“Corrida para Raqqa”: Plano de campanha síria

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15/2/2016,
Moon of Alabama
Traduzido por Vila Vudu

Há hoje muita indignação na mídia-empresa ‘ocidental’ em torno da campanha aérea dos russos na Síria. Um, dois, três… hospitais bombardeados! E escolas! E os rebeldes teriam perdido incontáveis outras cidades! Bombas de gravidade! Bombas de fragmentação. É indispensável que se pergunte quantos dos tais ‘hospitais’ nem hospitais eram, só esconderijo de “rebeldes” jihadistas. Dos vídeos publicados, consegui identificar um só prédio destruído que poderia ter sido hospital real. Mas mesmo ali não se via qualquer equipamento médico entre os escombros. Esse ataque, provavelmente encenado para a mídia-empresa, seria preparação para mais algum ataque sob falsa bandeira, armação ou algum tipo de escalada planejada?

Absolutamente não há notícias hoje do ataque continuado da Turquia, contra cidades curdas na Síria. Tão logo a artilharia síria se aproxime mais da fronteira, em cerca de uma semana, esse ataque será respondido, e a situação escalará muito depressa.

Os russos prometeram que “‘Portas do inferno’ se abrirão na Síria nos próximos meses” (The “Gates of hell” will be open in the coming months in Síria). O atual bombardeio massivo é o começo da campanha russa. “Rebeldes” em fuga de uma cidade por causa dos bombardeios não têm meios para matar soldados sírios que entrem naquela cidade. Casas e infraestrutura podem ser reconstruídas, mas soldados mortos não podem ser trazidos de volta à vida: eis a regra simples que agora guia as campanhas do governo sírio. Não há ainda pistas de como, exatamente, se dará a libertação da província de Aleppo, de partes da cidade de Aleppo onde ainda há “rebeldes” e de Idleb. Há plano para campanha maior, mas ainda não é visível.

Mas o plano sírio para a Race to Raqqa [Corrida para Raqqa] contra o Estado Islâmico é bem visível.

Mapa via The ‘Nimr’ Tigerpara ver mapa ampliado

Do sudoeste, uma força com dimensões de brigada do Exército Árabe Sírio (em vermelho), que em breve será reforçado por brigadas de voluntários, pressiona do nordeste em direção à base aérea de Tabqa, que fica ao sul da Estrada 4 e da cidade de Al Tawra. Ambos esses pontos estão ocupados pelo Estado Islâmico (cinza). As tropas estão agora a cerca de 15 quilômetros de distância da base. Se o exército sírio tomar a base, passará a controlar o fogo contra a Estrada 4 da Turquia por Al Bab até Raqqa e poderia impedir praticamente todo o tráfego do Estado Islâmico por essa estrada. Se o Exército Árabe Sírio tomar a cidade de Al Taqra, poderá também capturar a barragem Taqwa do lago Assad. Nesse momento, todas as forças do Estado Islâmico estarão completamente separadas de Raqqa e do Iraque. Poderão ficar ainda mais divididas por forças do exército sírio que venham de Aleppo para o leste e no norte por forças curdas (amarelo) indo para o oeste. O Estado Islâmico perderia muito terreno nesse movimento e, muito mais importante, perderia também a única estrada ainda aberta de acesso para a Turquia. O difícil ataque contra Raqqa propriamente dita, distante mais 15 quilômetros em direção leste, só poderá vir depois de a base Tabqa e Al Tawra terem sido libertadas.

Mas poucos planos militares sobrevivem ao contato com o inimigo, e há outras forças que gostariam de pôr as mãos em Raqqa, antes de o Exército Árabe Sírio chegar lá.

Semana passada o emir do Qatar Xeique Tamim visitou o presidente da Turquia em Istanbul. Bahrain, Kuwait, EAU e Qatar declararam que se unirão à anunciada campanha por terra contra o Estado Islâmico, no caso de os EUA comandarem e liderarem a ‘coalizão’. Jatos de combate sauditas pousaram na base aérea de Incirlik. Um avião de transporte do Kuwai pousou hoje em Hatay, carregado de armas, conforme declarou. O primeiro-ministro turco Davutoglu está visitando a Ucrânia com grande delegação. Estará em andamento alguma espécie de coordenação? Criar ‘eventos’ para dar trabalho aos russos na Ucrânia, enquanto é lançado na Síria um ataque de turcos/árabes do Golfo? Ou o contrário?

Por mais que a situação do governo sírio e aliados seja hoje muito melhor do que há seis meses, a guerra na Síria está longe de decididar. Pode ainda se expandir e escalar, antes de que surja algum fim à vista.

 

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