A Lógica do Ataque Israelense à Síria

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Bombardeio
Qual seria a lógica de Israel defender o fundamentalismo islâmico? Não seria mais sensato, para Israel e para os EUA, lidarem com um Oriente Médio laico, onde as leis civis e religiosas fossem separadas? O laicismo não é a base da democracia?
Por Babel Hajjar

Na noite de 5ª feira para 6ª feira última (3-4 de maio de 2013), o monte Qassion (Jabal Qassion), que circunda a cidade de Damasco, altamente povoado e onde operaria um conjunto científico-militar, foi duramente atacado pela aviação israelense. Novamente, declarações dos EUA falam em ataque preventivo a carregamento de armas ao Hezbolah, grupo da resistência armada no Líbano. Jabal Qassion é muito mais próximo do centro de Damasco que o pico do Jaraguá é da praça da Sé. O ataque foi estrondoso, com direito à formação de cogumelo e fumaça que pairaram no ar, e durou cerca de uma hora. Fala-se em uso de arma semi-nuclear, tipo armamento Nano Nuclear, ou de ogivas “fura-bunker”, a mesma usada pelos EUA para cavar as montanhas do Afeganistão em busca de Osama Bin Laden. Pelos relatos e vídeo, a noite virou dia. Foi um ataque físico, mas também foi um ataque moral e midiático.

Aqueles que, como este veículo, creem que a Síria, povo e governo, vêm combatendo uma invasão estrangeira, fortemente armada, de seu território, e não uma rebelião primaveril de jovens em busca de mudanças, têm agora mais uma prova concreta: Israel entra em cena, em meio à derrota de seus aliados, a socorre-los, em campo de batalha. E tais aliados, como já dissemos por aqui, são exércitos mercenários compostos de Salafistas-Wahabistas, da Arábia Saudita, penetrando pela fronteira da Jordânia, com o apoio desta; pela fronteira do Líbano, em pontos mais abertos desta; e do Catar, penetrando pelo norte, pela fronteira turca, com o total apoio destes. Tais mercenários contaram, durante os dois anos de guerra civil, com o apoio da Liga Árabe; com o apoio dos EUA, França e Inglaterra; Israel, até final de janeiro, vinha aumentando o tom de sua retórica, e apoiandos os terroristas nas colinas do Golan, mas em 30 de janeiro, fizeram um ataque à Síria, e agora o faz de novo, desta vez auxiliando diretamente as milícias terroristas da Jabat El Nusra, que comemoraram o ataque, como mostram vídeos da internet. Aliás, o vídeo da explosão, filmado por um desses terroristas, mostra que a pessoa já sabia para onde apontar a camera: http://www.youtube.com/watch?v=e84pVGsP6YU.

Sabemos, então, que Israel está do lado dos terroristas na Síria, e que os terroristas Sírios estão do lado de Israel. Sabemos também que Jordânia, Turquia, Arábia Saudita, Catar, estão do mesmo lado que EUA e Israel.

Todos os países árabes listados acima têm maioria de islâmicos sunitas, de linhas muitas vezes diferentes, mas que têm um ponto em comum, que é o radicalismo religioso. E a Turquia, que não é árabe, também é de maioria sunita, e tem uma parcela de radicais em sua população. O Oriente Midia, como deixamos claro no site e nos perfis de redes sociais, é um movimento laico, plural, multirreligioso, que não vê problema em uma pessoa ou grupo professarem ou seguirem esta ou aquela religião. A maioria dos sunitas sírios vivem bem com outras religiões, com o governo, alguns inclusive fazem parte dele. O problema é, como sempre, o destempero, o radicalismo, o fanatismo religioso, e a forma como os países listados acima conduziram seu povo e sua crença no islã, com os líderes religiosos das “Madrassis” (escolas onde todo o ensinamento é feito, religioso ou não), que definem a vida dos seus fiéis, que por sua vez seguem o que o Imã diz como obediência cega. Se o líder religioso diz que “combater a Síria e Bashar é a nova Jihad do bom muçulmano”, e que não há problemas em esses combatentes divinos partilharem os espólios (incluindo mulheres) e matarem todos os “infiéis”, isso é um problema sério, porque os fiéis, na maioria dos casos, assim o farão. E, aliado a esse problema, existe o fato de que estamos falando de monarquias riquíssimas, que possuem uma pobreza enorme por trás da fachada de primeiro mundo que exibem aos ocidentais que viajam em busca de aventuras e compras. Isso transforma o que era um problema sério em uma nova cruzada islâmica. E é contra isso, contra esse tipo de crença, trazida por pessoas que não têm nada a perder, que a Síria está em luta.

Mas qual seria a lógica de Israel defender o fundamentalismo islâmico? Não seria mais sensato, para Israel e para os EUA, lidarem com um Oriente Médio laico, onde as leis civis e religiosas fossem separadas? O laicismo não é a base da democracia?
Não, Israel não quer o laicismo árabe. Simplesmente porque todo o modo de vida que construiu depende do medo, e o medo se justifica pela presença de inimigos, assim como o orçamento militar de Israel e o lobby Sionista no congresso americano para a definição do orçamento militar dos EUA; E porque as divisões político-religiosas do Oriente Médio já se mostraram a forma mais eficaz de manutenção da hegemonia na região por parte de Israel, EUA e Europa.
Tomemos como exemplo a Palestina: Desde a década de 1980, e depois, durante os tratados de Oslo na década de 90, ouvimos os rumores de que a ANP, e primeiramente a antiga OLP de Yasser Arafat, havia sido corrompida por Israel, e que a abertura para a paz era uma desistência em relação aos princípios da OLP. As falhas da OLP e da ANP criaram um vácuo de poder nos Territórios Ocupados, e possibilitou o crescimento do Hamas, grupo islâmico sunita que, financiado originalmente pelas monarquias do golfo, obteve ainda, em seu início, apoio declarado de Israel:

“Com a OLP confinada em Túnis, depois de setembro de 1982, e sem o apoio da burocracia soviética e dos estados burgueses árabes, Arafat desempenhava cada vez menos um papel na direção da luta continuada das massas nos Territórios Ocupados e, no imaginário popular, chegou a ser identificado com passividade e corrupção. Ele tinha tudo mas renunciou à luta armada em favor de manobras diplomáticas em condições que deixavam os palestinos fora das telas do radar dos regimes árabes. (…)A OLP estava cada vez mais dividida em conflitos mortais que aconteciam abertamente nas ruas de Londres e Paris.
Mais uma vez, a Fraternidade [Muçulmana] foi capaz de preencher o vácuo político deixado pela crise do nacionalismo secular. Para esta tarefa, ela contou com o apoio financeiro da burguesia árabe que via a questão palestina como uma fonte perigosa de sentimento radical anti-imperialista e uma ameaça aos seus próprios privilégios. Todos buscavam desenvolver a Fraternidade como um alternativa à OLP e como um meio de dividir a classe trabalhadora palestina.
Incentivados pela Jordânia, os Irmão de Gaza se juntaram aos Irmãos da Cisjordânia e Jordânia para se tornarem parte da Fraternidade Muçulmana da Jordânia. A Fraternidade usou o dinheiro que vinha da Arábia Saudita e da monarquia jordaniana para construir sua rede de mesquitas, organizações culturais e serviços sociais que deveriam fornecer as condições para os palestinos empobrecidos.
(…)O objetivo primeiro da Fraternidade era “criar a Personalidade Islâmica”. Apesar de clamar pela destruição do estado de Israel quando fosse chegada a hora, ela se absteve de todas as formas de atividade anti-ocupação, preferindo a luta cultural contra o compromisso “ateu” da OLP com o nacionalismo secular.
Sheikh Yasin jamais escondeu sua antipatia por Yasser Arafat. “Comedores de porco e bebedores de vinho”, era a denúncia que fazia contra a liderança da OLP. Ele foi ainda mais hostil em relação ao comunismo e às facções nacionalistas de esquerda, como a Frente Popular de Libertação da Palestina e a Frente Democrática de Libertação da Palestina.
Por esta razão, os Irmãos receberam um apoio adicional e inesperado: Israel. O estado sionista e suas forças de segurança incentivaram ativamente a Fraternidade como uma alternativa à OLP. (Fonte: Jean Sahoul – publicado no World Socialist Web Site 2a. parte – 06/07/02)”

 

Fica clara a manipulação de um movimento palestino laico, para uma divisão entre a Fraternidade Muçulmana e a laica ANP, conforme o texto acima. A derrota do laicismo palestino é a derrota do movimento palestino como um todo, pois a unidade da causa principal, que são os direitos do povo palestino, se fragmenta na visão religiosa. Na Síria, o movimento em curso é o mesmo.
Diferentemente de como é comentado na mídia, Bashar Al Assad está no poder desde 2000. Ele assumiu quando seu pai, Hafez, morreu. Não era o filho de Hafez preparado para assumir, não foi um militar de carreira como seus irmãos. Ao invés disso, foi estudar oftalmologia em Londres. A morte do irmão Basil em um acidente de carro o fez mudar de planos. Bashar assumiu prometendo mudanças. Não fez tudo o que prometeu, mas seu governo tem em seu quadro representantes de todo o espectro político-religioso Sírio, incluindo sunitas, cristãos, xiitas, drusos, alauitas e vários partidos de oposição, cuja existência na Síria havia sido proibida por seu pai e governos anteriores. Bashar é um presidente que já vinha organizando a abertura política síria, com reconhecimento de grande parte de sua oposição, antes da propalada primavera síria. Hafez governou por 30 anos com mão de ferro, e não permitiu nenhum partido além do Baath no governo sírio. Não desagradou EUA e Israel a ponto de ser atacado, salvo a perda das Colinas do Golã em 1967. Mas a exposição síria mídia até 2011, do próprio Bashar, de sua esposa, do turismo sírio como alternativa aos roteiros tradicionais, parecia que a Síria novamente se inseria no cenário mundial. Durou pouco, assim como durou pouco a alegria do Líbano em 2006, quando finalmente a cidade estava reconstruída da destruição de sua guerra civil. Não é novo isso no Oriente Médio, nem todos os países podem ser vistos como humanos pelo ocidente. Quando a Síria começa a respirar ares mais democráticos, recebe de presente uma revolução Salafista, cujo objetivo é implementar um governo islâmico. Israel, ao atacar a Síria e apoiar os terroristas, chamados de “rebeldes” pela imprensa-empresa mundial, não está combatendo o terrorismo, islamismo radical, que no imaginário ocidental, é a causa de todo o mal, de todo o “não-ocidentalismo” dos árabes; ao invés disso, Israel está atacando o laicismo, está defendendo o fanatismo, e a implementação de um estado de exceção, disfarçado de monarquia ou outro regime, onde um grupo pequeno receberá o poder e controlará a massa.
Parece realmente não interessar a Israel, EUA e aliados das monarquias do golfo que existam no Oriente Médio nações laicas e soberanas com uma história milenar e que possam demostrar ao Estado Sionista de Israel que a multiplicidade e a pluralidade religiosa podem e devem conviver em harmonia e gerar progresso: Isto desafia o projeto israelense e assim deve ser e destruído e subjugado o Estado Iraquiano, deve ser destruída a Síria Milenar e Histórica, e deverá ser aniquilado o Irã. Quando Israel conseguir calar a Síria, a verdadeira Síria, ai sim, podemos dar adeus à causa laica, Palestina, Libanesa, Iraquiana ou Egípcia, no Oriente Médio.
Um alerta, porém, deve ser dado: a combinação de exércitos islâmicos fundamentalistas e uma massa majoritária de pobreza, pode tanto produzir um novo império islâmico quanto novas chacinas e diásporas, como as dos povos armênios, assírios e caldeus, e do próprio povo sírio, entre final do século XIX e início do século XX. Fundamentalismo Religioso e Pobreza são ingredientes que fogem ao controle, e sua combinação é explosiva. E essa explosão será a hubris ocidental.

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