Amnésia Norte Americana

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Por Mohammed Hadjab*.

Conforme a noticia publicada pela Agência Italiana de Noticia (ANSA) e citada no site www.uol.com.br[1], “A ex-secretária de Estado norte-americano e possível candidata democrata à Presidência, Hillary Clinton, alçou o tom contra o mandatário russo, Vladimir Putin, comparando-o com Adolf Hitler. De acordo com o jornal “The Washington Post”, Hillary afirmou que Putin estaria “agindo como Hitler antes da Segunda Guerra Mundial”, por conceder passaportes russos a centenas de habitantes da Crimeia”.

Ouvir a ex-secretária de Estado norte-americano comparar a ação e o comportamento russo na Ucrânia ao Hitler é o fim da picada. Embora sejam complexas e contestáveis as ações da Rússia na Ucrânia bem como a ingerência europeia nos assuntos do Estado Ucraniano, a comparação feita com o Hitler, símbolo do Mal por excelência que levou ao maior extermínio da humanidade por excelência ou considerado como tal pelos Estados Unidos e boa parte do mundo ocidental, ou seja, o holocausto dos judeus, não deixa de ser uma manipulação cujo objetivo é de utilizar novamente os velhos símbolos de um passado, terrível, horrível por meio da evocação do nome do Líder da Alemanha Nazista cuja loucura conduziu ao extermínio de seis milhões de judeus, 500 000 ciganos com um total de mais de 45 milhões de civis mortos sem contar as perdas militares que levou o numero a quase 80 milhões de vitimas conforme as pesquisa feita pelos historiadores franceses Serge Bernstein e Pierre Milza[2].

O que chamou a minha atenção foi de fato a utilização pela Hillary Clinton de estratégias definidas pelo especialista em Relações Internacionais John George Stoessinger de percepção equivocada do adversário (misperceptions of the adversary) bem como da percepção equivocada das intenções do adversário (misperception of the intentions of the adversary). A primeira percepção consiste em demonizar o alvo, o tornando antipático, cruel tal como o George W. Bush procedeu com o Saddam Hussein, ou com Muammar Abu Minyar Al-Gaddafi na Líbia ou o Bachar el Assad na Síria.  A minha intenção não é me tornar advogado e defensores dos líderes árabes supracitados cuja avaliação gestão e governança têm que ser criticadas, sempre desconfiando das críticas feitas por aqueles mesmos que os levaram em parte ao poder quando eram seus mais fieis aliados. A segunda percepção consiste em falar e distorcer as intenções do adversário ao imaginar o que ele vai fazer se a gente o deixa agir: No caso do Putin, a mensagem subliminal que a Hillary Clinton gostaria de transmitir e que é preciso descodificar é: depois da Ucrânia, será a vez da Polônia e depois da Polônia, a Europa Ocidental. A Polônia já pediu uma reunião da OTAN[3] por ela se sentir ameaçada pela Rússia diante dos eventos ocorrendo na Ucrânia com base no Artigo 4[4] do Tratado no Norte Atlântico que fala “As Partes consultar-se-ão sempre que, na opinião de qualquer delas, estiver ameaçada a integridade territorial, a independência política ou a segurança de uma das Partes”. O plano americano está em andamento…….

Os ucranianos são donos do seu destino bem como os palestinos, os iranianos e os sírios deveriam ser.  Embora fosse importante a intervenção russa na Síria para evitar uma alqaedaização[5] do Bilad Al Sham[6],  o Putin não é um santo como alias nenhuma politica ou políticos. Ele tenta proteger seus interesses bem como os Estados Unidos ao expandir sua zona de influência no Leste Europeu ao nome do Mundo Livre! Foi por meio dessa estratégia que os americanos conduziram uma guerra no Afeganistão com uma forte presença militar, tendo o Afeganistão uma fronteira com o Irã e a China, aliados de Moscou e com o Paquistão, aliado de Washington.

E agora que tal utilizar as estratégias do Stoessinger para tentar descobrir ou interpretar também as intenções da Hillary Clinton e dos Estados Unidos ou evocar o número de vítimas causadas pelas guerras americanas desde a segunda guerra mundial ou de compará-los ao Adolfo Hitler? Em quantas guerras, foi envolvida a Rússia desde 1991 (data da criação da Federação Rússia) e em quantas foram evolvidas os Estados Unidos? Precisaria de um livro para contar e citar as exações e vitimas das duas grandes potencias, porém vale ressaltar que os Estados Unidos ganharam a medalha de ouro dessas olimpíadas macabras.

A crise ucraniana não deixa de ser um gigantesco jogo de xadrez cujo tabuleiro representa o palco de uma luta sem piedade entre os dois principais protagonistas da guerra fria que desenvolvem uma grande variedade de estratégias e táticas para se atingir um objetivo: dar xeque mate no adversário tentando controlar a redistribuição das peças (países) levando se for possível, a maior fatia do bolo tal como isso foi feito durante a conferência de Berlim entre 1884 e 1885.

Mohammed Hadjab é pós-graduando em Relações Internacionais na UNISINOS, Porto Alegre-R-S.

[1] http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2014/03/05/hillary-alca-tom-e-compara-putin-a-hitler.htm

[2] Serge Bernstein et Pierre Milza (dir.), Histoire du XXe siècle, vol. 1 : 1900-1945, la fin du « monde européen », Hatier,‎ 1996

[3] http://www.lemonde.fr/international/article/2014/03/04/ukraine-l-otan-n-envisage-aucune-action-concrete_4377223_3210.html

[4] http://www.nato.int/cps/en/SID-E0ED6AC5-1247C0A6/natolive/official_texts_17120.htm?blnSublanguage=true&selectedLocale=pt&submit.x=7&submit.y=3

[5] Neologismo meu que eu costumo utilizar para me referir aos grupos islâmicos takfiristas introduzidos artificialmente em muitos países onde eles não existiam

[6] Outro nome da Síria

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