Belicismo de Trump vende armas, sim, mas faz avançar a causa do Irã e a causa Palestina

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3/6/2019, Elijah J Magnier (Blog)

Quando o ‘Estado Islâmico’ (ISIS) ocupou vastas áreas no Iraque e na Síria, atraiu sobre si a atenção do Oriente Médio e do mundo, afastando o foco para longe da causa palestina. Os países afetados pelo horror que lhe chegou com o ISIS concentraram-se em recuperar seus territórios ocupados no Lev ante e na Mesopotâmia, eliminando a infraestrutura do grupo terrorista, e pondo fim ao recrutamento, pelos mesmos terroristas, de combatentes nacionais e estrangeiros. A meta passou a ser congelar a expansão do ISIS e impedir que o terrorismo respingasse para outros países no Oriente Médio.

Muitos membros militantes de grupos palestinos dentre os quais o Hamas armaram-se em apoio ou à al-Qaeda ou ao ISIS, principalmente na Síria mas também, em certa medida, no Iraque. Entre 2012 e 2018, a liderança política do Hamás chegou até a apoiar a guerra da OTAN para mudar o regime sírio, o que lhe valeu a inimizade do presidente Bashar al-Assad, cujo governo defendeu e garantiu abrigo, durante décadas, ao próprio Hamas e à causa palestina. Assad resistiu durante anos aos pedidos dos EUA para que expulsasse o Hamas; e recebeu, em troca, traição.

Mas nos últimos dois anos coube ao próprio presidente Donald Trump e sua equipe dar forte impulso à causa palestina e restaurar-lhe o antigo brilho, apesar das traições e desvios da última década. Hoje, todos os que apoiam a causa do povo palestino estão não só unidos contra o inimigo comum (a coalizão EUA-Israel), mas a postos para combater como um só corpo, em múltiplos fronts.

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Os presentes de Trump ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu – o Golan sírio ocupado por Israel e a cidade de Jerusalém ocupada por Israel – foram como injeção de adrenalina em todos os atores não estatais e movimentos de resistência no Oriente Médio. Esses grupos, que contam com apoio financeiro e militar do Irã, estão agora unidos contra a hegemonia dos EUA. Mas também cuidaram de se interligar efetivamente entre si e a as respectivas lutas, para formar uma frente unida contra os EUA e Israel. Essa unidade já pode ser constatada, do Iêmen, Iraque, Irã, Síria e Líbano até a Palestina.

Durante o mês de maio, a sabotagem no porto al-Fujairah dos Emirados Árabes Unidos, seguida do ataque com drones armados a instalações da Aramco na Arábia Saudita por houthis do Iêmen, foram mensagens claras e fortes. As duas instalações, dos emirados e saudita, são importantes para a exportação de milhões de barris do petróleo do Oriente Médio sem que os navios petroleiros tenham ter de cruzar o Estreito de Ormuz; são pontos que nos próximos anos serão cada vez mais importantes. Daí a importância do ‘recado’: a sabotagem e os ataques com drones são ‘aperitivo’ do que pode vir na sequência, se não se encontrarem alternativas para o transporte de petróleo pelo Estreito, para todo mundo. Se o Irã for impedido de exportar petróleo, todos os demais países também o serão.

Mais que isso, a política israelense de estrangular Gaza, unificou os vários grupos palestinos da área numa única sala de guerra e operação militar contra o exército israelense. Doze grupos militares palestinos uniram forças em Gaza e coordenaram o ataque a cidades israelenses e a outros alvos, para resistir contra Netanyahu e o estrangulamento da Faixa e dos palestinos que ali vivem.

A conclusão é simples: quanto mais ostensivamente o establishment de EUA-Israel obra para apagar os direitos dos países do Oriente Médio e seus cidadãos – que lutam para viver em paz lado a lado entre eles, e para recuperar os territórios que Israel ocupa –, mais se fortalecem as populações e os grupos não estatais de resistentes.

O Irã muito se beneficia das consequências das políticas pervertidas de EUA-Israel. Quanto maior a violência de EUA-Israel, mais cresce a influência do Irã em várias partes do Oriente Médio. O Irã sempre pode contar com parceiros que defendam seus interesses e postam-se ao seu lado, ao primeiro sinal de ameaça contra a segurança nacional da República Islâmica.

Não há dúvidas de que os EUA arrancar lucros financeiros sempre maiores conforme aumente a instabilidade nos países do Oriente Médio, o que reforça a hegemonia dos EUA sobre os países ricos em petróleo. E manter o Irã como inimigo modelo muito ajudou a aumentar as vendas de armas norte-americanas que alcançam níveis sem precedentes. Lutas tribais e entre etnias no Oriente Médio servem para manter divididos os países dessa parte do mundo. A divisão regional também impede que países da região coordenem ações e agendas políticas, assegurando que, no médio e no longo prazo não se cogite de unificação monetária ou de criar mercado regional.

Durante a mais recente crise entre Teerã e Washington, o governo dos EUA não conseguiu proteger os países do Golfo nem contra a sabotagem, nos Emirados, nem contra o ataque às instalações da Aramco.

Mesmo assim, a exibição cenográfica de força e as ameaças verbais ainda mais cenográficas – com porta-aviões e bombardeiros B-52 para enfrentar a alardeada ‘ameaça iraniana’ – ajudou a vender mais equipamento militar norte-americano, inclusive $8 bilhões em mísseis Patriot para interceptação de mísseis iranianos disparados contra países do Golfo.

Claro: não aconteceu guerra alguma e Irã e EUA fizeram de tudo para evitar que acontecesse. O secretário Mike Pompeo parece que já esqueceu o próprio ultimatum de 12 pontos, e já diz que os EUA aceitam discutir sem precondições com o Irã. Nada do que Pompeo deseje ou diga tem qualquer efeito, porque o Irã já expôs com máxima clareza suas pré-condições que continuam sobre a mesa: só haverá conversações com os EUA depois que os EUA voltarem a se submeter ao acordo nuclear (JCPOA) e levantarem todas as sanções. Nesses termos, o Irã reabriria negociações. Mesmo assim, é improvável que faça qualquer concessão até o fim do mandato de Trump, em 2020. Fato é que hoje o Irã parece muito mais forte, e os EUA, muito mais fracos.

Sabe-se que o Hezbollah está pronto a ir à guerra pelo Irã e a bombardear Israel. O Iêmen já atende aos objetivos do Irã, ao usar drones contra instalações de petróleo dos sauditas. Os atores iraquianos não estatais mostraram do que são capazes, e os EUA entenderam o recado: forças dos EUA serão tratadas como alvos, no Iraque. Em Gaza, os grupos palestinos já receberam novas armas e mostraram que estão prontos a se integrar ao front comum, em caso de guerra contra Israel. Essa mobilização geral aplicou uma ‘chave de braço’ que paralisou EUA e Israel, impondo uma situação de “nem guerra, nem paz” no Oriente Médio.

EUA e Israel têm as armas mais modernas e a mais alta tecnologia militar. Mas os adversários dos EUA no Oriente Médio já estão também bem equipados, embora não no mesmo alto grau de tecnologia. O que interessa observar é que os mísseis de precisão e os drones armados com que o Oriente Médio já conta bastarão, muito provavelmente, no quadro do futuro previsível, para manter essa “necessária” relação de forças”.

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga

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