Destruir a Síria para criar um Sunistão

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Tradução Vila Vudu

Mapa impressionante do império do ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico
(dica de Pepe Escobar, no Facebook)
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Qual a conexão entre os EUA bombardearem uma base militar síria em Ayyash, Síria, e a invasão turca no norte do Iraque?

Parecem ser eventos isolados, mas são parte de um plano maior para balcanizar o Oriente Médio, para fortalecer o domínio, para Washington, de recursos preciosos, para empurrar a Rússia para guerra cara e prolongada e para garantir que todo o petróleo do Oriente Médio continue a ser denominado em EUAdólares. Joseph Kishore resumiu tudo isso do seguinte modo, em postado recente no World Socialist Web Site. Disse ele:

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“A força básica por trás da guerra na Síria é a mesma que motivou a formatação imperialista de todo o Oriente Médio: os interesses do capital financeiro internacional. As grandes potências imperialistas sabem que, se quiserem pôr a mão no butim, têm também de fazer sua parte da matança” (The new imperialist carve-up of the Middle East [Oriente Médio: a reformatação imperialista],
Bingo. Em resumo, a guerra ao terror não é mais que uma folha de parreira de relações públicas para esconder as vergonhas de Washington, no esforço para continuar a mandar em todo o mundo. É impossível compreender o que se passa hoje no planeta, sem ver com clareza como alguns atos de violência e terror aparentemente disparatados encaixam-se e fazem perfeito sentido como movimentos de uma mesma estratégia geopolítica mais ampla e mais abrangente, para criar uma nova ordem mundial unipolar; para esmagar todos e quaisquer rivais emergentes; e para ampliar a dominação de pleno espectro dos EUA por todo o planeta.

Vejamos os movimentos específicos: domingo, aviões dos EUA bombardearam uma base militar síria a leste de Raqqa, matando três soldados sírios e ferindo outros treze. O incidente aconteceu na vila de Ayyash na província Deir Ezzor. Porta-voz da coalizão dos EUA, coronel Steve Warren, negou qualquer envolvimento dos EUA no ataque mortal, apesar de o Observatório Sírio de Direitos Humanos (da oposição ‘de sofá’, com base em Londres, contra o presidente Assad), já ter confirmado que “o ataque aéreo atingiu a base militar”. Segundo esse ‘observatório’, “É a primeira vez que ataque da coalizão liderada pelos EUA matam soldados do governo sírio”. A negativa de Warren, que é resposta automática do Pentágono para negar qualquer culpa, sugere que o ataque tenha sido provocação deliberada para disparar ataques russos de retaliação os quais, por sua vez, ‘justificariam’ maior comprometimento de soldados e de armas norte-americanos naquela guerra síria que já dura quatro anos e meio.

Não se sabe ainda se os ataques foram autorizados diretamente pela Casa Branca ou por bandidos agindo independentemente no Pentágono. O que é claro porém, é que o ataque a soldados sírios, distantes mais de 40 quilômetros do alvo designado, não aconteceu por erro. Vale também observar que, segundo a análise militar de “South Front”, o raid de bombardeio norte-americano coincidiu com “ofensiva de grande escala comandada pelo ISIS nas vilas de Ayyash e Bgelia.” Em outras palavras: os EUA deram suficiente cobertura aérea para que os terroristas do ISIS pudessem levar a cabo suas operações em terra.

Foi tudo parte do mesmo plano, ou não passou de mera coincidência?

Menos de 24 horas depois desse ataque, aviões dos EUA bombardearam a vila de Al-Khan no nordeste da Síria, onde mataram 26 civis, inclusive no mínimo quatro mulheres e sete crianças. A mensagem que os militares dos EUA de Obama estão enviando com esses ataques mortais é que eles querem o controle sobre o espaço aéreo do leste da Síria.

O plano é remover o ISIS, para ali estabelecer um estado sunita, estado de facto, consistente com o esquema de fracionar os territórios da Síria e do Iraque em pequenos cantões governados por senhores-da-guerra locais, fanáticos religiosos e matadores em geral que sirvam aos EUA como vassalos/fregueses. Já há hectares de análises que trabalham exatamente nessa direção, e não precisamos nos deter nisso.

Coluna publicada recentemente no New York Times assinada pelo neoconservador John Bolton resume bem o conceito básico que parece corresponder à posição de virtualmente todo o establishment politico norte-americano. Aqui, um trecho do artigo:
“A realidade hoje é que Iraque e Síria como os conhecemos já não existem (…). Em vez de tanto se dedicar a recriar o mapa de pós 1ª Guerra Mundial, Washington melhor faria se reconhecesse a nova geopolítica. A melhor alternativa ao Estado Islâmico no nordeste da Síria e oeste do Iraque é criar-se ali um estado sunita, novo e independente (…).

Essa proposta de um estado sunita difere completamente da visão do eixo russo-iraniano e de seus procuradores (o Hezbollah, o Sr. Assad e Bagdá apoiada por Teerã). O objetivo deles, de restaurar os governos iraquianos e sírio devolvendo-os às antigas fronteiras é objetivo absolutamente oposto aos interesses dos EUA, de Israel e de estados árabes amigos (…).

O novo “Sunistão” talvez não seja uma Suíça. Essa não é iniciativa democrática, mas fria política de poder. É ideia consistente com o objetivo estratégico de impedir o avanço do Estado Islâmico, que os EUA partilhamos com nossos aliados; e é objetivo alcançável” (“John Bolton: To Defeat ISIS, Create a Sunni State” [Para derrotar o ISIS: criem um Estado sunita], New York Times).
Como já ficou dito, o artigo de Bolton é apenas um, dentre vários artigos e documentos políticos que apoiam a divisão de Iraque e Síria e a reformatação do mapa do Oriente Médio.

O ISIS, que em vasta medida é invenção de agências ocidentais de inteligência e seus contrapartes no Golfo, é elemento criticamente importante de todo o plano. Ao implantar uma organização terrorista precisamente no epicentro das fontes de petróleo do planeta, cria-se todo o contexto e os argumentos para a intervenção, naquela mesma área, por tantas nações soberanas quantas o hegemon escolha.

Assim se começa a poder entender os bombardeios dessa semana em Ayyash e Al-Khan no nordeste da Síria. Os EUA justificam os ataques, desfraldando a camiseta ensanguentada do ISIS, quando, na verdade, os EUA só fazem perseguir seus próprios estreitos interesses estratégicos. E enquanto os EUA não conseguirem implantar formalmente uma zona aérea de exclusão naquele local, o que se vê é que há hoje maiores riscos associados a quaisquer operações no leste da Síria, do que havia semana passada: é precisamente essa a mensagem que o Pentágono quer enviar.

A mesma regra aplica-se também à invasão, por soldados turcos, no norte do Iraque (aproximadamente 900 soldados e 20 tanques).

Em primeiro lugar, não é absolutamente possível que a Turquia lançasse esse tipo de movimento sem, antes, ter recebido luz verde de Washington. Todos sabemos que o governo Obama reagiu com violência inaudita quando Moscou defendeu a Crimeia, depois do golpe da CIA em Kiev. Compare-se o que foi feito e o que disse o enviado especial de Obama ao Iraque, Brett McGurk (pelo Twitter): “EUA não apoiam deslocamentos militares dentro do Iraque na ausência do consentimento do governo iraquiano.” (Today’s Zaman)

Como assim?! Quer dizer que 5 mil soldados norte-americanos morreram em guerra no Iraque, e tudo que McGurk, enviado de Obama, tem a dizer é ‘Não, Turquia, o que vocês estão fazendo não é bonito’?

Considere-se que Washington não impôs sanções à Turquia, não atacou a moeda turca ou seus mercados financeiros, nem ameaçou fazer guerra à Turquia, como fez no caso da Rússia. Verdade é que Obama nem reclamou!

Obama limitou-se a olhar para outro lado, fingiu que não via coisa alguma. E ignorou o assunto. Evidentemente, a atitude de Obama enfureceu o aliado dos EUA em Bagdá, primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi, que ameaçou retaliar, se as tropas turcas não se retirarem nas próximas 24 horas.

Mais uma vez, o movimento turco encaixa-se perfeitamente na estratégia imperial de “desconstruir” Síria e Iraque e quebrar os respectivos territórios em vários paraestados [talvez: “pseudo-estados”; ing. statelets], simulacros de estados que já nascerão malsucedidos [‘failed states‘], inócuos, que permanecerão num “permanente estado de dependência colonial” por todo o futuro hoje possível.

Quanto aos zelotes islamistas turcos em Ancara, com certeza sentir-se-ão plenamente justificados por ‘exigir’ territórios que entendem que lhes teria sido roubado logo depois da 1ª Guerra Mundial.

Colunista turco do jornal A Haber, Cemil Barlas, assim resumiu tudo isso, para Harry Fear, de RT:
“No passado, essas terras nos pertenciam. Temos o direito de participar do destino delas. Além do mais, nossos parentes vivem naquelas regiões. Nos preocupamos com o que está acontecendo a eles (…). Segundo Barlas, a Turquia teria direitos sobre os recursos naturais sírios e iraquianos, e ele supõe que as pessoas que vivem lá não se beneficiam da venda do petróleo, porque “todos os lucros vão para os cofres do ‘ditador'” (Sputnik News).

Oil transportation routes into Turkey. Maximum available quality. (Still frames of the Russian Defense Ministry.)
A invasão dos turcos ao Iraque assinala o início de ocupação de longo prazo que provavelmente será expandida até Mosul. Assim se estabelecerá uma cabeça de praia criticamente importante para controlar recursos e corredores de oleodutos e gasodutos que manterão a energia fluindo através da Turquia e para o porto de Ceyhan ao sul. Mais detalhes do que realmente está acontecendo, na versão do colunista turco Yavuz Baydar:

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“Retomar Mosul para a Turquia é item primordial na agenda. Para isso, há aparente convergência de interesses entre Turquia, o Governo Regional Curdo e os aliados ocidentais (…). A figura central nesse grande quadro é Khaled Hodja, líder da Coalizão Nacional Curda, em íntima cooperação com o líder do Governo Regional Curdo Masoud Barzani. Foi ele quem declarou que uma força conjunta de combate seria construída no cantão de Rojava.

Um coronel, falando sem ser identificado a um noticioso online em Istanbul, confirmou os planos e acrescentou que essa formação foi iniciada pelos EUA e Turquia, e reunirá cerca de 5 mil homens.

“(…) Essas forças são apoiadas por EUA e Turquia, ambos contra o regime de [presidente da Síria, Bashar al-] Assad e para expulsar os curdos no norte da Síria.”

Idris Nassan, vice-ministro de relações exteriores de Kobani, diz que a nova força será constituída principalmente de elementos dos grupos Ahrar al-Sham e Frente al-Nusra, e de turcomenos.

Nassan conecta os mais recentes movimentos a uma reunião iminente em Riad, onde os sauditas estão organizando novas alianças dentro das forças da oposição síria. “Por trás da designação ‘forças moderadas’ estão Arábia Saudita e Turquia” – disse Nassan ao noticioso online  Diken website.” (What lies beneath Turquia’s ’Mosul move’? [O que há por trás do movimento da Turquia em Mosul?], Today’s Zaman)
Por tudo isso, não parece haver dúvidas de que foi firmado um acordo entre Turquia, o Governo Curdo Regional e os EUA para dividir o norte do Iraque e o sul da Síria e criar um estado sunita de facto, a ser controlado conjuntamente por Ancara e Washington.

Também não parece haver dúvidas de que Obama concordou com o arranjo pelo qual terroristas (também conhecidos como mercenários oportunistas a serviço de fanáticos jihadistas) trabalharão ombro a ombro com as Forças Especiais dos EUA em futuras operações militares. Significa que, embora o esforço para derrubar o governo do presidente Assad tenha sido posto temporariamente em fogo baixo, o esforço para [tentar] destruir a Síria continua tão forte quanto antes.*****

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