação nas esferas econômica, política, cultural, educacional, na saúde, onde servir ao interesse da Rússia.

Mas também temos de usar o tempo que nos dão, para, aumentar a pressão político-militar, psicológica e até técnico-militar, nem tanto sobre a Ucrânia, que foi convertida em bucha de canhão da nova Guerra Fria, mas sobre o Ocidente coletivo, para forçá-lo a mudar de ideia e a se afastar da política das últimas décadas.

Nada temos a temer quanto a uma escalada do confronto. Vimos as tensões aumentar até quando tentávamos apaziguar o Ocidente. Mas é preciso estar pronto para revide mais forte do Ocidente. A Rússia também deve ter alguma alternativa de longo prazo a oferecer: um novo quadro político baseado na paz e na cooperação.

O Ocidente pode ameaçar com sanções devastadoras. E nós podemos paralisar economias e sociedades do Ocidente com a possibilidade de nossa respostas assimétricas

Claro que é sempre útil lembrar aos nossos parceiros que há alternativa benéfica acessível para todos.

Com políticas razoáveis e assertivas, também no plano doméstico, será possível sobreviver de forma relativamente pacífica a outra onda de hostilidade ocidental. Já escrevi que temos boa chance de vencer essa guerra fria.

Nossa própria experiência histórica também inspira otimismo: mais de uma vez conseguimos domar ambições imperiais em benefício de nós mesmos e de toda a humanidade, transformando aspirantes a grandes impérios em vizinhos domados e relativamente pouco ameaçadores: a Suécia, depois da Batalha de Poltava; a França depois da Batalha de Borodino; a Alemanha, depois de Stalingrado e Berlim.

O slogan da nova política russa em relação ao Ocidente pode ser uma quadra dos engenhosos e muito apropriados versos de “Os Citas”, 1918, de [Alexander] Blok: “Venham a nós! Dos horrores da guerra, deem as mãos à paz! Antes que seja tarde demais, deponham armas. Camaradas! Seremos irmãos!” [Scynthians, ing, “Os Citas”].

Mas, tentando melhorar (mesmo com remédios amargos) as nossas relações com Ocidente, é preciso lembrar que, há decorridas duas décadas, o Ocidente, embora culturalmente próximo de nós, está ficando sem tempo. De fato, já tem menos tempo a cada dia, já há duas décadas.

O Ocidente está em modo de controle de danos, buscando qualquer ajuda que consiga. Mas as vias reais e os desafios reais de nosso presente e de nosso futuro russo, estão no Oriente e no Sul.

Ainda que forçada a endurecer e intensificar sua ação para nações ocidentais, a Rússia não deve descuidar de seu movimento de pivô para o Oriente. E essa virada, especialmente o desenvolvimento dos territórios além dos Urais, desacelerou nos últimos dois ou três anos.

É necessário impedir a que a Ucrânia seja convertida em fonte de ameaça militar. Isso posto, seria contraproducente consumir muitos recursos administrativos, políticos e especialmente econômicos nessa empreitada.

Precisamos administrar ativamente a instabilidade e manter sob controle essa situação volátil. Grande parte do território ucraniano foi castrado pela própria elite antinacional, corrompida pelo Ocidente, e infectada com o bacilo patogênico do nacionalismo militante.

Muito mais eficiente investir na direção leste, no desenvolvimento da Sibéria.

Ao criar condições favoráveis de trabalho e de vida, atrairemos não apenas russos, mas também outros residentes em terras do antigo Império Russo, incluindo ucranianos. Historicamente, os ucranianos já deram contribuição significativa para o desenvolvimento da Sibéria.

Permitam que eu reitere o que já escrevi em outros artigos: foi a anexação da Sibéria, sob o czar Ivan Vasilyevich, o Terrível, que fez da Rússia uma grande potência; não o acesso à Ucrânia, sob Alexei Mikhailovich,, apelidado ‘o Pacífico’.

É hora de parar de repetir a frase provocativa – e tão tipicamente polonesa – de Zbigniew Brzezinski, para quem a Rússia, sem a Ucrânia, não pode(ria) ser grande potência. Essa Ucrânia, como entidade política, foi criada por Lênin e expandida para o Ocidente sob Stalin. Muito mais perto da verdade é o contrário do que diz Brzezinski: a Rússia não pode ser grande potência enquanto for obrigada a carregar o peso cada dia mais insuportável de uma Ucrânia adversária.

A via mais promissora é, obviamente, o desenvolvimento e fortalecimento das relações com a China. Esse movimento, sim, aumentará em muito as capacidades de ambos os países. Se o Ocidente continuar ferozmente hostil, vale a pena pensar em firmar uma aliança defensiva temporária – por cinco anos – com a China.

Naturalmente, é necessário proteger-se, no caso de alguém ser acometido de alguma “embriaguês do sucesso”, e pensar em voltar ao modelo político do Império do Meio chinês – que cresceu ao converter vizinhos em vassalos. Devemos ajudar Pequim como pudermos e evitar que sofra algum revés, mesmo temporário, na guerra fria que o Ocidente desencadeou contra ela. Qualquer revés que a China sofra, também nos abalará.

Além do mais, agora sabemos muito bem em que se converte o Ocidente, quando acredita que esteja vencendo. Tivemos de tomar medidas duras para curar a ressaca dos EUA, quando se deixou intoxicar pelo poder, em 1990.

É claro que a política da Rússia orientada para o Leste, não deve ser exclusivamente focada na China. Na política, na economia e na cultura mundiais, o Leste e o Sul estão em ascensão, beneficiados, inclusive, por nosso trabalho de minar a superioridade militar do Ocidente – fonte primária de uma hegemonia que durou 500 anos.

Quando se tratar de construir novo sistema de segurança europeu, que substitua o antigo já perigosamente desatualizado, ele deve ser construído como parte da estrutura de um grande projeto eurasiano.

Nada de prestável pode ainda nascer do velho sistema euro-atlântico.

É evidente que importante pré-requisito para o sucesso está em desenvolver e modernizar o potencial econômico, tecnológico e científico da Rússia. Esses desenvolvimentos são as condições que assegurarão que o poder militar será preservado. E o poder militar continua a ser o principal pilar de segurança e soberania. Mas a Rússia não pode ter sucesso sem melhorar a qualidade de vida para a maior parte do nosso povo: mais prosperidade, saúde, educação e mais atenção ao meio ambiente.

A restrição das liberdades políticas, inevitável enquanto durar o confronto com o Ocidente coletivo, não deve estender-se – de forma alguma – à esfera intelectual. Não é fácil, mas é alcançável.

Temos de preservar a máxima liberdade intelectual possível, para a parte talentosa e criativa do povo, sempre pronta a servir ao país.

O desenvolvimento científico à maneira soviética (laboratórios para pesquisa e desenvolvimento que operavam como parte do sistema de campos de trabalho, os “sharashki”) já não funcionará no mundo moderno. A liberdade faz expandirem-se os talentos de nosso povo, que trazemos a criatividade no sangue.

Mesmo na política externa, a liberdade de que usufruímos hoje, dos grilhões ideológicos, oferece vantagens importantes, se nos comparamos a nossos vizinhos de mentalidade mais estreita.

A história nos ensina que a restrição brutal da liberdade de pensamento que o regime comunista impôs ao próprio povo levou à ruína da União Soviética. Condição essencial para o desenvolvimento e o avanço de qualquer nação é que a nação respeite a liberdade individual.

Se queremos desenvolver e vencer, também é absolutamente necessário um núcleo espiritual –uma ideia nacional, uma ideia que une e leva adiante. É verdade axiomática que grandes países não conseguem ser grandes se não levarem em si a ideia sincera da própria grandeza.

Nas décadas de 1970 e 1980, os russos vivemos sem ideia de qualquer grandeza nacional que nos norteasse. Espero que esteja começando a diminuir a resistência das elites dominantes, que ainda bloqueiam qualquer promoção de qualquer nova ideologia, ainda ‘traumatizadas pelas dores da era comunista’.

Nesse sentido, o discurso de Vladimir Putin na reunião anual de outubro do Valdai Club em 2021 foi poderoso sinal encorajador.

Como crescente número de filósofos e propagandistas russos, tenho exposto minhas próprias versões do que seja essa “ideia russa”. (Peço desculpas pela repetida auto-referência. Mas é inevitável, em artigo que não pode estender-se muito).

Perguntas ao futuro

Agora, discutamos aspecto muito importante, mas até agora pouco examinado da nova política. O sucesso dessa nova política é impossível, se não superarmos e atualizarmos a base ideológica ultrapassada e muitas vezes daninha sobre a qual se baseiam nossas ciências e nossa vida pública.

É claro que a necessidade de superar aquela base ideológica não significa que voltaremos a rejeitar as conquistas do pensamento político, econômico e de política externa das gerações anteriores.

Os bolcheviques já jogaram no “lixo da história” o pensamento social da Rússia czarista – e conhecemos o resultado.

A “descolonização intelectual”

Mais recentemente, deixamos de lado o marxismo e nos felicitamos. Mas agora, tendo sofrido o efeito de outros dogmas, percebemos que nos precipitamos. Marx, Engels e Lênin, com sua teoria do imperialismo, construíram idéias sólidas, que devemos usar.

As ciências sociais – as ciências que estudam a vida das pessoas e das sociedades – têm de considerar o contexto nacional, por mais cosmopolitas que seus adeptos tentem parecer. Ciências sociais que cresçam fora do solo histórico nacional, visam, em última análise, a servir aos interesses dos países onde brotam e/ou às respectivas classes dominantes e proprietárias.

Transferir sem criticar, soluções e postulados dessas ciências sociais necessariamente nacionais e válidos para outra realidade nacional é inevitavelmente trabalho infrutífero, ou engendra monstros.

Depois de alcançarmos segurança militar e soberania política e econômica, temos de começar a trabalhar para alcançar independência intelectual. No mundo novo que vai surgindo, a independência intelectual é uma das condições absolutamente necessárias para que se chegue ao desenvolvimento e se ganhe influência internacional.

O proeminente cientista político russo Mikhail Remizov foi o primeiro, na minha opinião, a chamar esse processo de “descolonização intelectual”.

Depois de décadas vivendo à sombra do marxismo – que veio de fora –, começamos a nos mover sob outro dogma, também vindo de fora, chamado “liberal-democrático”.

O “liberalismo democrático” invadiu tudo, tanto o pensamento econômico, como a ciência política, e até em grande medida as ciências da Política Exterior e da Defesa. Foi como uma espécie de fascinação que não nos trouxe bem algum. Cegos, fascinados por esse “liberalismo democrático”, perdemos terra, tecnologia e povo.

A partir de meados dos anos 2000, começamos a exercitar nossa soberania. Mas, então, os que agiram ainda eram movidos em grande parte por instinto, sem ter postulados científicos e ideológicos claros para orientação nacional (porque, repito, nenhum postulado científico e ideológico interessa a uma dada nação, se não for nacional, local).

Até agora, não ousamos dizer a nós mesmos que a visão de mundo, ideológica e científica, pela qual nos orientamos nos últimos 40, 50 anos, está ultrapassada e/ou foi originalmente pensada para servir às elites de outros países.

Para ilustrar esse ponto, proponho meia dúzia de perguntas recortadas, quase ao acaso, de minha longa lista.

Começo pelas questões existenciais, quase eternas, da alta filosofia.

Então, o que vem primeiro, no homem e na sociedade: espírito ou matéria?

E, em sentido mais mundano, em termos políticos: que interesses movem as pessoas e suas comunidades e Estados no mundo moderno?

Para marxistas e liberais vulgares, a resposta é: interesses econômicos. Basta lembrar a frase cenográfica de Bill Clinton “É a economia, estúpido”, tomada até há pouco tempo como axioma.

Mas, quando as pessoas, satisfazem a necessidade elementar de alimento, passam a se mover por interesses de ordem superior. Amor à família, à pátria, anseio por dignidade nacional, por liberdade pessoal, mas também por poder, glória. Em princípio, a hierarquia de valores é conhecida há muito tempo, desde que foi introduzida na discussão dos cientistas, em 1940-1950, exposta na famosa pirâmide de Maslow.

O capitalismo moderno distorceu essa pirâmide, primeiro ao impô-la via a mídia tradicional e, depois, por todas as redes digitais, para ricos e pobres, a cada um, segundo a própria capacidade.

O que fazer, dado que o capitalismo moderno, desprovido de fundamentos morais ou religiosos, incita ao consumo desenfreado, que derruba fronteiras morais e geográficas e rapidamente entra em conflito até com a natureza, e já ameaça até a sobrevivência de nossa espécie??

Nós, russos, compreendemos melhor que todos, que esforços para livrar-nos de empreendedores e capitalistas movidos pelo exclusivo desejo pessoal de acumular riquezas terão consequências monstruosas tanto para as sociedades como para o meio ambiente (e quanto à consciência conservacionista, a economia socialista não foi especialmente amigável).

O que fazer de valores mais recentes – a negação da história, da pátria, do gênero, da fé, com movimentos de lgbtismo agressivo e ultrafeminismo? Reconheço o direito de as pessoas alistarem-se nesses grupos. Mas os declaro pós-humanismos.

Temos de considerar tudo isso como novo estágio normal da evolução social? Não vejo por quê.

Devemos tentar isolá-los, limitar suas possibilidades de desenvolvimento e esperar que as sociedades também sobrevivam a essa epidemia moral? Ou temos de lutar diretamente, liderando a grande maioria da humanidade, aderidos a valores ditos “conservadores”, mas que são simples valores humanos? Será talvez necessário entrar em luta e exacerbar um nível já perigoso de confronto com as elites ocidentais?

No mundo moderno, o desenvolvimento da tecnologia e o crescimento da produtividade do trabalho ajudaram a alimentar a maioria das pessoas, mas ao mesmo tempo o mundo escorregou para a anarquia-como-hábito; e no nível global sumiram a maioria das orientações habituais.

Talvez seja o caso de os interesses da segurança terem-se sobreposto mais uma vez aos interesses econômicos. Talvez seja o caso de as ferramentas do poder militar e a respectiva vontade política militar terem assumido o controle daqui em diante?

O que é a dissuasão militar no mundo moderno? Será talvez a ameaça de causar prejuízo a ativos nacionais e físicos, ou a ativos estrangeiros e à infraestrutura de informação, com os quais as atuais elites ocidentais cosmopolitas mantêm laços tão estreitos?

Em que se converterão as sociedades ocidentais, se aquela infraestrutura militar e de segurança entrar em colapso?

E há também uma questão relacionada à anterior: o que é “paridade estratégica”, conceito que ainda usamos hoje?

Será talvez mais uma estupidez ocidental recolhida por líderes soviéticos, que arrastaram seu povo para exaustiva corrida armamentista, por causa de um complexo de inferioridade e da síndrome que que foram acometidos dia 22/6/1941? (Já estamos respondendo a essa pergunta, embora ainda gaguejemos discursos sobre igualdade e soluções simétricas.)

E o que é o controle de armas, que tantos creem que seja tão importante? Será simplesmente meio de coibir uma corrida armamentista cara que beneficia o lado mais rico, reduzir a ameaça de guerra? Ou, diferente disso, será mais uma ferramenta para legitimar essa mesma corrida, desenvolver armas, impor programas de que o ‘outro lado’ nem precisa? Não há resposta óbvia para essa pergunta.

Mas voltemos a questões de ordem superior.

A democracia é realmente o ápice do desenvolvimento político? Ou ainda, se não estamos falando de democracia aristotélica direta (também limitada), será uma das ferramentas de que se servem as oligarquias dominantes para fazer a gestão das sociedades? Ferramentas vão e vem, dependendo do estado das sociedades e seu ambiente. Em situação desfavorável, essas ferramentas são descartadas, para renascer quando as condições externas e internas amadurecem e voltarem a ser necessárias.

Não faço aqui qualquer apelo ao autoritarismo desenfreado ou à monarquia. Penso que exageramos na centralização, especialmente no nível de base municipal. Mas se a democracia não passa de ferramenta, talvez seja a hora de parar de fingir que ‘ansiamos’ por democracia, e falar claramente: queremos liberdades pessoais, sociedade próspera, segurança e dignidade nacional? Mas como então legitimar o poder aos olhos do povo?

Estará o Estado realmente destinado a extinguir-se, murchar, como acreditavam marxistas e globalistas liberais, enquanto sonhavam com união de corporações transnacionais, ONGs internacionais (ambas sempre completamente nacionalizadas e privatizadas) ou associações políticas supranacionais? Vamos ver quanto tempo a União Europeia vai aguentar, no formato atual.

Mais uma vez, nada do que acima fica dito implica negar a conveniência de unir os esforços de Estados e povos para o bem maior, por exemplo, para remover barreiras alfandegárias onerosas ou criar uma política conjunta de proteção ao meio ambiente. Talvez, afinal, devamos focar nossos esforços em fortalecer nosso Estado e apoiar países próximos, deixando de lado os problemas globais que não foram criados por nós? Mas, se agirmos assim, o que garante que outros países não criem mais problemas?

Qual é o papel da terra e dos territórios – ativo cada vez menor, um fardo, como muitos de nós costumávamos dizer até recentemente? Ou, ao contrário, são o maior dos tesouros da nação, sobretudo em tempos de crise ambiental, mudança climática, crescente déficit de água e comida em algumas regiões e absoluta falta de água e alimentos em outras regiões?

O que então devemos fazer com centenas de milhões de paquistaneses, hindus, árabes, habitantes de outros territórios que podem tornar-se inabitáveis? Ou devemos talvez convidá-los, como EUA e Europa fizeram quando começaram na década de 1960 a atrair migrantes para baixar o custo da mão de obra local, para minar a influência dos sindicatos? Ou cercar e preparar um modelo de país onde os povos originários da Rússia sejam preparados para defender seu território? Nesse caso, devemos abandonar qualquer esperança de desenvolver democracia prestável – como a relação entre Israel e a população árabe originária demonstra sobejamente.

Ou será que o desenvolvimento da robótica, atualmente em estado de grave atraso, permitirá suprir a falta de braços que tornem novamente habitáveis os territórios? Em geral, qual é o papel dos russos originários dado que essas populações continuam a encolher, e diminui sua participação na população da Rússia? Considerada a história do povo russo, a resposta pode ser otimista. Mas nada garante que aconteça assim.

Posso fazer muitas outras perguntas, especialmente na esfera econômica. É importante perguntar e tentar responder o mais rápido possível a essas e a outras perguntas. Essas respostas são a condição mais importante para o desenvolvimento e a vitória.

A Rússia necessita de nova economia política, livre dos dogmas do marxismo e do liberalismo – e que seja algo mais que o atual pragmatismo duro em que se baseia nossa política externa.

Essa nova economia política tem de incluir um idealismo que ajude a preparar hoje, o futuro da nação, uma nova ideologia russa que incorpore nossa história e tradições filosóficas. Ideia semelhante já foi expressa mais de uma vez pelo professor Pavel Tsygankov.

Estou certo de que esta é a tarefa mais importante de todos os nossos cientistas de relações internacionais, cientistas políticos, economistas e filósofos. É tarefa gigantesca. Só continuaremos a contribuir para nossa sociedade e nosso país, se quebrarmos nossos estereótipos habituais e confortáveis de pensamento. Para adoçar essa tarefa, termino em tom otimista: será que já não é afinal hora de compreender que nosso objeto de pesquisa – relações exteriores, políticas domésticas e economia – é resultado de um processo criativo que abraça massas e dirigentes? De reconhecer que, de certo modo, o que fazemos é arte? Que tem muito de inexplicável, que brota da intuição, do talento? E que somos, nós, como críticos de arte. Falamos sobre fatos e atos, descrevemos, identificamos tendências, ensinamos História aos artistas – massas e governantes –, e História é saber muito útil para eles.

É verdade que muitas vezes nos enredamos nas teorias, aparecemos com ideias que pouco têm a ver com a realidade, que a distorce e esmaga, quando só olhamos fragmentos separados.

Às vezes, nós cá, sim, fazemos História. Pensem em Yevgeny Primakov, em Henry Kissinger. Mas creio que esses bem pouco se importavam com identificar a própria ‘abordagem’, com identificar a ‘escola’ a que se ligavam, que aspectos dessa história-arte representavam. Sempre confiaram no que sabiam, na experiência pessoal que acumularam e na intuição.

Gosto da ideia de sermos uma espécie de especialistas em arte.

E creio que essa ideia pode tornar um pouco mais fácil a assustadora tarefa de revisar o dogma.*******

 

 

[1] Professor Sergey Karaganov, presidente honorário do Conselho de Política Exterior e Defesa da Rússia, e supervisor acadêmico na School of International Economics and Foreign Affairs Higher School of Economics (HSE) em Moscou.

[2] http://www.orientemidia.org/discurso-de-vladimir-putin-explicando-por-que-a-russia-comeca-na-ucrania/

Tradução automática russo-port., por Google Translate, corrigida e revisada, confrontada também com tradução ao inglês. Não oficial. Para finalidades acadêmicas, sem valor comercial.( Vila Mandinga)

 

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