De 2018 a 2019 – revisão rápida de algumas tendências

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From 2018 to 2019 – a quick survey of a few trends

3/1/2019, The Saker, The Vineyard of the Saker 

O ano de 2018 entrará para a história como o de uma reviravolta na evolução do ambiente geoestratégico de nosso planeta. Houve várias razões para isso, e não conseguirei enumerá-las todas. Mas listo aqui algumas que considero as mais importantes.

O Império piscou. Várias vezes.

Foram os acontecimentos mais marcantes do ano: O Império Anglo-sionista fez todo tipo de ameaças terríveis, chegando a tomar algumas medidas realmente assustadoras, mas eventualmente, voltou atrás. Na realidade, o Império está em retirada em muitos fronts, mas vamos listar apenas alguns, cruciais.

RPDC (República Popular Democrática da Coreia, “Coreia do Norte”): Vocês se recordam de todas as impressionantes ameaças feitas por Trump e seus capangas neocons? A administração chegou a anunciar que mandaria TRÊS (!) grupos navais de ataque com porta aviões nucleares para as águas da Coreia do Norte, enquanto Trump esbravejava que iria “destruir totalmente” o país. Os sul coreanos eventualmente resolveram cuidar eles mesmos do assunto, abriram um canal de comunicação diretamente com o norte, e todas aquelas ameaças dos EUA viraram conversa fiada.

Síria em abril: As coisas aconteceram quando EUA, França e Reino Unido resolveram atacar a Síria com mísseis de cruzeiro para “punir” os sírios, que supostamente teriam usado armas químicas (‘teoria’ tão absurda que nem merece ser discutida). Dos 104 mísseis disparados, 71 foram derrubados pelos sírios. Claro que a Casa Branca e o Pentágono, apoiados pela fiel mídia sionista, declararam o ataque um grande sucesso, mas nisso não há surpresa, dado que fizeram a mesma coisa durante a invasão de Granada (uma das piores operações de invasão militar da história) ou depois de uma derrota humilhante sofrida por Israel nas mãos do Hezbollah em 2006. Assim, essa declaração não vale grande coisa. A verdade é que a operação toda foi um fracasso militar tão acachapante, que depois disso nada mais foi tentado (pelo menos até agora).

Ucrânia: Ficamos todo o ano de 2018 esperando por um ataque dos ucronazis contra o Donbass, que nunca aconteceu. Neste momento estou quase certo de que se argumentará que a junta nazista em Kiev nunca teve essa intenção, mas qualquer pessoa com conhecimento mínimo do que aconteceu na Ucrânia este ano sabe que é argumento vão, que a junta fez de tudo para uma investida, exceto o último passo: a ordem real de ataque. A ameaça aberta de Putin de que tal ataque acarretaria “consequências graves para a Ucrânia enquanto Estado soberano” provavelmente teve peso fundamental para conter o Império. Claro que os Ucronazis podem muito bem atacar em janeiro ou a qualquer tempo, mas o fato é que em 2018 não ousaram. Mais uma vez o Império (e seus serviçais) tiveram de desistir.

A Síria em Setembro: Desta vez, foi a posição de Israel, de subserviência incondicional ao Império, que disparou crise massiva, quando os israelenses fizeram um ataque, para o qual se esconderam (!) por trás de um avião turbo-hélice russo Il-20, ação que resultou na destruição do avião e morte de toda a tripulação. Depois de dar a Israel a chance de ser honesto e dizer a verdade (o que, sendo Israel o que é, não foi feito), os russos cansaram e entregaram sistemas avançados de defesa aérea, guerra eletrônica e gestão de combate aos sírios. Em resposta, os israelenses (que tinham feito incontáveis ameaças de que destruiriam imediatamente qualquer S-300 entregue aos sírios) basicamente tiveram que suspender completamente os ataques contra a Síria (bem, não totalmente; ainda executaram dois desses ataques: um totalmente sem efeito prático, e outro no qual os loucos sionistas mais uma vez se esconderam atrás de aeronave civil, mas, nesse segundo caso, não de uma, mas de DUAS aeronaves civis. Adiante, comento novamente essa última proeza dos doidos sionistas). O Império recuou mais uma vez.

Síria em Dezembro: Aparentemente farto das intermináveis brigas internas entre seus assessores, de repente Trump ordenou retirada total dos EUA, da Síria. Claro que, desde que se trata dos Estados Unidos, temos que esperar para ver no que vai dar. Há um Kabuki complicado sendo executado pela Rússia, Turquia, os Estados Unidos, Israel, Irã, os curdos e os sírios para estabilizar a situação na sequência de uma eventual retirada dos EUA. Depois de um ano de falatório vazio sobre “o monstro Assad tem que sair” é surpreendente ver os poderes ocidentais jogando a toalha um depois do outro. Isso leva à questão óbvia: se “a cidade sobre a colina e única superpotência no planeta, líder do mundo livre e nação indispensável”, sequer consegue lidar com governo e exército sírios enfraquecidos após sete anos de guerra, o que esse exército ‘da superpotência’ conseguirá fazer com sucesso (a não ser providenciar mais sucessos de bilheteria para um público norte-americano cada vez mais ingênuo)?

Várias derrotas menores: incontáveis, dentre elas o fiasco do caso Khashoggi, o fracasso na guerra contra o Iêmen, o fracasso na guerra do Afeganistão, o fracasso na guerra do Iraque, o fracasso nas tentativas de remover Maduro do poder na Venezuela e a perda gradual do controle sobre um número crescente de países europeus (Itália, por exemplo), as palhaçadas ridículas de Nikki Haley no Conselho de Segurança da ONU, a incapacidade de reunir os recursos intelectuais necessários para ter uma real e produtiva reunião com Vladimir Putin, a guerra comercial contra a China, que está virando um desastre, etc. O que todos estes eventos têm em comum é que todos resultam da incapacidade dos EUA para fazer, fazer efetivamente, seja o que for.

Longe de se manterem como real superpotência, os EUA estão em modo de declínio total, e só as armas nucleares ainda lhe garantem algo que se assemelhe ao status de superpotência, exatamente como a União Soviética nos anos 90s.

Todos os problemas internos que resultam das lutas intestinas das elites norte-americanas (de maneira geral: a gangue Clinton versus Trump e seus “deploráveis”) só pioram as coisas. Apenas a sequência aparentemente interminável de renúncias ou demissões na Administração Trump já é sinal claro do estado avançado de colapso da política dos EUA. Elites não lutam entre si quando as coisas vão bem, só quando a vaca está indo para o brejo.

O frase “a vitória tem mil pais, mas a derrota é órfã” está aí para nos lembrar que quando um bando de criminosos começa a perder o controle da situação, a coisa rapidamente se transforma em cenário de “salve-se quem puder”, onde todos culpam todos pelos problemas, e ninguém quer ficar sequer próximo daqueles que entrarão pelas portas dos fundos da história como os patetas ridículos que rebentaram com tudo.

Já as forças armadas dos EUA conseguiram sucesso tremendo na tarefa de matar um número cada vez maior de pessoas, a maioria civis; mas falharam em conseguir conquistar qualquer objetivo, pelo menos quando entendemos que o objetivo principal de uma guerra não é só matar gente, mas conseguir “a continuação da política por outros meios”. Comparemos, por contraste, o que Rússia e EUA fizeram na Síria.

Em 11 de outubro, Putin declarou o seguinte, em entrevista concedida a Vladimir Soloviev no Canal de Televisão Russia 1: Nosso objetivo (na Síria) é estabilizar a autoridade legítima e criar condições para um compromisso político. É isso. Não declarou que a Rússia mudaria sozinha o curso da guerra, ou sequer que venceria alguma guerra.

A (minúscula!) força-tarefa russa na Síria conseguiu seu objetivo original em apenas alguns meses, algo que o Eixo-da-Bondade não conseguiu em anos (mesmo sabendo que os russos conseguiram tudo o que conseguiram usando apenas uma pequena fração das capacidades bélicas à disposição de EUA/OTAN/UE/CENTCOM/Israel na região. Na verdade, os russos até tiveram que criar rapidamente um sistema de suprimento, que não tinham. Dada a postura militar puramente defensiva da Rússia, a projeção do poder militar russo é em sua maior parte limitada a 500-1.000 km a partir das fronteiras russas).

Em comparação, os EUA estão lutando sua assim chamada GGT (Guerra Global ao Terror, ing. GWOT = Global War on Terror) desde 2001, e tudo o que têm a mostrar é que o terrorismo (em suas várias facetas) tornou-se cada vez mais forte, controla hoje mais território, matou mais pessoas e parece mostrar em sua generalidade uma espantosa capacidade de sobreviver e até mesmo progredir apesar da (ou graças à) GGT. Como diria Putin “o que se esperaria de pessoas que não veem diferença entre Áustria e Austrália”?

Pessoalmente, espero deles apenas que declarem “vitória” e sumam.

Aliás, é exatamente o que os EUA sempre fazem. E estão dizendo, nesse exato momento, que farão. Mas podem mudar 180 graus, de repente, mais uma vez.

No Afeganistão, por exemplo, os EUA já estão há mais tempo que os soviéticos quando lá estiveram. Não basta para sugerir fortemente que os líderes norte-americanos são ainda mais “incompetentes” do que gerontocracia da era de “estagnação” dos soviéticos?

O fracasso na tentativa para dominar ou mesmo para apenas conter a Rússia

O discurso de Putin em 1º de março de 2018 para a Assembleia Federal da Rússia foi um momento realmente histórico: pela primeira vez desde que o Império decidiu lançar guerra contra a Rússia (uma guerra de informação em cerca de 80%, 15% econômica e apenas 5% cinética, mas que pode tornar-se 95% cinética de uma hora para a outra!), os russos decidiram alertar abertamente os EUA que a estratégia norte-americana já estava completamente derrotada. Pareceu-lhe exagero? Pois pense novamente. No que se baseia o poderio militar dos Estados Unidos? Quais seus componentes principais?

Poder aéreo (supremacia no ar);

Armas seguras de longo alcance (balísticas ou hipersônicas);

Porta-aviões;

Defesa antimísseis (pelo menos em teoria!); e

De 800 a 1.000 bases pelo mundo (depende de como se conta).

A entrega do que é sem sombra de dúvida o mais sofisticado sistema de defesa aérea no mundo, apoiado pelo que é provavelmente o mais formidável e capaz esquema de guerra eletrônica atualmente existente criou aquilo a que os comandantes de EUA/OTAN referem-se como “capacidade para negar acesso e área”, a qual, como dizem esses comandantes, pode surgir repentinamente através do Mar Báltico, do Mediterrâneo, da Ucrânia, Síria e outros locais (poderiam aparecer na ilha Orchila, na Venezuela em 2019). Além disso, em termos de qualidade, o poder aéreo tático russo é mais moderno e pelo menos igual, se não superior, a qualquer coisa que os EUA ou a OTAN possuam em materiais táticos e aeronaves. Mesmo levando em conta que o ocidente de forma geral, e os EUA em particular, tenham um número muito maior de aeronaves, elas são na sua maioria ultrapassadas, e os vários encontros entre aeronaves russas e norte-americanas nos espaços aéreos sírios mostram que os pilotos dos EUA preferem retirar-se, quando aparecem os SU-35s russos.

O resultado de o míssil hipersônico Kinzhal entrar em serviço ativo (já em 2018!) é, basicamente, que tornará subitamente obsoleta e inútil toda a frota de superfície dos Estados Unidos, para ataque contra a Rússia. Não importa o tipo do navio, seja porta-aviões, vários tipos de destroieres, cruzadores, navios anfíbios de assalto, navios de combate no litoral (a maioria frágil), navios de transporte, etc. – a partir de agora, não passam de alvos fáceis que os russos podem varrer da face do oceano, independentemente das respectivas defesas antiaéreas ou de quantas escoltas haja.

Da mesma forma, a implantação de um míssil intercontinental balístico termonuclear superpesado como o Sarmat e do veículo planador hipersônico Avangard tornou completamente inúteis todos os esforços dos EUA para a construção de mísseis antibalísticos. Repito: TODOS os esforços dos EUA na construção de seu esquema de mísseis antibalísticos, incluindo bilhões de dólares gastos em pesquisa e desenvolvimento, já se tornaram, hoje, completamente inúteis.


[Nota de esclarecimento: É importante esclarecer neste ponto que nenhum dos novos sistemas de armamento russo oferece ou garante qualquer forma de proteção à Rússia, no caso de ataque nuclear (ou convencional) pelos Estados Unidos. Os novos sistemas ‘só’ sugerem fortemente que os líderes dos EUA não devem voltar a alimentar as mesmas ilusões que alimentavam ainda na “Guerra nas Estrelas” de Reagan, isto é, que poderiam de alguma forma escapar de um segundo ataque russo (contra-ataque) retaliatório, caso decidam atacar a Rússia. Na verdade, mesmo sem o Sarmat ou o Avangard, a Rússia já tem mísseis (terra-terra, terra-ar e mar-terra) mais do que suficientes para reduzir os EUA a escombros, no caso de um contra-ataque retaliatório. Mesmo assim, os políticos dos EUA ainda fazem planos mirabolantes, perseguindo a quimera de uma defesa com mísseis antimísseis, apesar do fato claríssimo de que sistema assim não funcionará (alguns mísseis que sempre “escapam” (ing. “leakers”) podem ainda ser suportáveis, quando se trata de armas convencionais. Mas tudo muda no caso de armas atômicas, quando bastam uns poucos desses mísseis que “escapam”, para cobrar preço terrível de qualquer atacante iludido o suficiente para pensar que 90% ou mesmo 98% de efetividade de algum “escudo” garantiria proteção contra ataque de superpotência nuclear). Bem, você pode dizer que os novos recursos russos (dentre eles, os mísseis táticos de curto alcance Iskander) são um tipo de “destruidor de delírios” ou existem para “chamar a atenção para a realidade”, que derrubará as ilusões dos EUA quanto a controlar riscos de guerra contra a Rússia. Oxalá jamais tenham de ter outro uso.].


Finalmente, o desenvolvimento, pela Rússia, de uma nova geração de mísseis seguros de muito longo alcance deu ao país vantagem considerável, também de longo alcance: a capacidade para alvejar qualquer propriedade norte-americana (força militar ou base) no mundo inteiro, incluindo dentro do território nacional dos EUA (fato quase nunca mencionado pela imprensa ocidental).

Agora, examinemos a lista acima, dos principais componentes do poder militar dos EUA, para ver que tudo aquilo já está convertido, dito com clareza, em sucata.

O que temos então é uma situação clássica na qual, por um lado, os planejadores das forças armadas de um país cometeram erros gravíssimos de cálculo, erros que tiveram influência direta no tipo de força militar com que o país poderia contar, por ao menos duas e possivelmente três décadas. Por outro lado, no país rival, os planejadores tomaram as decisões corretas que lhes permitiram derrotar uma força militar cujo orçamento de defesa é quase dez vezes superior. A consequência mais grave deste estado de coisas para os EUA é que, agora, demorarão pelo menos uma década (ou mais!) para reformular seu planejamento estratégico (sistemas de armas modernas algumas vezes levam décadas para projetar, desenvolver e instalar). O malfadado Zumwalt, o F-35, o porta-aviões Gerald R. Ford (CVN 78) – todos são exemplos obscenos de como gastar bilhões de dólares e, como resultado, só ter sistemas de armas desastrosos, que enfraquecem, isso sim, cada vez mais, as forças armadas norte-americanas.

Há razões simples pelas quais os EUA chegaram a se tornar a superpotência no século 20: não só o território norte-americano é protegido por grandes oceanos; além disso, a primeira e a segunda guerras mundiais foram lutadas, do começo ao fim, bem longe dos Estados Unidos: os potenciais concorrentes econômicos dos EUA tiveram as respectivas economias nacionais completamente destruídas, enquanto os EUA não perderam sequer uma fábrica ou agência de pesquisa/projeto. Daí, os EUA puderam usar sua imensa e poderosa base industrial para, em síntese, oferecer a um mercado praticamente mundial, bens que apenas os EUA podiam fabricar e entregar. Mesmo assim, apesar dessas vantagens enormes, os EUA passaram quase toda a sua história arrasando países indefesos, um após o outro, para assegurar uma completa submissão às exigências do “Tio Shmuel” (versão anglo-sionista do “Tio Sam”). Tudo, porque seria “nação indispensável”…

Agora, por obra dos ‘globalistas’, a base industrial dos EUA bateu asas. Graças aos arrogantes neocons, os EUA estão enredados em uma forma ou outra de conflitos contra os principais países do planeta (sem contar as guerras que interessam a elites comprador apoiadas e dirigidas pelos EUA). A submissão completamente estúpida e autodestrutiva dos EUA às vontades e exigências de Israel levou a uma situação na qual os EUA estão perdendo o controle sobre o Oriente Médio, rico em petróleo, região na qual os EUA reinaram por décadas.

Finalmente, ao escolher erradamente tentar submeter ao mesmo tempo Rússia e China aos desejos do Império, os neocons conseguiram, isso sim, promover uma aliança de fato entre os dois países (na realidade um relacionamento simbiótico) que, longe de isolar os dois países acabou na realidade por isolar os EUA – que foram desalojados, como “local onde as coisas estão acontecendo” em termos de desenvolvimento econômico, social e político: em primeiro lugar, desalojados da massa terrestre da Eurásia e do projeto OBOR [One Belt, One Road – Um Cinturão, Uma Estrada, projeto hoje conhecido como Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE].

Perspectivas para o Império em 2019: problemas, problemas e… mais problemas

Bem, 2018 foi ano excepcionalmente sórdido e perigoso. 2019 pode provar-se ainda mais perigoso, pelas razões a seguir comentadas.

A menos que os EUA mudem seu curso político e desistam da russofobia suicida de Obama e Trump, será inevitável um confronto militar entre Rússia e EUA.

A Rússia recuou até onde foi possível, e não há mais para onde ir. Portanto, não recuará mais. Não tenho qualquer dúvida de que se os EUA tivessem realmente atingido unidades russas na Síria (que era o que Bolton parecia querer, mas Mattis aparentemente rejeitou categoricamente), os russos teriam desfechado um contra-ataque não apenas contra os mísseis norte-americanos, mas também contra seus transportadores (especialmente navios).

Sei de fonte confiável que na noite do ataque a território sírio, um avião russo MiG-31K carregado com o míssil Kinzhal estava em prontidão no ar, preparado para atacar. Graças a Deus (e possivelmente, graças a Mattis) isso não aconteceu. Mas como já escrevi, cada vez que a Terceira Guerra Mundial não acontece na sequência de um ataque contra a Síria, os neocons sentem-se fortalecidos para tentar mais uma vez, especialmente dado que “Assad, o monstro que tem que cair” permanece no poder em Damasco, ao tempo em que todos os políticos ocidentais que “decretaram” a queda de Assad já caíram.



É completamente óbvio que Israel vai-se convertendo em país insano, absoluta, terminal e possivelmente suicidário. A manobra sórdida dos israelenses contra o avião russo Il-20 já se provou um desastre de proporções gigantescas que, em país normal, resultaria na imediata queda do governo. Mas não em Israel. Depois de se esconder atrás de um avião militar russo turbo-hélice, decidiram esconder-se dos mísseis do sistema S-300 sírio por trás de DUAS aeronaves civis!

Não me parece necessário repetir aqui que Israel é o último país ainda abertamente racista no planeta, ou que os líderes israelenses são imorais, insanos e, no geral, maníacos. Ou o leitor já compreendeu, ou o caso é perdido. Mas nem importa o quão maus são os israelenses. Problema é o quão são totalmente imprudentes. Simplificando: não se trata de os israelenses sejam maus, estúpidos e vivam em perigoso estado de delírio. Trata-se de Israel serem também donos (donos mesmo!) de cada um e de todos os políticos de importância dos Estados Unidos, o que significa que não importa quão escandalosas e insanas sejam suas ações, a “nação indispensável” *sempre* encontrará uma desculpa e, se preciso, proporcionará um acobertamento para os crimes dos sionistas (v.g. USS Liberty ou, para não esquecer, também o ‘incidente’ em 11/09). Neste momento não há ninguém na classe política dos EUA que aspire a ser eleito e ouse fazer coisa diferente de demonstrar adoração por tudo o que seja israelense (ou judeu, por falar nisso). O lema efetivo dos EUA não é “In God we trust” [“Confiamos em Deus”] mas “EUA e Israel são xifópagos” (Mais uma razão pela qual os EUA não são superpotência real: sequer são soberanos!)

O Império também tem alguns problemas enormes na Europa. Em primeiro lugar, caso os ucronazis, que são protegidos dos EUA, encontrem coragem (ou desespero) suficiente para atacar a Rússia ou o Donbass, o caos que resultará dessa ação inundará a União Europeia com número ainda maior de refugiados, muitos dos quais de comportamento realmente inconveniente, inclinações preocupantes e realmente perigosos. Além disso, os sentimentos contrários à União Europeia estão-se tornando cada vez mais fortes na Itália, Hungria e, por outras razões, até mesmo na Polônia. A Franca está à beira de uma guerra civil – não por causa dos acontecimentos recentes (penso que os Coletes Amarelos acabarão por perder fôlego); mas por efeito de outras agitações que, creio, acontecerão sem demora e que virão como explosão, resultado provável (i) da derrubada do regime francês hoje tutorado pelo CRIF (fr. Conseil Représentatif des Instituitions Juives de France – Conselho Representativo das Instituições Francesas de Judeus), afiliado francês da WJC (ing. World Jewish Congress –Congresso Mundial Judeu) e de seu ramo europeu EJC (ing. European Jewish Congress), atualmente em plena atividade na França; e (ii) de massiva onda de ódio que cresce contra os Estados Unidos.

Na América Latina, o Império tem tido muito sucesso em golpes para depor uma série de líderes patriotas e independentes. Mas o Império já não consegue garantir viabilidade econômica e política aos regimes atrelados aos EUA.

Por incrível que pareça, e apesar de campanha de furiosa subversão pelos EUA e de alguns erros políticos, o governo Maduro permanece no poder na Venezuela e vai, devagar mas com firmeza, tentando mudar o curso da história e manter a soberania e independência da Venezuela frente aos Estados Unidos.

O maior problema dos EUA na América Latina é que os EUA sempre se impuseram servindo-se de uma elite comprador local. Por essa via, os EUA têm tido enorme sucesso. Mas os EUA nunca conseguiram convencer as massas populares, da benevolência do Império; por isso a palavra Yankee continua a ter significado de insulto em todos os países da América Latina.

Na Ásia, a China está oferecendo para todas as colônias norte-americanas um modelo civilizacional alternativo que se torna cada vez mais atrativo, na medida em que a República Popular da China torna-se economicamente mais poderosa e bem-sucedida. Isso faz com que a mistura habitual de arrogância, húbris e ignorância, que outrora permitiu que os países anglo-saxões dominassem a Ásia, perca atrativos e poder, e que os povos asiáticos procurem alternativas. Porque, verdade seja dita, os EUA têm absolutamente nada a oferecer.

Resumindo: os EUA são hoje incapazes de impor a própria vontade aos países considerados “aliados dos EUA” (se o gasoduto Ramo Norte [ing. NorthStream] chegar a ser concluído – e acho que será –, então haverá um marco anunciando a primeira vez que os líderes da União Europeia disseram ao presidente dos EUA que ‘caia fora’, para usar um eufemismo); e, além disso, os EUA obviamente não têm qualquer tipo de projeto a oferecer a terceiros países. Sim, MAGA (ing. Make America Great Again – Torne a América Grande Novamente) é bonitinho e elegante, mas duvido que tenha muitos atrativos para outros países, que se lixam para MAGAs

Conclusão, com ditado russo

Dizem os russos que “melhor fim horrível que horror sem fim” (ru. лучше ужасный конец чем ужас без конца). Não há dúvidas de que o declínio do Império Anglo-sionista continuará em 2019. Mas a capacidade dos EUA para destruir a Rússia com um ataque nuclear não mudará.

Que ninguém se engane: as novas e extraordinárias armas russas garantem apenas, a certeza de que, se os EUA atacarem a Rússia, sofrerão o contra-ataque nuclear. Mas isso não implica que os russos tenham meios para impedir que os EUA ataquem. Se os neoconservadores decidirem que o holocausto nuclear é melhor que ver os EUA perderem todo o poder apodrecendo ao sol, ninguém conseguirá impedi-los de tocar alguma própria sórdida versão de O Crepúsculo dos Deuses.

Recentemente tive que ficar alguns dias em Boca Raton, onde levas de “novos aristocratas” dos EUA gostam de passar o tempo, e duas coisas posso dizer: a vida deles é boa; e eles com certeza não entregarão facilmente o status de “líderes do planeta”. Se alguém tentar tomar deles essa condição, não tenho dúvidas que aquele pessoal reagirá com uma explosão de raiva surda e desesperada, destrutiva, feito Sansão.

Assim resta só mais uma questão: seremos capazes (a humanidade) de arrancar dessa classe de parasitas a capacidade de apertar o botão nuclear, sem lhes dar tempo ou ocasião para fazer exatamente isso? Não sei.

Será pois fim horrível, ou horror sem fim? Também não faço ideia.

O que sei mesmo é que o Império está rachando. E tudo indica que o declínio ganhará velocidade em 2019.

[assina] The Saker

 Tradução de btpsilveira

versão corrigida e revista e distribuída  po Vila Mandinga)

 

(Análise escrita originalmente para o site Unz Review)

 

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