Boicotar o diálogo pela paz : A quem interessa? 2

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Esta semana muito se falou sobre a visita do Aiatolá Mohsen Araki ao Brasil, para a participação em um congresso em São Paulo, que ocorrerá no próximo dia 29 no Novotel Center Norte, e que visa tratar sobre a ameaça mundial do terrorismo. Mohsen Araki, juntamente com outras dezenas de convidados de todo o mundo, e principalmente do Brasil, é um dos que discutirão e pretendem apresentar o Islã combatente ao terrorismo, que grande parte da mídia e estudiosos, não somente do Brasil como do mundo, parece ignorar ou desacreditar que exista. A prova disto é a forma como algumas organizações, veículos de mídia e até mesmo “representantes do povo” se engajaram em uma campanha para atacar e condenar o que nitidamente pouco conhecem, utilizando-se de acusações sem sentido real e de uma estratégia de instigação ao pavor. Não seria isto terrorismo psicológico? E porque é tão difícil deixar de associar o Islã ao terrorismo?

Mohsen Araki, o grande foco destes ataques, simplesmente por ser uma alta liderança religiosa do Islã, é um renomado professor com participação em atividades educacionais e sociais por todo o globo, principalmente na Europa. Mas no Brasil se tornou alvo de alguns setores justamente por ser um aiatolá, por ser originário de um país muçulmano, e principalmente, por ter posição contrária ao sionismo. Talvez esteja aqui, neste último ponto, a grande razão para o início dos ataques, que chegam a pedir que sua vinda ao Brasil seja impedida. O que é absurdo e não passa de uma histeria, já que apuramos que o mesmo é um convidado no país, e não está entrando sorrateiramente como os gritos histéricos querem fazer crer.

Há um grande engano entre os que bradam contra a visita do Sr. Araki e contra a realização deste evento, pois se privam e querem privar os demais de conhecer o que o Islã tem realmente a dizer sobre o mal do terrorismo e o radicalismo, assim como se fecham para a oportunidade de realizar um diálogo honesto com aquilo que claramente pouco conhecem, e o fazem utilizando-se de táticas nada dignas, através de ataques insensatos e cegos, que só servem para propagar ódio e a islamofobia em um país que infelizmente está seguindo este rumo à passos largos. Como dito antes, não seriam estas “estratégias” as próprias “estratégias” dos radicais e extremistas?

Parece que chegamos a um ponto em que dois lados radicais se tornaram idênticos, cada qual com suas formas de violência específica e esperando a primeira oportunidade para agir violenta e cegamente. Com isso pouco espaço resta para os que querem dialogar e chegar a consensos, para os que querem criar pontes ao invés de muros.

Vários intelectuais, políticos, veículos de mídia, líderes religiosos (de várias denominações religiosas) e líderes sociais participarão deste evento e encontram-se ansiosos por debater e trocar ideias importantes sobre o tema, um tema delicado, mas que deve ser discutido abertamente por todos, para que a ameaça do terror e do radicalismo seja realmente extirpada.

Conversando com algumas destas pessoas sobre os ataques ao evento, elas se demonstraram perplexas com as declarações que vem sendo feitas por alguns indivíduos e setores, algo que talvez não pudesse ser imaginado em um país multicultural como o Brasil.

Alegar que um evento que se propõe a condenar o terrorismo é um evento sem crédito pois receberá homens e mulheres de nações islâmicas é pura estupidez e nítida islamofobia. Vejam a que ponto chegamos!

Desejar que as portas do país se fechem para homens e mulheres que pretendem se encontrar com muçulmanos e não muçulmanos brasileiros para discutir e condenar o terrorismo e o radicalismo é ofensivo, desonesto e sim, é islamofobia. É esta a imagem que queremos que o nosso país e nosso povo tenha para os estrangeiros? É esta imagem que queremos ter de nós mesmos?

Outro ponto que checamos foram as alegações que o Irã trabalha como um financiador de instituições islâmicas no Brasil com o intuito de disseminar sua agenda religiosa e política. No entanto o encontro foi idealizado por uma instituição islâmica brasileira que diz não ter vínculo algum com outras nações (islâmicas ou não) e os convidados do evento são das mais variadas nacionalidades, sendo a maioria brasileiros e nossos vizinhos da América Latina. Dizer que é um evento iraniano somente porque um aiatolá visitará o mesmo não se sustenta, o que piora quando os opositores do evento tentam atacar a política iraniana ou fazer acusações contra o Irã através de tudo isso. Enfim, o evento não visa discutir o Irã, ele visa discutir o combate ao terrorismo e ao radicalismo.

Ainda sobre o tema do encontro, o interessante é notar como alguns críticos chegaram até mesmo a modificar o nome do mesmo de “Os muçulmanos e o enfrentamento ao terrorismo e o radicalismo” para “Os muçulmanos e o enfrentamento ao terrorismo radical” para assim ter a suposta liberdade de afirmar que o evento somente se propõe a condenar e discutir o “terrorismo radical”, o que não tem sentido algum e é uma forma de desabonar o propósito do mesmo através de um jogo de palavras que só visa a calúnia e desinformação. É claro para qualquer um que se opõe ao terrorismo que o radicalismo é a mãe de todos os males, seja o radicalismo religioso, político ou qualquer espécie dele. Ou seja, discutir a respeito do terrorismo pressupõe discutir a respeito do radicalismo também, pois são questões que se conectam, e manipular até mesmo o nome do evento para fazer crer que na interpretação dos muçulmanos exista um “terrorismo radical” e outro “terrorismo não radical” é desonesto ao extremo.

Um outro absurdo visto é associar o evento com o crescente número de conversões ao Islã no Brasil de forma negativa, ou seja, alguns opositores deixam a impressão que realizar eventos islâmicos ou discutir sobre o Islã deveria ser proibido no nosso país. Como se fosse proibido se tornar muçulmano em um país multicultural e que prega e defende a liberdade religiosa. Parece que não sabem que há uma Constituição que garante a liberdade religiosa. As pessoas que não entendem ou não aceitam isto estão claramente indo de encontro com princípios básicos de nosso pais, que é livre para todos, não importando sua fé ou cultura.

Com isso chegamos ao ataque aos refugiados. A crítica ao evento também tem sido porta de entrada para todo o tipo de fala contrária à política de acolhida dos refugiados, utilizando-se de um discurso batido que fala irresponsavelmente sobre “destruição da nossa cultura”, desemprego, aumento de violência e ameaça de terror em nossas cidades. Uma tempestade em copo d’água que tem o nítido intuito de disseminar ódio e medo.

Só nos resta lamentar a entrada deste tipo de discurso tão raso no Brasil, obra dos que não desejam e talvez nunca tenham desejado o entendimento. Que essa parcela de pessoas, com sua histeria e colocações belicosas não cresça, e que os demais compreendam que não há porque haver conflito quando se deseja o diálogo e a procura por pontos em comum, seja qual for a religião, nacionalidade ou cultura. Este evento, que alguns resolveram tentar difamar e sabotar, é uma prova real daquilo que os muçulmanos têm tentado dizer ao mundo, que o Islã e os muçulmanos procuram a paz e o convívio pacífico com os seguidores das demais religiões, e que os conflitos e desentendimentos são fruto de desinformação, desvirtuação e em casos mais graves da instalação de um sentimento de caos e ódio que não possui raízes nos preceitos do islâmicos, e tampouco nos preceitos das demais religiões ou de qualquer pessoa que acredite na paz. Afirmar que o Islã deseja a destruição ou a extinção do povo judaico, cristão ou de qualquer outro povo beira o absurdo e é uma ofensa aos muçulmanos que vivem em paz em praticamente todos os países do mundo, e também aos seguidores de outras religiões que vivem em paz entre os muçulmanos. O conflito não é uma regra, é uma exceção, e nos cabe conhecer as raízes verdadeiras destes conflitos e a quem os mesmos beneficiam!

Como dizem os muçulmanos… “Salam” (Paz)! Por que tem se tornado tão difícil a procura pela mesma? E cabe perguntar mais uma vez: Quem será que lucra com a guerra e o conflito?

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2 thoughts on “Boicotar o diálogo pela paz : A quem interessa?

  1. Responder Kico França jul 27, 2017 17:12

    A vinda do Aiatolá Mohsen Araki representa o Brasil na rota da discussão mundial sobre grandes questões.

    Parabéns aos organizadores.

    CEBRAPAZ-PR

  2. Responder Chadia jul 27, 2017 18:05

    Otimo texto!!!

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