4ª Copa de Refugiados no Brasil: o que rolou no Estádio do Pacaembu

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Na última década o número de refugiados dobrou. Só em 2016 foram registrados pela UNHCR 63,9 milhões de refugiados.

Não são poucas as reportagens que vemos por aí sobre esse tema.

Samara Sayegh

Hoje, alguns dos países que estão em guerras ou conflitos internos são Palestina, República Centro-Africana, Sudão do Sul, Sudão, Afeganistão, Síria, Guiné-Bissau, Chade, Somália e Guiné Equatorial.

Não por acaso, a maior parte dos refugiados hoje no mundo é proveniente desses lugares.

Em outras palavras, essas pessoas enfrentam uma situação tão degradante em sua terra natal que não veem outra alternativa a não ser partir — em meio ao desconhecido — para um outro país e deixar suas casas, em busca de segurança. Deixam seu país de origem por diversos motivos, dentre eles perseguições relacionadas à raça, religião, nacionalidade, opinião política ou pertencimento a grupos sociais.

O Brasil tem empenhado um papel muito importante no que diz respeito ao acolhimento de refugiados. Foram estabelecidos em 1951 e 1967, respectivamente, a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados e a Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados aqui no país.

Ambos dão o direito ao refugiado de se estabelecer no país como estrangeiro, ou também de obter uma cédula de identidade que comprove sua situação jurídica, tornando possível obter carteira de trabalho e documentos de viagem.

A cidade de São Paulo abrigou durante o mês de setembro a 4ª Copa dos Refugiados, uma iniciativa realizada pela organização não governamental África do Coração, em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR)Caritas Arquidiocesana de São PauloSESC-SP e empresas Netshoes Sodexo.

O evento, com entrada gratuita, teve o apoio das secretarias municipais de Esportes e Lazer, dos Direitos Humanos e das Relações Internacionais da Prefeitura de São Paulo.

Participaram da 4ª Copa as equipes dos países Angola, Benin, Camarões, Colômbia, Gâmbia, Gana, Guiné Bissau, Guine Conacri, Iraque, Mali, Marrocos, Nigéria, República Democrática do Congo, Síria, Tanzânia e Togo.

A final, que aconteceu no domingo passado (24/09) no Estádio do Pacaembu, foi entre Marrocos e Nigéria. A Nigéria saiu vencedora, por 09 a 04.

Dando uma passada por lá, conheci o Mahamadou Drame, técnico da equipe do Mali. Ele estava assistindo à final pelas arquibancadas mesmo, já que o Mali acabou sendo desclassificado nas semifinais da Copa. Mas, me garantiu que ano que vem fará o time chegar à final. Estou na torcida.

O Mahamadou saiu do Mali por causa da crise interna vivida pelo país desde março de 2012, que levou à separação do país entre o Norte e o Sul por meio de um golpe militar. O Norte foi tomado por dois principais grupos: o MNLA, que luta pela libertação da região de Azawad e o grupo Ansar Dine, que afirma lutar pela integridade do país. O Sul continua sob domínio do governo democraticamente eleito. Mais detalhes aqui.

Ele comentou que tem ajudado a família, enviando dinheiro a eles sempre que pode, e que sempre que sai do Brasil para visita-los já fica morrendo de saudades do país que o acolheu. Falou que gosta muito daqui, e que quer continuar vivendo no Brasil durante muitos anos. Ele conseguiu documentos aqui no país, e está trabalhando no Mercado Municipal.

“Tem que sair para procurar um país melhor. Eu escolhi o Brasil na verdade. O Brasil está sempre na televisão e no jornalismo, é um país legal. É aberto, não tem problema de nada aqui, por isso eu escolhi o Brasil”

Segue abaixo mais um pouco do que ele me contou:

https://www.youtube.com/watch?v=YhpJjAiq0lo

Falei também com a Anais Gonzalez, venezuelana que mora aqui no Brasil e estava assistindo à Copa para dar apoio aos refugiados e por simpatizar com a causa. Ela participa do Coletivo Visto Permanente (acervo das novas culturas imigrantes). O Coletivo é realizado pelo coletivo VIRAMUNDO, um grupo de jovens brasileiros e imigrantes que querem dar visibilidade para o patrimônio urbano das culturas imigrantes, mostrando que esse patrimônio é também paulistano. “[A Copa] É Um espaço muito bom para agregar várias nacionalidades”, afirma.

Ela acredita que o Brasil deve sim acolher os refugiados:

“Com certeza, não somente refugiados mas qualquer pessoa imigrante em geral, inclusive migrantes. Existe muito preconceito com relação ao que significa ser refugiado, e pouco conhecimento com relação à causa. Felizmente o Brasil é um país que tem políticas bem abertas com relação a isso”.

O Rafael também estava por lá, e comentou que foi assistir à copa por ser apaixonado por futebol e por se identificar com a causa dos refugiados:

“Acho especialmente que no momento esse debate está muito acirrado e muito intenso. Nós temos visto muitas manifestações contra e também muitas a favor da causa, então acho que é muito importante a gente estar presente em eventos como esse para salientar esse posicionamento a favor, e mostrar que os refugiados são bem-vindos”

As torcidas no Estádio do Pacaembu comemoravam cada passe.

Torcida no Estádio / Foto: Denise Sanchez

“Sou a favor de que sejam dadas todas as condições para que essas pessoas se inserirem na sociedade, não as tratar como coitadas, como um ‘outro’, mas entender de que forma podemos integrá-los, para serem parte da sociedade” — Afirma Rafael.

Muitos voluntários trabalharam na organização do evento. Encontrei a Monique Mota, de apenas de 19 anos, voluntária pela ONG África do Coração, e que estava controlando as entradas e saídas do evento.

Ela me contou um pouco sobre por que decidiu se voluntariar para um evento como esse:

“Eu acho que o Brasil está acolhendo [os refugiados] mas ainda falta muito mais. Precisa de muito mais ajuda, as pessoas precisam ter um pouco mais de empatia pela situação deles e eu acho que a gente está evoluindo, mas ainda falta muito mais para que eles possam se sentir bem-vindos”

Com certeza a realização da Copa dos Refugiados é um grande marco e um grande passo para a integração dos refugiados na nossa sociedade, além de ser uma ferramenta para darmos cada vez mais visibilidade a essa causa. Ainda temos muito a conhecer sobre a história dessas pessoas, entender os motivos que as trouxeram até aqui.

O Brasil é um país que tem adotado uma política aberta e receptiva aos refugiados. Por sermos historicamente fruto da miscigenação, não deixa de estar em nossas raízes a mistura de diversas culturas e nacionalidades. E que continue assim…


Quer saber mais a respeito do assunto? Seguem algumas sugestões de leitura e fontes para esta reportagem:

Coletivo Visto Permanente

Lei nº 9.474 — Site do Palácio do Planalto

10 refugiados célebres que revolucionaram a História — History Channel

Crítica de Guterres (secretário Geral da ONU) à postura de hostilidade contra os refugiados — Exame

Global Peace Index — Institute for Economics and Peace

Political Risk Map — Consultoria Marsh

Agradecimento especial à Carolina Segretti e Denise Sanchez, pelo apoio e suporte a esta reportagem

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