Caxemira, Coreia, Venezuela, Irã: guerra híbrida, quente, fria

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Kashmir, Korea, Venezuela, Iran: hot, cold, hybrid war28/2/2019, Pepe Escobar, Asia Times

Girando e girando numa espiral crescente, a geopolítica do jovem século 21 parece uma mandala psicodélica concebida por Yama, Senhor da Morte.

Kim Jong Un, governante da República Popular Democrática da Coreia, repousado ao final de uma viagem de 70 horas por trem, reúne-se, na comunista e próspera Hanoi com seu concorrente na disputa pelo Prêmio Nobel da Paz Donald Trump, sob o olhar benevolente de Tio Ho.

Essa sentença, não faz muito tempo, teria sido recebida com uivos transcontinentais de escárnio.

O comandante Kim, proprietário de pequeno arsenal nuclear, é declarado pela hiperpotência digno de conversação; mas o Irã, nada nuclear, não, ainda que a hiperpotência tenha desertado de acordo nuclear multilateral, vigente, aprovado pela ONU.

Paralelamente, a fronteira mais quente da Ásia revela-se, não na Zona Desmilitarizada entre as Coreias, mas, outra vez, na Linha de Controle entre Índia e Paquistão, duas potências nucleares, na Caxemira.

Embora em teoria Islamabad e Delhi possam escalar até apontarem uma contra a outra os respectivos mísseis nucleares, a República Popular Democrática da Coreia não apontará os narizes nucleares de seus mísseis para Guam; e Teerão não aponta coisa alguma para lugar algum, porque não tem mísseis nucleares, nem um, que fosse.

Em tom mais leve, à Looney Tunes, sai a mudança de regime em Pyongyang, mas permanece, a mudança de regime, no Irã, e começa mais mudança de regime na Venezuela. O Irã pode até permanecer plantado no Eixo do Mal, mas o novo slogam é “troika da tirania” (Venezuela, Cuba, Nicarágua), com o governo Papa-léguas em Caracas cantando ‘Beep Beep’ para o Coiote da hiperpotência.

Um conjunto de duvidosos neoconservadores e sombrias ‘fundações’ norte-americanas mantêm acesa a chama da mudança de regime no Irã, já fabricando até um eixo Teerã-Al-Qaeda; e na Venezuela avança um cenário sinistro. Surpreendente coletiva de imprensa no Ministério de Relações Exteriores em Moscou, na 6ª-feira, revelou que “forças especiais e unidades técnicas dos EUA serão desembarcadas em regiões próximas a fronteiras da Venezuela. Temos informação de que os EUA e seus parceiros na OTAN organizam entrega massiva de armas, vindas de país do Leste Europeu, para a oposição na Venezuela.”

Fatos são implacáveis. A OTAN há quase duas décadas, foi miseravelmente derrotada no Afeganistão. A guerra por procuração da OTAN-Conselho de Cooperação go Golfo na Síria fracassou. Vencedores ali são Damasco, Teerã e Moscou. No Donbass o conflito está congelado. Assim sendo, aí está de volta um doutrina Monroe remixada, apesar de um complô humanitário – que faz lembrar o “imperialismo humanitário” que devou à destruição da Líbia – ter, ao que parece, falhado, por enquanto.

O vice-presidente do Brasil, general Hamilton Mourão, introduziu uma dose de sanidade e opôs-se à mudança de regime de tipo “todas as opções estão sobre a mesa”, a favor da qual trabalhava o próprio presidente do qual Mourão é vice, Jair Bolsonaro. Mourão insiste que “a questão da Venezuela deve ser decidida pelos venezuelanos”; acrescenta que as ameaças dos EUA soam “mais como retórica, que como ação”, dado que um ataque militar seria “sem objetivo”.

Atenção àquele K

O que se esconde num nome? Pakistan [ing. “Paquistão”] pode até significar “terra dos puros” em urdu; mas o K é de Kashmir [ing. “Caxemira”]; o P é de Punjab, e o A é de Afghania (atualmente, as áreas tribais Pashtun), S de Sindh e T é como “-stão” em Baloquistão. K é assunto de identidade nacional.

A primeira guerra Indo-Pak depois da Partição em 1947 foi guerra de disputa pela Caxemira. Ano seguinte, a Caxemira foi dividida pela Linha de Controle [ing. Line of Control (LoC)], que se mantém como o Muro de Berlin de facto da Ásia, muito mais perigosa que a Zona Desmilitarizada entre as Coreias. Em 1999 houve outra miniguerra que atropelou a LoC.

A Caxemira é prêmio geoestratégico crucial. Assumingdo que a Índia algum dia venha a ser dona de toda a Caxemira, seria como ter a ponto direta para a Ásia Central e uma fronteira com o Afeganistão, ao mesmo tempo em que priva o Paquistão de uma fronteira com a China, anulando assim, em grande medida, o Corredor Econômico China-Paquistão, CECP – um dos projetos chaves da Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE.

Ae o Paquistão ganha toda a Caxemira, resolvem-se todas as preocupações do país sobre segurança em questões de água. O Rio Indo nasce nos Himalaias, no Tibete, e atravessa toda a Caxemira controlada pela Índia, antes de entrar no Paquistão e seguir até o Mar da Arábia. O Indo e seus tributários abastecem de água dois terços do Paquistão. Nova Delhi acaba de ameaçar usar como arma todo o fluxo de água até o Paquistão.

Não há final à vista que ponha fim à rotina da Caxemira atormentada por escaramuças perenos ou mesmo conflagração parcial entre jihadistas – protegidos em diferentes níveis por Islamabad – e o exército da Índia. O grupo islamista Jaish-e-Mohammed (JeM) quer toda a Caxemira anexada a um Paquistão governado pela lei da Xaria.

A obsessão do JeM com a Caxemira é partilhada pelo grupo Lashkar-e-Taiba (LeT), aliado do JeM. Esses dois grupos são apoiados – com diferentes graus de apoio – pelo ISI, agência paquistanesa de inteligência. Importante mesmo é que os dois grupos são financeiramente apoiados pela Casa de Saud e pelos Emirados Árabes Unidos, wahhabistas.

Não há solução para a Caxemira que não envolva cortar a influência saudita – em dinheiro e armas – o coquetel tóxico que alimentou a famosa cultura Kalashnikov no Paquistão. E não pode haver solução, enquanto permanecer ativada a capacidade da Casa de Saud para receber, a pedido, armas nucleares de Islamabad – o segredo mais conhecido de todos no Sul da Ásia.

Rússia e China, vozes da razão

Reinasse aí a razão, deixando-se de lado os desígnios de Yama, Índia e Paquistão poderiam conversar, como o primeiro-ministro Imran Khan acaba de propor, num formado como o da Organização de Cooperação de Xangai, da qual participam os dois países, com Rússia e China como mediadores.

E isso nos leva ao que aconteceu em Yueqing, China, na 4ª-feira, totalmente fora do radar ocidental: uma reunião de nível ministerial, de facto, dos países RIC, ex-BRICS, da qual participaram os ministros de Relações Exteriores de Rússia, Sergey Lavrov; China, Wang Yi; e Índia, Sushma Swaraj.

Lavrov pode até ter denunciado “tentativas absolutamente escandalosas” para “criar artificialmente um pretexto” para intervenção militar na Venezuela. Mas o tema realmente decisivo deve ter sido o que Rússia, China e Índia discutiram a respeito da Caxemira, e que pode vir a ter impacto direto nos esforços de Islamabad e New Delhi para desintoxicar um cenário ainda explosivo.

As posições coordenadas de China e Rússia são absolutamente instrumentais para facilitar o diálogo da Coreia do Norte com o governo Trump. Mas ainda falta muito até se realizar o sonho do presidente Moon da Coreia do Sul: Trump declarar oficialmente terminada a guerra da Coreia, 1950-53, mediante um tratado de paz que substitua o armistício ainda vigente, por garantias firmes de segurança. Afinal, essa é a condição número 1 para que a República Popular Democrática da Coreia começar a considerar qualquer possível ‘desnuclearização’.

China e Rússia, em teoria, também podem levar Índia e Paquistão novamente à razão – além da força para pressionar o wahhabismo armado da Arábia Saudita.

Mesmo assim, do ponto de vista de Washington, China e Rússia são “ameaças” – desde a Estratégia Nacional de Segurança, até funcionários como o general da Força Aérea Terrence O’Shaughnessy, comandante do Comando do Norte, que acaba de dizer a uma comissão do Senado que a “decisão da Rússia de manter os EUA sob risco” é urgente ameaça.

Uns são mais iguais que outros

China, Rússia e Irã são nodos essenciais da integração da Eurásia, que interconecta firmemente vetores chaves das Novas Rotas da Seda, mediante o tratado comercial do Irã com a União Econômica Eurasiana e a expansão do Corredor Internacional Norte-Sul de Transporte [ing. International North-South Transportation Corridor (INSTC). Considerando o que está em jogo, Lavrov e Yi ficaram embasbacados ante a renúncia do ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, por postado no Instagram.

Fontes em Teerã afirmavam que a razão chave da renúncia de Zarif foi ele não ter sido informado – nem ter participado – de uma reunião de alto nível, ultra secreta em Teerã, na 2ª-feira, de Bashar al-Assad da Síria, o Supremo Líder Aiatolá Khamenei, o comandante do Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica Qassem Soleimani e o presidente Hassan Rouhani na qual se discutiram assuntos estritamente militares da Síria, não diplomacia. Zarif não estava presente, mas seu braço direito Abbas Araghchi, sim, estava.

No fim, Rouhani não aceitou a renúncia de Zarif, sob o argumento de que contrariava interesses nacionais do Irã. E, crucialmente importante, Soleimani disse que Zarif recebeu total apoio de Khamenei. Até as variadas facções dos linha-duras iranianos devem estar furiosos com ambos, Zarif e Rouhani, vendo-os como idiotas que se deixaram apanhar na armadilha dos EUA. A última coisa de que Teerã precisaria numa hora dessas – pressionada por guerra híbrida – seria divisão interna. Mas, para compensar, o apoio de ambas, Rússia e China, permanece inabalável.

Washington pode até inventar variações de Guerra Híbrica, mas a maioria dos reflexos permanecem pura Guerra Fria. O mecanismo é ainda o mesmo. Uma catarata de dinheiro dos contribuintes norte-americanos é despejada sobre o complexo industrial-militar, com fornecedores da Defesa e grandes empresas pagando fabulosas contribuições de campanha para a classe política. Eis porque gente como Tulsi Gabbard, que tem posição firme antiguerra – seja quente, fria ou híbrida – e é contra ações para mudança de regime em outros países, será atacada sem piedade até o Juízo Final pelo lobby das armas, e jamais será autorizada a candidatar-se à presidência.

O Sul Global aprendeu que, girando e girando na espiral cada vez mais ampla, alguns países são realmente mais iguais que outros. Alguns são incansavelmente acusados de armar terroristas (o Paquistão), e potências nucleares têm sempre de ser acalmadas (RPDC) e seduzidas (a Índia, como andaime da estratégia “Indo-Pacífico”). Kim agora é “grande líder” capaz de entregar ao próprio país um “tremendo futuro”.

Potências não nucleares, especialmente se ricas em recursos naturais e que implementem estratégias como descartar o EUA-dólar, como Irã e Venezuela, estão condenadas a ser alvos para ataques para mudança de regime, lentamente e dolorosamente devoradas por Yama, o Senhor da Morte.

Traduzido por Vila Mandinga

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