Como o Irã decidiu derrubar um drone dos EUA e poupar outro avião norte-americano, conseguindo assim evitar mais uma guerra

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23/6/2019, Elijah J Magnier (Blog)

O Irã conseguiu evitar o início de guerra total no Oriente Médio, no último momento, quando a sala do Comando Central e Controle Operacional do Exército do Irã e do Corpo de Guardas da Revolução Iraniana [ing. Iranian Revolutionary Guard Corps (IRGC)] ordenou que não fosse derrubado um avião Poseidon P-8.

Fora do padrão, havia 38 pessoas a bordo da aeronave P-8, que exige tripulação de nove membros. Havia no mínimo 6-8 oficiais a bordo (2-3 coronéis, 3-4 tenentes) e o restante da tripulação de escalão inferior a tenente. O avião voava sobre águas territoriais iranianas e dentro do alcance dos mísseis iranianos, quando o comando e controle centrais receberam a confirmação de que os EUA não entrariam em guerra nem atingiriam qualquer alvo no Irã. Isso aconteceu depois que o Irã derrubou, 5ª-feira passada, um dos mais avançados drones dos EUA. Segundo autoridades iranianas, o drone violava o espaço aéreo do Irã; as mesmas autoridades apresentaram mais tarde, à mídia, os restos do drone tripulado à distância. O Irã recebeu a confirmação, de uma terceira fonte, de que o presidente Donald Trump não atacaria qualquer posição iraniana.

“O Irã chegou muito próximo de bombardear e destruir o Boeing P-8 Poseidon para vigilância antissubmarinos e para espionagem, da Marinha dos EUA, que voava na área, quando chegou a confirmação de que os EUA haviam desistido de iniciar guerra contra o Irã e não bombardeariam quaisquer posições de controle e comando ou posições de baterias de mísseis, evacuadas ou não, ao longo do Estreito de Ormuz. Se Trump tivesse tomado outra decisão, tínhamos ordens para bombardear vários alvos dos EUA e de aliados dos EUA, e todo o Oriente Médio rapidamente se converteria em teatro de guerra muito destrutiva, com perdas enormes para todos os lados” – disse um general iraniano do IRGC.

Mas como aconteceu de quase irromper a guerra na manhã de 20 de junho, e como o Irã decidiu derrubar o drone norte-americano?

Um oficial de alta patente do IRGC disse que “as Regras de Engajamento (RdE, ing. Rules of Engagement, RoE) são definidas pelo Comando e Controle Centrais do Exército e do IRGC e são repassadas para as milhares de posições de defesas aéreas existentes em todo o país. Não são decisões tomadas independentemente e unilateralmente por algum general tipo ‘lobo solitário’ ou pelo comando de alguma específica posição, como Trump crê (lastimavelmente).”

“O Irã recebeu informação detalhada e objetivos da missão, via recursos de reconhecimento e outros meios da inteligência, relacionados ao tipo de missão do mais recente grupo de forças dos EUA enviadas por Trump (o Pentágono anunciou o envio de 1.000 soldados para a área). A tarefa era monitorar ar e mar (acima e abaixo), controlar vários drones e manter forças-tarefas em prontidão para imediato engajamento contra qualquer alvo potencial. Tudo isso sob o pretexto de dar proteção aos navios-tanques petroleiros que navegam no Golfo de Omã e no Golfo Persa. Esse movimento acontece logo depois dos ataques aos navio-tanques petroleiros em al-Fujairah e dos recentes ataques a dois petroleiros. Esses ataques são resultado da decisão de Trump de sancionar o Irã e impedir que qualquer país compre petróleo iraniano. O Irã já deixou claro que se o país não puder exportar o próprio petróleo, nenhum petróleo sairá daquela região. Assim sendo, seja qual for o procedimento militar dos EUA, não conseguirá fazer com que o petróleo chegue ao resto do mundo, especialmente não logo no dia seguinte à derrubada do drone” – disse a fonte.

Segundo o mesmo oficial militar, o “Comando e Controle Central Iraniano emitiu protocolo a ser seguido por todos os grupos de Comando e Controle distribuídos pelo país, com instruções para interromper quaisquer ações de violação do espaço terrestre, aéreo ou marítimo do Irã. Deve-se emitir um aviso quando a violação foi identificada, seja intencional ou não.” O comando local do IRGC também informará ao comando central detalhes da violação e, simultaneamente ordenará que o intruso ajuste sua trajetória e identifique-se.

Foi exatamente o que aconteceu na manhã de 20 de junho (correspondente ao 30º dia do [mês] Khordad pelo calendário persa). Foi quando o drone norte-americano foi avistado deixando os Emirados e voando em direção à costa do Irã, onde permaneceu explorando o Golfo por cerca de quatro horas. Ao retornar, quando violou o espaço aéreo do Irã, a base comunicou-se com o drone e emitiu o aviso de praxe. O drone respondeu desligando seus sistemas digitais, luzes e GPS – o que significa que se apresentava como objeto militar para recolher inteligência ou em missão de combate. Assim sendo, o drone foi imediatamente identificado como hostil e possível alvo. Depois de o controlador do drone ter ignorado repetidos avisos e ordens para que se identificasse, o comando central da posição de defesa aérea prosseguiu com as instruções daquela missão e, naquele caso, decidiu derrubar o drone. Nossos radares viam o drone e o calor que ele gerava. Foi disparado um míssil “3 de Khordad”, o qual destruiu imediatamente o alvo”.

O comando militar confirmou que “a liderança política e militar coordenou as decisões passas ao centro de comando e avaliou atentamente as consequências e implicações de quaisquer ordens. As ordens são claras: engajar com firmeza qualquer tipo de ameaça caracterizada como tal. Está em curso uma guerra econômica movida contra o Irã, e é guerra equivalente à mais violenta ação militar. Por essa razão as milhares de posições de defesa aérea distribuídas pelo país agirão também com decisão e firmeza: estão e permanecerão em alerta máximo e em prontidão para seguir as ordens e o treinamento que todos já receberam, para o caso de os EUA decidirem ir à guerra contra o Irã”.

“Decidimos não derrubar o P-8 Poseidon, porque recebemos informação confirmada de que não haveria ação de guerra. Fosse outro o caso, não teríamos hesitado em derrubar qualquer interesse dos EUA na área, no ar, em bases militares dos EUA ou no mar, se militares norte-americanos decidissem atacar nosso país. Nesse caso estaremos em guerra. As consequências tornar-se-iam irrelevantes, e deixaria de nos interessar a informação sobre quem começou ou quem seria responsável pelo evento.” – disse o general. Diferente do habitual, o P-8 Poseidon, que normalmente tem tripulação de nove, levava a bordo 38 pessoas, entre tripulação e oficiais.

Irã planeja adotar uma estratégia de ataques progressivos em caso de guerra: “nossos aliados serão parte essencial de nossa batalha de modo que o front será ampliado para além do Irã e as bases militares dos EUA próximas. Noticiamos que nenhum drone israelense foi identificado sobre o Líbano durante um par de dias. Obviamente, Israel estava tentando não provocar resposta libanesa, semelhante à derrubada do drone dos EUA. Parece que os EUA não querem receber mais de uma mensagem de outro front. Não significa que Israel parará de violar o espaço aéreo do Líbano, mas Israel agora sabe que seus movimentos aéreos estão monitorados e o céu deixará de ser seguro, quando chegar a hora de um confronto”.

Os EUA foram surpreendidos pela capacidade do míssil “3 de Khordad”. O nome do míssil é homenagem ao dia 24 de maio de 1982, dia da libertação da cidade de Khorramshahr, depois de 578 dias de ocupação pelos iraquianos, durante a guerra Iraque-Irã. Said Ali Khamenei declarou o “3 de Khordad, “dia da resistência e vitória”.

O míssil “3 de Khordad” – originalmente um SAM 6 – foi modificado domesticamente em 2013, quando a Rússia recusou-se a desenvolvê-lo. Modificações especiais foram introduzidas, com otimização do equipamento eletrônico, melhores sensores de detecção incluindo sensores termais, e com desenvolvimento de uma lock option para o GPS do míssil, para proteger contra interferências. O míssil recebeu as respectivas coordenadas, foi lançado contra o rastro térmico do drone dos EUA, e destruiu o alvo.

“Não podemos nos deixar paralisar, se países signatários [do acordo nuclear] não encontrarem vias para sair do Irã para voltar à posição comercial e de energia no mercado internacional. Se as sanções não forem levantadas de um modo ou de outro, estamos apenas no início da crise. Deve-se esperar muito mais. O Irã jamais aceitará ser desarmado e não entregará seus mísseis, porque são uma garantia de segurança e são motivações na região. Hoje o Irã é muito mais forte, conta com o apoio da população e há harmonia entre os políticos e a liderança militar. Não podemos nos submeter, nem se admitem negociações com Trump, enquanto as sanções pesarem sobre nossas cabeças. O mundo deve esperar mais surpresas nos próximos dias, porque os iranianos recusam-se a se deixar matar de fome. Assim sendo, já não tememos guerra alguma, seja qual for, sequer as maiores, contra uma superpotência”.

O drone norte-americano foi derrubado na mesma área onde, em julho de 1988, o míssil cruzador teleguiado USS Vincennes derrubou o voo 655, de avião iraniano civil com 290 pessoas a bordo.

Mais de 100 cadáveres permanecem insepultos, no fundo do Estreito de Ormuz. Pelas mídias sociais, parentes daquelas vítimas manifestaram-se com euforia, depois do golpe que o míssil iraniano acertou no âmago do orgulho dos EUA no Estreito de Ormuz. Pode trazer algum consolo àquelas famílias, mas a decisão de Trump, de responder com mais e mais sanções contra o Irã que começarão na 2ª-feira [hoje, 24/6/2019] significa que os riscos de guerra mais ampla e de que haja grande número de mortos continuam a crescer na região e no mundo.

Traduzido por Vila Mandinga

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