Balé da Energia 2: Síria, Ucrânia e o Oleogasodutostão

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26/8/2014, [*] Pepe EscobarRT − Rússia Today

Tradução: Vila Vudu

foto: Andrey Sinitsin

Assim como Irã, Rússia, EUA e União Europeia estão envolvidos num sofisticado balé nuclear/de-energia, Síria e Ucrânia são também dois vetores chaves nos jogos de energia, com peso suficiente para determinar grande parte do que acontece a seguir no Novo Grande Jogo na Eurásia.

E essas duas guerras, na Síria e na Ucrânia, também são guerras de energia.

O plano máster do governo Obama para a Síria era “Assad tem de sair”; a mudança de regime geraria uma entidade da Fraternidade Muçulmana apoiada pelos EUA, e uma perna chave do Oleogasodutostão – o gasoduto Irã-Iraque-Síria, de US$ 10 bilhões – estaria amputada para sempre.

O próprio emir do Qatar em pessoa tomou a estrada de Damasco em 2009 para negociar um gasoduto Qatar-Síria-Turquia. Mas Bashar al-Assad disse que não; explicou que não tinha interesse algum em pôr em risco os negócios de energia entre Síria e Rússia.

Mesmo assim, prosseguiram as conversas e, lembrando que em 2001, acontecera um entendimento para um projeto rival Irã-Iraque-Síria. Significa que já aparecia escrito na parede – ou nas tubulações (de aço) que chegariam, mais dia menos dia, ao Mediterrâneo Leste. O gás para consumidores europeus potenciais viria, de fato, do campo Pars Sul, no Irã, contíguo ao campo Cúpula Norte, do Qatar; juntos, os dois campos formam o maior campo de gás de todo o planeta.

Não só para o Qatar e para a Turquia, mas especialmente para a Voz do Patrão, era negócio inaceitável; a política oficial dos EUA de “isolar o Irã” estaria em cacos. Pior: a possibilidade estaria aberta para que a União Europeia em seguida se convertesse em consumidora privilegiada de ambos, Rússia e Irã, dos quais passaria a receber nada menos que 45% de seu suprimento de gás. A plena integração energia/comércio da Eurásia – nesse caso envolvendo grande parte da União Europeia, Rússia e Irã – é anátema absoluto para o Império do Caos.

Eis aí o contexto argumentacional que “explica” o desastre intitulado “Assad tem de sair”; uma guerra DE terror, financiada em grande parte por Qatar e Arábia Saudita, com apoio logístico da Turquia, com Ancara, a CIA e a gangue do CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) criando uma ponte aérea “secreta” para armar os chamados jihadistas “do bem”, usando para isso aviões cargueiros militares sauditas, qataris e jordanianos, desde 2012.

foto: Khaled al-Hariri

O mínimo que se pode dizer, é que a volta do chicote no lombo do chicoteador foi espetacular. “Assad tem de sair” deu em nada. E nada menos que o Estado Islâmico (IS), antes conhecido como ISIL, liderado pelo Califa Ibrahim, ergueu a própria cabeçorra. Até as Forças Especiais dos EUA estão embasbacadas ante o poder de luta deles.

O Califato, que engloba partes da Síria e do Iraque está ganhando rios de dinheiro vendendo – ironia mãe de todas as ironias – petróleo e gás a preço de liquidação no mercado negro. São pelo menos US$ 38 milhões de dólares/mês: US$ 8 milhões de um campo de gás capturado na Síria e US$ 30 milhões de, no mínimo, seis campos de petróleo capturados no Iraque.

As Casas de Saud e Thani mostram-se hoje ostensivamente horrorizadas com o Califa e seus degoladores, inclusive os já chamados jihadistas-Beatles. Mas mesmo assim os doadores sauditas e qataris privados, além de outros notáveis do CCG, continuam a fazer chover dinheiro e armas sobre o Califato. O presidente Erdogan na Turquia está hoje também oficialmente horrorizado. Mas a fronteira turco-síria continua escancarada para o ir e vir de todos os jihadistas viajantes.

No pé em que estão as coisas no Oleogasodutostão, a possibilidade de o projeto do gasoduto Qatar-Síria-Turquia decolar é zero. E as coisas não estão mais bem paradas no que tenha a ver com Irã-Iraque-Síria, considerando que dois desses três países estão em guerra civil sem final à vista.

Deem-nos Grad, que a gente frack 

No cenário da Ucrânia, o “vilão” é a Rússia, em vez do Irã. E a implicação é muito mais direta sobre interesses dos EUA.

O que realmente interessa no leste da Ucrânia é limpar uma vasta área para o fracking – mediante uma ofensiva com mísseis Grad, o que levou a êxodo em massa de refugiados.

Michael Hudson resumiu muito bem:

Agora, imaginem se aqui nos EUA o presidente Obama e o vice-presidente Biden mandassem tropas para o interior do estado de New York, que se opõe à perfuração para extração de petróleo/gás, e bombardeassem as cidades de Rochester, Buffalo, e se pusessem a bombardear as cidades e a matar todos os que se opõem ao fracking. Pois isso, exatamente, é o que está acontecendo na Ucrânia. E estão fazendo isso com o apoio do Banco Mundial.

A empresa Royal Dutch Shell é a principal interessada em perfurar/extrair xisto betuminoso no leste da Ucrânia; em janeiro, assinou negócio de US$ 10 bilhões. 

E há também a Exxon, além da conexão Burisma Holdings. O governador nomeado de Dnepropetrovsk, cidadão israelense-ucraniano, o tenebroso bilionário Igor Kolomoisky – que também mantém sua própria milícia privada – está na cama com ninguém menos que o vice-presidente dos EUA Joe Biden. O filho de Joe Biden foi contratado como diretor para negócios de petróleo e gás da Burisma Holdings – exatamente a maior empresa de extração/refino de xisto betuminoso [fracking] na Ucrânia.

Além disso tudo, o Parlamento em Kiev aprovou lei que permitirá que investidores dos EUA e da União Europeia participem – em termos de joint venture – de até 49% da propriedade da tubulação enterrada no trecho ucraniano e das instalações subterrâneas de armazenamento de gás.

A conversa dos “especialistas” de Kiev é previsível: a joint venture trará o tão necessário “investimento”. E porá na prateleira para sempre o gasoduto Ramo Sul, de 2.446 km, planejado para levar o ouro azul da Gazprom pelo subsolo do Mar Negro e entrar na União Europeia na Bulgária, absolutamente sem passar pela Ucrânia. Tradução: o já periclitante orçamento de Kiev encolherá ainda mais, com a redução nas taxas cobradas pela “passagem” do gás.

foto: Gleb Garanich

A União Europeia importa da Rússia quase 30% do gás de que precisa. Metade disso transita hoje pela Ucrânia. Mas em futuro próximo o gasoduto Ramo Norte, pelo subsolo do Mar Báltico entrará em operação, e o Ramo Sul é praticamente certo, tão logo a confusão na Ucrânia seja resolvida. Contornar a Ucrânia é opção mais firme a cada dia.

Compare-se isso ao sonho molhado de Kiev, inflado por Washington, de vir a “controlar” todo o fluxo de gás da Gazprom para a União Europeia e, além do mais, de controlar todo o comércio em dólares norte-americanos. Mais uma vez, voltamos à política básica do Império do Caos – impedir maior integração econômica/de-energia entre Rússia e União Europeia.

Assim sendo, a prioridade de Washington no curto prazo é sabotar o Ramo Sul; não surpreende que o gasoduto esteja suspenso, com a Comissão Europeia obedecendo caninamente a Voz do Patrão. Mas a obediência nesse caso também significa que, por hora, largas porções da União Europeia permanecem reféns da Ucrânia.

É sob essa luz que se tem de examinar a recente intervenção, pelo vice-ministro do Petróleo do Irã, Ali Mejidi, quando declarou entusiasticamente que o eternamente conturbado Nabucco, a ópera do Oleogasodutostão, se algum dia houve tal coisa, estaria outra vez “em cena”.

A ideia do gasoduto Nabucco é levar gás para a União Europeia via Turquia, Bulgária, Romênia, Hungria e Áustria. Sim, mas, gás vindo de onde? O Turcomenistão e o Cazaquistão ficaram, afinal, excluídos. Poderia ser gás do Azerbaijão, mas essa via exige uma fortuna extra em investimentos. A indústria iraquiana não estará, tão cedo, em operação. E o Irã só estará no jogo se assinar algum acordo nuclear até o final de 2014 e se as sanções forem levantas em 2015 (e todos esses “se” são gigantes).

Assim sendo, na Ucrânia, como na Síria, estamos de volta ao começo do jogo, em termos de energia. O país é uma arca de recursos econômicos, que está sendo sugado para dentro do poço do capitalismo de desastre. No fim, é provável que a Gazprom surja como vencedora.

Não está entendendo Síria e Ucrânia? Calma: basta seguir a trilha das guerras da energia.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera.

http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/08/pepe-escobar-bale-da-energia-2-siria.html

 

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