Conexão França e a desescalada saudita no Líbano

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French President Emmanuel Macron and Saad al-Hariri, who announced his resignation as Lebanon's prime minister while on a visit to Saudi Arabia, are pictured at the Elysee Palace in Paris, France, November 18, 2017. Photo: Reuters/Gonzalo Fuentes

19/11/2017, M.K. Bhadrakumar, Asia Times

Quando o primeiro-ministro do Líbano Saad al-Hariri, com a esposa e o filho, entraram no pátio do palácio do Eliseu, num comboio de carros, no sábado, não parecia um empresário levantino bilionário, apenas entrado nos 40 anos, chegando ao exílio para viver o resto dos seus dias em perfeito luxo na Côte d’Azur.

Presidente Emmanuel Macron da França não chegaria à porta da frente para dar boas vindas a empresários, não diante da imprensa, no Eliseu. Nada disso. Hariri mantém a coroa.

Hariri anunciou o retorno a Beirute para participar das comemorações da Independência do Líbano, na 4ª-feira. O ‘não sabido sabido’ está na promessa que fez de discutir o próprio futuro. “Como todos sabem, renunciei ao meu cargo, e discutiremos a questão no Líbano” – disse a jornalistas, lembrando que precisa reunir-se com o presidente Michel Aoun antes de outras medidas.

A parte ‘sabida’ é que declarações públicas valem menos que zero no mundo político. A parte ‘não sabida’ é o modo como se articulam os interesses pragmáticos de Hariri que, claro, são incontáveis.

A partida de Hariri, da Arábia Saudita, foi metodicamente planejada. A visita histórica do patriarca maronita Beshara Rai a Riad semana passada já sinalizava que estava em construção um desenlace negociado para o affair Hariri, escolhido como estratégia preferencial pela Arábia Saudita, que se deixou cobrir de ridículo e é alvo de pesada crítica internacional.

A crítica pública feita pelo presidente Aoun, contra a dita ‘abdução’ de Hariri deve ter contribuído, mas a gota que fez transbordar o cálice foi o revide da opinião pública libanesa, inclusive de clãs sunitas locais tradicionais aliados dos sauditas (que não gostam de viver sob a sombra dominante do Hezbollah, mas mesmo assim se incorporaram à crítica contra a abdução).

Os libaneses estão sobre o fio da navalha, temendo que seu país seja empurrado para outra guerra civil.

Os sauditas tradicionalmente deixam vias abertas para a Igreja Maronita, mas a ‘visita de trabalho’ do patriarca Rai, por convite pessoal do rei Salman bin Abdulaziz é evento sem precedentes. Rai também se encontrou com Hariri em Riad.

A esperança dos sauditas e alavancar a influência do patriarca para alcançar novo equilíbrio político no Líbano, dentro do regime de convivência com o Hezbollah. Aoun, que é maronita, também mantém laços próximos e cordiais com o Hezbollah.

A expectativa dos sauditas tem bases históricas. Desde a história antiga do complexo intercurso do Oriente Médio muçulmano com Bizâncio e com Roma, a Igreja Maronita tem glorioso passado de acolher bem o governo islamista no Levante, preferido ao de Bizâncio.

Claramente, os sauditas procuram uma acomodação política que não possa ser apresentada como caricatura, como abordagem unidimensional sectária. A parte intrigante é que o processo também envolve o Irã.

O ministro de Relações Exteriores do Líbano esteve em Moscou em ‘visita de trabalho’ na 6ª-feira, para se encontrar com seu contraparte russo Sergey Lavrov. Depois do encontro, o Ministério de Relações Exteriores da Rússia emitiu nota na qual declarou que

“A Rússia reafirmou sua posição firme e inalterada de apoio à soberania, à integridade territorial e à estabilidade da República do Líbano, incluindo a resolução de todas as questões na agenda nacional pelo povo libanês mediante diálogo inclusivo, que leve em conta os interesses de todas as principais forças políticas e grupos religiosos. Não pode haver espaço para interferência externa nos assuntos internos do país que ameace romper o equilíbrio interno existente (…) A Rússia está interessada num Líbano forte e estável, que possa contribuir para reforçar a segurança internacional e regional.”

Interessante, Lavrov já tinha encontro agendado com seu contraparte iraniano Mohammad Javad Zarif em Antalya, Turquia, no domingo, para reunião ‘trilateral’ com seus anfitriões turcos sobre um processo político na Síria – que tem tudo a ver com o futuro do Líbano.

Enquanto a ‘conexão França’ da Arábia Saudita mantém-se robusta, os investimentos da França no Irã pós-sanções estão aumentando, incluindo o envolvimento da gigante Total de energia no desenvolvimento dos fabulosos campos Pars Sul de gás e o retorno da fábrica Renault de automóveis a uma base de produção no país.

Com certeza Teerã avisou a França de que não conte com atropelar os interesses centrais do Irã, inclusive seu programa de mísseis, em troca das concessões comerciais.

A diplomacia francesa é astuta nesse exercício de andar na corda bamba, e nesse caso as apostas são muito altas. Macron fez uma visita não agendada a Riad na 3ª-feira e está planejando visitar Teerã no mês que vem.

Depois de uma conversa com Hariri durante o almoço, um alto funcionário do Eliseu disse várias coisas surpreendentes:

– A França não está preocupada por Hariri ter deixado dois de seus filhos na Arábia Saudita, “porque pai e mãe entenderam que o melhor seria deixar os dois filhos em Riad”.

– A França visa a ver o Líbano “reconquistar sua estabilidade”. O Líbano deve ser protegido contra “os perigos que a crise regional pode lhe causar”.

– A França apoia a política do Líbano de se “descolar” das crises regionais. É essencial proteger o Líbano contra influências externas “negativas”, porque o país precisa de um “estado forte”.

Esses podem ser elementos chaves do entendimento que a Arábia Saudita está buscando. Sem dúvida, analistas israelenses acertaram ao antecipar que, afinal de contas, não haverá guerra no Líbano. A grande questão agora é se os franceses conversarão diretamente com o Hezbollah, e não será surpresa se procurarem o contato.

Traduzido por Vila Vudu

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