Coronavírus: Como levantar o confinamento [lockdown; quarentena] e por que todos devemos usar máscaras (faça as suas)

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23/3/2020, Moon of Alabama

A large screen in Beijing showing President Xi Jinping’s visit to Wuhan, China this month.

Uma tela grande em Pequim mostrando a visita do presidente Xi Jinping a Wuhan, China este mês. Crédito… Kevin Frayer / Getty Images

Enquanto o presidente dos EUA continua a culpar a China já há mais e mais sinais de que o surto começou noutro lugar:

O sistema de saúde da Itália está se esforçando para acompanhar o aumento rápido dos casos de coronavírus.

Alguns questionam o motivo pelo qual a Itália foi apanhada no contrapé pelo surto do vírus revelado dia 21 de fevereiro.

[ATENÇÃO: Encontram-se na página da WHO todas as datas de todo o processo de divulgação da doença, em mais de 30 comunicados, até hoje. O primeiro desses comunicados, com várias datas relevantes
a partir de 31/12/2020, pode ser lido aqui (ing.) (NTs)]

Remuzzi diz que agora está recolhendo informação de clínicos gerais. “Eles dizem lembrar de ter visto casos de uma pneumonia muito estranha, muito severa, sobretudo em idosos, em dezembro, e até mesmo em novembro”, diz ele. – Significa que o vírus já circulava, pelo menos na região da Lombardia [norte da Itália], e antes já sabíamos desse surto que acontecia na China.”

O surgimento repentino de um novo tipo de coronavírus contra o qual ninguém tem imunidade levou a um súbito aumento de casos de pacientes com dificuldades severas de respiração. Esses casos exigem até três semanas de apoio de ventiladores e tratamento médico intensivo.

Nossos sistemas de saúde não têm como dar conta desse massacre. Se ficam sobrecarregados, outros casos que requerem cuidado intensivo ficam sem esse tipo de atendimento. O número de mortes que podem ser evitadas começa então a explodir.

O único modo possível de evitar esse resultado, é reduzir ao mínimo os contatos entre humanos, para deter a onda de contágio em massa.

Quando a primeira onda explodiu em Wuhan, as autoridades ordenaram confinamento total da cidade e de toda a província de Hubei. Aconteceu dia 23 de janeiro. 12 dias mais tarde, dia 4 de fevereiro, o número de novos casos começou a declinar em Wuhan. A Lombardia, na Itália, ordenou confinamento compulsivo dia 9 de março. 12 dias depois a Itália relatou o primeiro declínio de novos casos.

Apesar de os hospitais em Wuhan e na Lombardia tenham ficado sobrecarregados por algum tempo, o surto seguinte foi retardado, se não completamente contido.

(Wuhan é conhecida pela alta poluição do ar, mas a Lombardia, não. A teoria de que a poluição teria feito aumentar o número de casos graves nas duas regiões, portanto, não foi confirmada.)

Foram ordenados confinamentos compulsórios em vários países europeus e em vários estados dos EUA. A Boeing e outras empresas fecharam suas unidades de produção no estado de Washington. Há grande número atualmente de desempregados. Em vários estados a situação é sombria.

 

Mas os confinamentos funcionam, e limitarão o aumento de casos na atual onda.

A questão agora é quando levantar a ordem de confinamento compulsório. Se 12 dias foram suficientes para deter um crescimento explosivo em novos casos, agora, aparentemente, não serão suficientes para parar a onda. Provavelmente serão necessárias mais duas semanas de confinamento. Depois disso, as restrições terão de ser levantadas por etapas, para manter gerenciável o número de novos casos.

Pode bem ser necessário proibir eventos de massa ainda durante vários meses. Algumas restrições de viagens também provavelmente serão mantidas. As pessoas poderão voltar ao trabalho, mas não se permitirão reuniões de grande número de pessoas. As máscaras passarão a ser item indispensável para a vida em sociedade (mais sobre isso, adiante).

Em vez de confinar populações inteiras, será preciso identificar e confinar grupos de assemelhados (ing. clusters).

O sistema de assistência à saúde precisa de um novo braço para cuidar dos casos de COVID-19 sem o risco de infectarem outros pacientes. A China estabeleceu clínicas locais de febre, nas quais as pessoas com sintomas de resfriado ou de COVID podem ser testadas. Os que estejam contaminadas por COVID têm de permanecer isoladas por duas semanas, para impedir contágios. Seus contatos têm de ser ativamente rastreados. Pessoas que tenham tido contato próximo com paciente de infecção aguda são parte do cluster e também têm de ser testados e isolados. Os que fiquem isolados têm de ser remunerados. Sem isso, muitos esconderão os sintomas, recusar-se-ão a fazer os testes e continuarão a disseminar o vírus e a doença.

Essas medidas podem ser intensificadas ou relaxadas conforme seja necessário ou possível. O objetivo delas é manter administrável o número de casos graves. Se o sistema funcionar bem, pode-se até erradicar o vírus.

Atualmente temos testes para os anticorpos que as pessoas desenvolvem quando têm a doença. A produção em massa já começou. Esses testes permitirão que identifiquemos os que já não correm risco quando tratam de um paciente COVID.

Há indícios frequentes de que crianças tiveram a doença, mas foram pouco afetadas por ela. Os testes de anticorpos mostrarão quantas dessas crianças já estão imunizadas. Quanto maior esse número, melhor para os demais. Testagem em massa parece também mostrar que há número bem alto de casos de infectados assintomáticos entre os adultos, os quais, embora assintomáticos, infectam outras pessoas. É preciso encontrar medidas para controlar também isso.

Artigo publicado recentemente no periódico Lancet prescreve que todos usem máscaras:

Há poucas provas de que máscaras faciais garantam proteção efetiva contra infecções respiratórias nas comunidades, como se admite nas recomendações que chegam do Reino Unido e da Alemanha.

Contudo, máscaras faciais são amplamente usadas por profissionais da saúde como parte das precauções para casos em que tratem de pacientes com infecções respiratórias e haja contato físico próximo ou direto com fluídos/gotículas de secreções [ing. droplet precautions]. Seria razoável sugerir que indivíduos vulneráveis evitem áreas onde haja aglomeração de pessoas e usem racionalmente máscaras faciais cirúrgicas quando expostos em áreas de alto risco. Como as evidências sugerem que a [doença] COVID-19 pode ser transmitida antes de surgir qualquer sintoma, o contágio comunitário pode ser reduzido se todos, inclusive quem tenha sido infectado/infectada mas permaneça assintomático/assintomática e contagioso/contagiosa, usem máscaras faciais.


A máscara ajuda a proteger a própria pessoa mas, mais importante, ajuda a proteger os outros. Qualquer pessoa pode estar infectada e disseminar a doença sem saber. Todos disseminamos gotículas de saliva e outras secreções quando falamos, espirramos ou tossimos. A máscara impede que essas gotículas espalhem-se no ar.

Vírus são unidades muito pequenas e podem escapar pelos poros de uma máscara. Mas as gotículas com as quais são lançados no ambiente são maiores e é menos provável que atravessem o material das máscaras faciais. Também há quem sugira que um só vírus seja pouco danoso; e que se exija carga significativa de vários vírus para desencadear a doença.

Há algumas considerações culturais a favor da recomendação de que todos usem máscara:

O contraste entre o uso de máscara como prática de higiene (i. e., em muitos países asiáticos) ou como algo que só doentes usam (i. e., em países europeus e da América do Norte) induziu estigmatizações e agressões de caráter racista, que só se combate com satisfatória e eficiente educação pública. Uma das vantagens do uso universal de máscaras faciais é que impede que se discrimine contra indivíduos socialmente habituados a usar máscaras quando não estão bem, dado que todos usam máscara.

Há atualmente falta no mercado de máscaras profissionais, e as que há são necessárias em nossos hospitais.

Mas pode-se usar uma bandana, um lenço, uma echarpe, cada um pode costurar a própria máscara ou fazer máscaras usando materiais que todos têm em casa. Talvez não sejam tão boas quanto máscaras profissionais, mas sempre ajudarão a manter baixos o número de casos.

Vírus não gostam de calor. Sabão os quebra em pedaços. Pode-se higienizar a máscara facial, aquecendo-a no forno a 70°C ou lavando-a com sabão.

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga

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