Eleições americanas: As três Hárpias estão de volta

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3/7/2016, Pepe Escobar, Russia Insider
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

“ali, onde as tétricas harpias fazem ninho”
(Divina Comédia, “Inferno”, canto XIII)

Hillary Clinton e Victoria Nuland

“… E a Hárpia n. 3 é a secretária de Estado Victoria Nuland – valorosa baluarte dos neoconservadores –, que imortalizou o “Foda-se a União Europeia” muito antes do Brexit.”

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Era uma vez, quando a Líbia (“Viemos, vimos, ele morreu”) oferecia ao mundo espetáculo imperialista humanitário sangrento estrelado pelas Três Hárpias Norte-americanas: Hillary Clinton, Samantha Power e Susan Rice, de fato quatro, se se incluía a mentora e alma mater de Hillary, Madeleine Albright.

Pops cínicos sentiram-se tentados, àquela época, a chamar de Brunhilde e as Valquírias, aquelas amazonas no desvio. Ou pelo menos, a chamar Hillary, a da gargalhada-careta-grudada-ao-rosto, de Átila, a Franga Huna [orig. Attila The Hen].

Acabemos logo com o suspense. Com certeza haverá pelo menos uma sequela previsível. E até já apareceu, sob a forma de uma resenha cheia de empáfia intitulada Expanding American Power [Expandindo o Poder Norte-americano], publicada pelo think-tank Center for a New American Security (CNAS).

O CNAS tem, como cofundadora e presidenta –a ex-subsecretária de Defesa Michele Flournoy, que trabalhou no governo Obama, sob as ordens de Leon Panetta.

 

Hon. Michèle Flournoy | Center for a New American Security

Também previsivelmente, o CNAS e seu artigo de combate são uma espécie de grande PNAC remixado – e com algumas das velhas caras neoconservadoras/neoliberais: Elliot Abrams, Robert Zoellick, Martin Indyk, Dennis Ross e, claro, a própria Flournoy, tida como a próxima comandante do Pentágono, numa presidência Hillary.

Nesse contexto, o Excepcionalistão reina sob todas as suas formas – da sumarenta lista de fornecedores da Defesa e doadores de campanha, até a ênfase na OTAN comercial, via as duas ‘parcerias’, Trans-Atlântico (Transatlantic Trade and Investment Partnership, TTIP) e Trans-Pacífico (Trans-pacific Partnership, (TPP)]. Depois do evento Brexit contudo, implementar a TTIP será empreitada difícil – o que é dizer bem pouco.

Circulou recentemente que Flournoy, lady Pentágono presuntiva, está muito mais disposta “a mandar mais soldados norte-americanos para combate contra o ISIS e o regime de Assad, que o governo Obama está disposto a reconhecer”.

Não, não é bem assim. Ela realmente corresponde ao que diz o artigo, argumentando que é a favor de “aumentar o apoio militar norte-americano aos grupos moderados da oposição síria que combatem contra o ISIS e o regime Assad, como o grupo Frente Sul, sem requerer que as tropas norte-americanos combatam em vez deles.”

Ela também argumenta que os EUA devem “sob determinadas circunstâncias considerar o emprego de coerção militar limitada – ataques iniciais, usando primariamente standoff weapons – para retaliar contra alvos militares sírios.” Assim, acrescenta ela, “NÃO advogo que se ponham tropas de combate norte-americanas em solo para tomar território contra forças de Assad ou remover Assad do poder.”

OK. Nada de mudança de regime, então. Só “coerção militar limitada”. E sem esquecer a criação de uma “zona livre de bombas”, tipo “se você bombardear os caras que nós apoiamos, retaliaremos usando meios standoff para destruir forças [russas] alheias, ou, nesse caso, quadros sírios”. Como se o Exército Árabe Sírio (EAS) – e a Força Aérea Russa – fossem permanecer sentados em roda, jogando pôquer, esperando pelas bombas dos EUA.

Vocês lembrarão que tudo isso é inacreditavelmente igual à própria “política” de Hillary na Síria – que, semanticamente, se reduzia a uma “zona aérea de exclusão”. No contexto do teatro de guerra sírio, “zona aérea de exclusão” significa, realmente, “mudança de regime”. Não há dúvida de que Hillary Clinton leu atentamente o ensaio A Política e a Língua Inglesa, de George Orwell.

Deem duro neles

Assim, se Flournoy é nossa Hárpia n. 2 no mesmo seriado de guerra Síria Remix, ela está obviamente em sintonia com Hárpia n. 1 Hilária. O currículo hárpico de Hillary, embora sumarizado, é bem conhecido de todos: a favor de bombardear até destruir o Iraque; promoção e claque a favor sobretudo da Guerra Global ao Terror (GgaT) [ing. GWOT, Global War on Terror); claque a favor da avançada (“surge“) no Afeganistão; a “zona aérea de exclusão” na Síria e mais, como meios para fazer a mudança de regime; a mais pervertida “contenção” do Irã, mesmo depois de assinado o acordo nuclear em Viena, ano passado; Putin é o novo “Hitler”; e o show continua.

Tudo isso, claro, abrigada em segurança por todas essas nações espertalhonas –a maioria da gangue do petrodólar – e companhias que doaram fortunas para a Fundação Clinton, como prelúdio de saudável aumento nos negócios de armas, enquanto ela lá estava como Madame Secretária de Estado.

E lá estão, Hárpias n.1 e n.2 tomando praticamente o mundo inteiro como “ameaça” (o Pentágono identifica cinco: Rússia, China, Coreia do Norte, Irã e o terrorismo, nessa ordem; as Hárpias devem tem mais algumas a acrescentar). Identificam um núcleo duro de interesses norte-americanos que são ameaçados em tempo integral pelas tais ameaças. São animadoras entusiásticas de torcida a favor do imperialismo humanitário e/ou mudança de regime nua e crua. E querem criar o inferno contra rivais estratégicos China e Rússia.

Não surpreende que o uber neoconservador Robert Kagan adore esse show de ira vingancista, ele e toda uma vasta galáxia neoconservadora/neoliberal espalhada pela Av. Beltway em Washington. Da Líbia à Síria, para “ajudar” a Casa de Saud na destruição que fazem desabar sobre o Iêmen… o que haveria aí de errado?!

O que nos leva até a Hárpia n.3. Ela realmente trabalhou para a n.1 no Departamento de Estado – e deve-se esperar a promoção de todas as palavras mais aterrorizantes da língua inglesa, no caso de a Hárpia n.1 pousar no n. 1600 da Pennsylvania Avenue: a secretária de Estado Victoria Nuland – valorosa baluarte dos neoconservadores –, já imortalizou o “Foda-se a União Europeia”, antes mesmo do Brexit. Ela deve requerer que lhe paguem royalties, e exigir que sejam pagos em dólar, não naquela libra esterlina deprimida.

A dominatrix honorária do Kaganato do Nulandistão, como é bem sabido, já usufruiu de porta giratória de fulgurância estelar: assessora para política externa do vice-presidente Dick Cheney; foi levada para a Obamalândia por seu chefe e protetor na Brookings, Strobe Talbott; foi porta-voz da Hárpia n.1 no Departamento de Estado; e atualmente é Secretária de Estado Assistente para a Europa, encarregada de demonizar tudo que seja ou pareça russo. Encaremos os fatos. Ponham-se as três Hárpias na arena, e elas mandam prá lona e prô inferno (body slam) qualquer daquelas divas da luta livre feminina.

E aqueles 51 doidos por guerras adoram

Sobre Orlando, Hillary Clinton mandou que “foi o mais mortal atentado a tiros contra massas de toda a história dos EUA e nos faz lembrar mais uma vez que armas de guerra não têm lugar em nossas ruas”. Mas, claro, tudo bem se as tais “armas de guerra” forem manejadas ou “aconselhadas” por pessoal norte-americano, para matar civis inocentes em toda a área que o Pentágono chama de MENA (Middle East, Northern Africa) [Oriente Médio, Norte da África].

Pode-se dizer que não resta dúvida alguma de que as Três Hárpias Remixed – Hillary, Flournoy e Nuland – conseguirão a guerra “delas” contra a Síria, seja qual for a semântica Orwelliana que adotem. Afinal, todos aqueles 51 “diplomatas” doidos por guerras já aprovaram. E há muito tempo, WikiLeaks revelou, a Hárpia n.1 já dissera que “o melhor meio para ajudar Israel a enfrentar a crescente capacidade nuclear do Irã é ajudar o povo da Síria a derrubar o regime de Bashar Assad.” Realpolitik pode até ter provado que o Irã, na verdade, teve capacidade nuclear negativa, mas, e daí, ora essa? Que diabo? Mudança de regime aí está, bem viva e chutando.

Outros, como o Dr. Fantástico Stanley-Kubrickiano, quero dizer, o general Breedlove, ex-comandante supremo da OTAN, também já está na luta, na batalha para conseguir um emprego na Defesa, num putativo governo Clinton. Mas, coitado, não é páreo para o dream team das Três Hárpias. É muito mais acolhedor, familiar, coisa de pele, para o Estado Profundo, aplicar a Dominação de Pleno Espectro – aquela doutrina da Liberdade Duradoura para Sempre [ing. for the Deep State to deploy Full Spectrum Dominance – that Enduring Freedom Forever doctrine] – quando conta com elenco só de estrelas. Elas foram, elas viram, elas bombardearão.*****

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Fonte http://russia-insider.com/en/politics/three-harpies-are-back/ri15335

 

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