Como o Ocidente devora os seus filhos

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Para Thierry Meyssan, ao virem para a rua protestar os Franceses são o primeiro Povo ocidental a correr risco de vida para se opor à globalização financeira. Muito embora não tenham consciência, e ainda imaginem que os seus problemas são exclusivamente nacionais, o seu inimigo é o mesmo  que arrasou a região dos Grandes Lagos africanos e uma parte do Médio-Oriente Alargado. Apenas os povos que compreenderem a lógica que os destrói e a rejeitarem poderão sobreviver à crise existencial do Ocidente.

| Damasco (Síria)

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A revolta dos Ocidentais

A revolta das classes médias e populares Ocidentais contra a classe superior globalizada começou há dois anos.

Consciente da recessão do Ocidente em relação à Ásia, o povo britânico foi o primeiro a tentar salvar o seu nível de vida deixando a União Europeia e virando-se para a China e a Commonwealth (referendo de 23 de Junho de 2016) [9]. Infelizmente, os dirigentes do Reino Unido não conseguiram concluir o acordo previsto com a China e enfrentam grandes dificuldades em reativar os laços com a Commonwealth.

Depois, vendo o colapso da sua indústria civil, uma parte dos Norte-americanos votou pelo único candidato à presidência que se opôs à Nova Ordem Mundial, Donald Trump, em 8 de Novembro de 2016. Tratava-se de regressar ao «sonho americano». Infelizmente para eles, Donald Trump não tem qualquer equipe à sua volta exceto a sua família, e só é capaz de modificar, mas não mudar, a estratégia militar do seu país, onde a quase totalidade dos oficiais generais e dos altos funcionários adotaram o pensamento de Rumfeld-Cebrowski e não se imaginam senão num outro papel do que no de defensores da globalização financeira.

Conscientes do fim da sua indústria nacional e certos de estarem a ser traídos pela sua classe dominante, os Italianos votaram, a 4 de Março de 2018, pelos partidos anti-Sistema: a Liga e o Movimento 5 Estrelas. Estes partidos formaram uma aliança para pôr em ação uma política social. Infelizmente para eles, a União Europeia opõe-se a isso [10].

Enquanto que na França, com as contribuições obrigatórias, já entre as mais altas do mundo, a aumentarem 30% em dez anos, várias centenas de milhar de franceses vieram subitamente para as ruas a fim de se oporem a uma fiscalidade abusiva. Infelizmente para eles, a classe dominante francesa está contaminada pelo discurso que os Norte-americanos, entretanto, rejeitam. Ela esforça-se, pois, por adaptar a sua política à revolta popular, mas não para mudar os fundamentos da mesma.

Se abordarmos cada um destes quatro países de forma distinta, iremos explicar o que aí se passa de forma diferente. Mas, se os analisarmos como um fenómeno único, embora implicando culturas diferentes, encontraremos os mesmos mecanismos: nestes quatro países, consecutivamente com o fim do capitalismo, as classes médias desaparecem, mais ou menos rapidamente, e com elas o regime político que encarnaram: a Democracia.

Ou os dirigentes Ocidentais abandonam o sistema financeiro que construíram e regressam ao capitalismo produtivo da Guerra Fria, ou precisam  inventar uma organização diferente, da qual ninguém cuidou até aqui, ou o Ocidente, que dirigiu o mundo nos últimos cinco séculos, se afundará em problemas internos a longo prazo.

Os Sírios foram o primeiro Povo não-globalizado capaz de resistir e de sobreviver à destruição do “infra-mundo” do par Rumsfeld-Cebrowski. Os Franceses são o primeiro povo globalizado a revoltar-se contra a destruição do Ocidente, mesmo que não estejam conscientes de que estão a lutar contra o inimigo exclusivo de toda a humanidade. O Presidente Emmanuel Macron não é o homem para o momento, não porque seja responsável por um sistema que o precedeu, mas porque é o puro produto deste sistema. Face aos motins no seu país, ele respondeu a partir do G20 de Buenos-Aires que esta reunião tinha sido, a seus olhos, um sucesso (o que não foi o caso) e que ele ia avançar com mais eficácia que os seus predecessores na direção errada.

Como salvar os seus privilégios

Parece que a classe dominante britânica tem a solução: se Londres, em particular, e os Ocidentais em geral, já não são capazes de governar o mundo, convêm fazer parte do jogo e dividir o mundo em duas zonas distintas. É a política posta em marcha nos últimos meses da presidência de Obama [11], a seguir por Theresa May, e agora por Donald Trump, com a sua recusa de cooperar e as suas acusações avulsas, primeiro contra a Rússia e agora contra a China.

Parece também que a Rússia e a China, apesar da sua rivalidade histórica, estão cientes de que jamais se poderão aliar com os Ocidentais, os quais não cessaram de os querer destruir. Daí o seu projeto «Parceria da Eurásia Alargada» : se o mundo se vai fraturar em dois, cada um deve organizar o seu. Concretamente, isso significa para Pequim o abandono de metade do projeto da «Rota da Seda» e a sua reorientação exclusiva junto com Moscou para a Eurásia Alargada.

Determinar a linha de partilha

Para o Ocidente e para a Eurásia Alargada, convêm determinar o mais cedo possível a linha de fratura. Por exemplo, para que lado irá a Ucrânia bascular ? A construção pela Rússia da ponte de Kerch visava cortar o país, absorver o Donbass e a bacia do Mar de Azov, depois Odessa e a Transnístria. Pelo contrário, o incidente de Kerch, organizado pelos Ocidentais, visa fazer entrar toda a Ucrânia na OTAN antes que o país se frature.

Uma vez que o barco da globalização financeira se afunda, muitos começam a salvar os seus interesses pessoais sem se importarem com os outros. Daí, por exemplo, a tensão entre a União Europeia e os Estados Unidos. Neste jogo, o movimento sionista está sempre um passo à frente, daí a mutação acelerada da estratégia israelita que abandona a Síria à Rússia e se vira, ao mesmo tempo, para o Golfo e para a África Oriental.

Perspectivas

Tendo em conta o que está em jogo, é evidente que a insurreição em França nada mais é do que o início de um processo muito mais amplo que se vai estender a outros países Ocidentais.

No momento da globalização financeira, é absurdo acreditar que um governo, seja ele qual for, possa resolver os problemas do seu país sem primeiro colocar em questão a sua política externa e recuperar simultaneamente a sua liberdade de ação. Ora, precisamente, a política externa é mantida fora do âmbito democrático desde a dissolução da União Soviética. Convêm portanto, com urgência, retirar-se de quase todos os tratados e compromissos destes últimos trinta anos. Apenas os Estados que consigam reafirmar a sua soberania poderão ter esperança em recuperar-se.

Tradução Alva


[1] Segundo Mikaïl Gorbatchev, foi este acontecimento que tornou possível a dissolução do Pacto de Varsóvia e da União Soviética na medida em que ele deslegitimou o Estado.

[2] Contrariamente a uma ideia feita no Ocidente, foram os nacionalistas do Partido comunista leste-alemão (e as Igrejas luteranas), e não os anti-comunistas (e os pró-EUA), que derrubaram o símbolo da dominação soviética, o Muro.

[3] O objectivo principal da invasão do Iraque não foi o de libertar o Kuwait, mas o de instrumentalizar este assunto para montar a mais ampla coligação possível sob comando dos EUA, incluindo a URSS.

[4] Global Inequality. A New Approach for the Age of Globalization, Branko Milanovic, Harvard University Press, 2016.

[5] “O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017.

[6] É evidente que as guerras de Bush Jr. e de Obama jamais tiveram por finalidade estender a democracia. Primeiro porque, por definição, a democracia apenas pode emanar do Povo e não ser imposta à força de bombas. Depois, porque os Estados Unidos eram já uma plutocracia.

[7] Eu contabilizo aqui não apenas o milhão de mortos das guerras em si mesmas, mas também as vítimas das desordens suscitadas por estas guerras.

[8] O antigo Presidente da Reserva Federal dos EUA, Paul Volcker, é, pelo contrário, um dos arquitectos da financiarização global. Foi ele que acusou, em nome da ONU, as pessoas e entidades que haviam ajudado o Iraque a contornar o embargo das Nações Unidas (caso «petróleo contra alimentos»). Volcker é um dos principais personagens da Pilgrim’s Society, o clube transatlântico presidido pela Rainha Elizabeth II. Como tal, tornou-se o principal Conselheiro económico do Presidente Barack Obama e indicou uma parte da sua Administração.

[9] “A nova política estrangeira britânica”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 4 de Julho de 2016.

[10] Substituindo Mercado Comum europeu, que era um sistema de cooperação entre Estados, a União Europeia, definida pelo Tratado de Maastricht, é um Estado supranacional sob protecção militar da OTAN. Tem, portanto, o poder de anular as decisões nacionais.

[11] “Dois mundos distintos”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 8 de Novembro de 2016.

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