A quem interessa a guerra civil síria? Potências internacionais têm interesse em manter o conflito 2

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Publicado por Monitor Mercantil- 29/12/2015 –

Damasco – As galopantes evoluções da guerra civil na Síria envolvem interesses em choque mútuo e oposições que dificilmente poderão ser explicadas e que têm começado a conformar o quadro de algo que poderá ser identificado como um atual 1984.

George Orwell (Eric Arthur Blaire) descreve em sua obra um mundo em situação anômala, onde a propaganda distorce a realidade, transforma o inimigo de ontem em aliado de hoje, objetivando deter o controle absoluto do pensamento dos cidadãos. Duas das três superpotências de 1984 (denominadas por Orwell de Eurásia, Oceania e Eastásia) encontram-se em guerra permanente com a terceira, mas também suas alianças são alteradas frequentemente.

A guerra está sendo travada sempre em longínquas regiões, permitindo que as superpotências não dependam de perdas humanas e materiais dentro de suas próprias fronteiras, enquanto o pensamento dos cidadãos é manipulado por intermédio de incessante propaganda.

A realidade de hoje é diferente da situação anômala de Orwell, mas o conflito aqui, na Síria, tem muitas das características das guerra de 1984. A Oceania e a Eurásia de Orwell lembram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a Rússia, respectivamente, só que, ao invés de três superpotências, existem hoje complicadas alianças de Estados e grupos.

As guerras travam-se, também, hoje em regiões distantes, e a Síria só recentemente, por causa do fluxo dos refugiados e das coberturas dos veículos de comunicação, deixou de constituir um Estado longínquo e isolado que certos europeus e muitos norte-americanos dificilmente poderiam localizar em um mapa.

Ao contrário do que ocorria na situação anômala orweliana, as superpotências de hoje sofrem as consequências da guerra dentro de suas próprias fronteiras, por causa do terrorismo. A propaganda do Big Brother de Orwell era partidária, enquanto a correspondente dos veículos de comunicação de hoje expressa os interesses das oligarquias políticas e econômicas, as quais, por causa da globalização, constituem uma desordem que não pode ser circunscrita por fronteiras.

Contudo, a apresentação – por opção – dos fatos e acontecimentos por muitos veículos de comunicação dos Estados envolvidos tem alvos bastante comuns com a propaganda de 1984, considerando que seu objetivo é manipulação da opinião pública.

Conflito mundial

A guerra na Síria evolui velozmente em um conflito mundial de interesses geopolíticos e econômicos. Pela primeira vez após 1945, envolvem-se em uma guerra tantas coalizões de estados e grupos. Contra o regime do presidente da Síria, Bashar Al-Assad, posicionam-se EUA, França, Alemanha e Grã-Bretanha.

Já Turquia, Arábia Saudita, Jordânia, Catar, Al Nusra (filial da Al Qaeda) e o Estado Islâmico combatem as forças de Bashar Al-Assad “por procuração” de vários Estados do Ocidente que preferem manter-se anônimos. Mas um relatório secreto do Comando Militar da Organização das Nações Unidas (ONU) na região, endereçado ao Conselho de Segurança da ONU, não deixa dúvidas quanto ao apoio de Israel ao Estado Islâmico.

Por outro lado, a favor do regime do presidente, Bashar Al-Assad atuam ostensivamente Rússia, Irã e o Hezbollah, assim como várias outras fracções, como o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e o Al Quds. Os curdos da Síria combatem contra o Estado Islâmico e também contra as forças do presidente sírio. As interligações das forças envolvidas são astutamente complicadas e, em algumas vezes, suas alianças são efêmeras, enquanto sua divisão em pro-xiitas e pro-sunitas não reflete, em absoluto, todas as suas correlações de forças.

Pela primeira vez após a recomposição das forças mundiais que resultou a derrocada da União Soviética (URSS) em 1989 e a dissolução do Pacto de Varsóvia, o vacilante equilíbrio internacional está sendo ameaçado pela constante ampliação do conflito na Síria, que veio a se somar à instabilidade da economia internacional. Mas por que a situação chegou até aqui, e a que interesses atende a guerra na Síria?

Hipocrisia

A situação atual agrava-se pelos EUA e outras potências internacionais que fingem não ver, apesar de seus fracassos no Afeganistão, Iraque e Líbia, por culpa das quais foram criados regimes de plena ilegalidade e instabilidade, fortalecendo os movimentos dos jihadistas que arrasam não só estes três países, mas, também, muitos vizinhos, que contribuíram ao surgimento do Estado Islâmico.

As forças ocidentais envolvidas têm interesses econômicos e geopolíticos, os quais buscam com métodos totalmente contraditórios: Discursam contra o terrorismo, mas permitem ao Estado Islâmico contrabandear petróleo e financiar suas operações militares e terroristas.

Proclamam que atingirão mortalmente o Estado Islâmico com bombas de precisão, enquanto seus próprios generais destacam que “os bombardeios não terão resultados consideráveis sem a participação de forças terrestres, algo que já se tornou totalmente claro após as incursões aéreas realizadas na Líbia.

Reduzem – de propósito – o número das vítimas colaterais pelo bombardeios aéreos. O mais recente exemplo forneceu o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, ao discursar perante o plenário da Câmara dos Comuns, quando afirmou, sem ficar vermelho, que “não existem relatórios de vítimas colaterais no Iraque” durante o período 2014-2015, quando a Real Força Aérea britânica (RAF) bombardeava o país.

Trata-se de uma declaração totalmente hipócrita: Não existem relatórios oficiais, assim como observadores internacionais não se atrevem a entrar em territórios ocupados pelo Estado Islâmico, mas seguramente isto não significa que não existam vítimas colaterais.

Mantêm-se indiferentes quanto ao desigual tratamento dispensado às minorias dentro de suas fronteiras e ao empobrecimento das populações que sobrevivem nos países que estão bombardeando, conjunturas que criam centenas de voluntários que fortalecem as forças terroristas. Sabe-se que o fanatismo alimenta-se pela opressão, mas os opressores sempre odeiam reconhecê-lo.

Todos querem guerra

A única conclusão possível é que tanto os EUA, quanto as demais forças internacionais não pretendem enfrentar eficazmente o problema do terrorismo ou darem um ponto final aos entreveros na Síria e em qualquer outro lugar do mundo. O medo do terrorismo e da instabilidade geopolítica é resultado da presença do Estado Islâmico e a eternização dos choques – ao que tudo indica – interessa a qualquer uma superpotência que busca mostrar seu “punho militar”, expansão de seus interesses econômicos e amedrontamento de seus adversários.

Os conflitos na Síria e em vários outros lugares do mundo assemelham-se, cada vez mais, com a situação anômala visualizada por Orwell, na qual o alvo das guerras entre as superpotências não era a vitória, mas a eternização da situação de guerra a fim de manterem seus cidadãos sob controle.

Talvez isto era o que insinuava, realmente, o presidente dos EUA, Barack Obama, em setembro do ano passado, quando declarou “guerra à guerra” (“war on war”) em seu discurso no plenário da ONU e quando advertia que “a guerra no Grande Oriente Médio será de longa duração”. Recentemente, foi imitado pelo presidente da França, François Hollande, que em seu discurso perante o plenário da Assembleia Nacional não hesitou em declarar que “a França está em guerra”.

Imbróglio curdo transfere guerra civil à Turquia

Istambul – Tríduo de luto nacional declarou o governo da Turquia para as vítimas do duplo atentado a bomba no sábado retrasado, de manhã cedo, na estação ferroviária central de Ancara, durante a manifestação de organizações políticas e sociais progressistas sobre o problema curdo. Até o presente momento, pelo menos 95 pessoas perderam a vida, enquanto outras 48 estão hospitalizadas em estado grave nas unidades de terapia intensiva de vários hospitais da capital turca.

A gêmea explosão da bomba atingiu a concentração do filocurdo Partido Democrata dos Povos (HDP), de esquerda, pouco antes de ser iniciada a Marcha da Paz, promovida por organizações sindicais e organizações não governamentais, assim como por partidos progressistas. Os organizadores denunciaram os constantes choques sangrentos entre unidades do exército turco e a Organização Separatista dos Curdos (PKK) que exigia o imediato retorno em vigor do armistício que desabou no final de julho deste ano.

Nenhuma organização, terrorista ou não não, assumiu até agora a responsabilidade pela autoria do atentado, enquanto o primeiro-ministro Ahmét Davútoglu declarou que existem fortes indícios de atentados suicidas e direcionou suas suspeitas a quatro – muito diferentes entre si – organizações: os jihadistas do Estado Islâmico, o PKK curdo e as organizações esquerdistas Frente Popular da Turquia (DHKP-C) e Partido Comunista Marxista Leninista (MLKP).

Ao contrário, o líder do Partido Paz e Democracia para os Povos (HPP), Selahattín Demirtás, acusou o “Estado náfia”, remetendo a autoria aos vários serviços secretos turcos e mecanismos nacionalistas paramilitares. A pergunta é: quem teria interesse neste massacre que está dinamitando a já explosiva atmosfera política da Turquia? A resposta não é fácil, e os antecedentes recentes permitem interpretações muito diferentes.

Ação do governo

Na primeira semana de junho deste ano, dois dias antes da realização das eleições parlamentares, um atentado suicida – cuja autoria foi atribuída ao Estado Islâmico – tingiu de sangue a concentração pré-eleitoral do HDP, realizada em Diyarbaquir, a maior cidade curda do sudeste da Turquia, tendo como resultado a morte de cinco pessoas.

O sangrento episódio provocou violenta onda de ira na população curda da cidade contra o primeiro-ministro Ahmet Davútoglu e contra o presidente da Turquia, Retzep Tayyip Erdogan, os quais estão sendo acusados de apoiarem ostensivamente o Estado Islâmico e outros grupos jihadistas, como a Frente Al Nursa na guerra civil síria, em detrimento dos curdos.

Resultados opostos registrou o atentado a bomba contra uma concentração de curdos na cidade de Souroúts, perto da fronteira com a Síria, bem em frente à cidade de Cobani. Foi um atentado cuja autoria foi atribuída ao Estado Islâmico que custou a vida de 33 pessoas. Esta matança foi muito bem explorada pela dupla dos Erdogán-Davútoglu e serviu-lhes de pretexto para lançarem uma campanha militar de proporções na região norte da Síria, na região norte do Iraque, assim como nas regiões sudeste da própria Turquia.

Trata-se de uma campanha contra duas frentes, tanto contra o Estado Islâmico, quanto contra o PKK curdo, mas, na prática, concentrada contra os “apóstatas” curdos. Além disso, a escalada da guerra contra o PKK atendeu, também, ao esforço do AKP para garantir o próprio poder nas eleições passadas, quando desempenhou o falso papel nacionalista em detrimento dos curdos.

Estado curdo

É cedo, ainda, para prejulgar quem será o beneficiado final pelo ataque em Ancara – o mais mortífero atentado terrorista na história moderna da Turquia – mas não se pode esquecer que foi cometido no dia em que o PKK pretendia anunciar um cessar-fogo unilateral, destinado a colaborar com os esforços político-partidários do HDP e desescalar as tensões em torno da “Questão Curda”.

Em todo caso, tornou-se claro o fato de a Turquia estar pagando o preço da megalômana “neootomana” política externa de Erdogán-Davútoglu e de seu envolvimento na guerra civil síria ao lado da Irmandade Muçulmana a partir do primeiro instante de eclosão da crise síria em 2011.

Em vez de derrubar rapidamente Bashar Al-Assad e ascender a Turquia a potência hegemônica no mundo muçulmano sunita, como calculavam Erdogán-Davútoglu, aconteceu algo muito diferente. Assad provou que é muito mais resistente, e o prolongamento da guerra civil tende resultar a criação de um – “de fato” – Estado curdo na região norte da Síria, bem em frente à fronteira turca.

Em vez de a Turquia conformar uma zona de exceção aérea, proibindo os voos sobre a região norte da Síria, este espaço aéreo está sendo controlado agora pela Rússia, cujos caças-bombardeiros violam o espaço aéreo turco e envolvem-se em constantes batalhas aéreas com caças turcos, dentro do território turco.

Ainda, pior, a guerra civil síria transfere-se agora ao interior da nação turca, como mostra a simultânea radicalização dos curdos, assim como de parcela dos islamitas, cuja maioria é atraída pelo Estado Islâmico.

Simultaneamente, a economia turca está desabando cada vez mais, enquanto os refugiados de vizinha Síria dentro da Turquia já somam os 2 milhões. Tudo isso sinaliza a chegada de uma grande instabilidade política na Turquia, algo que tensionará a já explosiva instabilidade geopolítica na região.

Georges Pezmatzóglu

Correspondente

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2 thoughts on “A quem interessa a guerra civil síria? Potências internacionais têm interesse em manter o conflito

  1. Responder Carlos Medeiros dez 30,2015 11:09

    EUA, ISRAEL, TURQUIA, ARÁBIA SAUDITA esse países precisam colocar no poder alguém que eles possam manipular. Cada País envolvido, interesses distintos, como gaz, petróleo, terras, relíquias…enfim, despojos diversos.

  2. Responder Fuad Achcar jan 3,2016 2:38

    Na Síria não tem guerra civil e, sim, uma terrível invasão por centenas de milhares de terroristad/mercenários de dezenas de países. Não são sírios contra sírios.

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