Por Tania Abdallah e Walid Rasselen A. Malek
Representantes do Coletivo de Educação na Cultura de Resistência pela Palestina
Introdução
Durante o genocídio em Gaza, a partir de 7 de outubro de 2023, acompanhei diariamente, por horas, transmissões ao vivo. Muitas e muitas vezes ouvi relatos de pessoas e de jornalistas afirmando que corpos haviam sido “pulverizados” ou “evaporados”. Ainda que a Defesa Civil de Gaza também utilizasse esses termos, durante muito tempo me recusei a escrever sobre isso. Faltavam-me dados técnicos que sustentassem tais descrições.
Hoje, 10 de fevereiro de 2026, a Al Jazeera publicou uma reportagem investigativa sobre o tema, ouvindo a Defesa Civil e o Diretor-Geral do Ministério da Saúde em Gaza. A partir dessa reportagem, de estudos técnicos sobre esse tipo de armamento, do meu próprio testemunho visual de uma dessas explosões e de relatos diretos de palestinos em Gaza, decidi escrever este artigo.
O que são bombas termobáricas?
Bombas termobáricas também são conhecidas como bombas de vácuo, bombas de aerossol ou bombas de combustível-ar.
Elas utilizam tritonal, que é uma mistura de trinitrotolueno (TNT) com pó de alumínio, magnésio ou titânio, metais que prolongam o tempo de combustão e elevam drasticamente a temperatura da explosão. Esses metais potencializam a explosão, aumentando calor, energia e duração do efeito.
Essas bombas dispersam uma nuvem de combustível na forma de aerossois, que entram em combustão utilizando o oxigênio do ar ambiente. A combustão é extremamente rápida e intensa, consumindo grande parte do oxigênio presente naquela nuvem. Diferentemente das explosões convencionais, que são breves, as bombas termobáricas produzem uma onda de pressão prolongada e temperaturas extremamente elevadas, que podem atingir até 3.500 graus centígrados.
Colapso do ar depois da explosão
O funcionamento dessas bombas ocorre em duas fases distintas:
Fase Positiva: inicialmente há uma onda de sobre pressão que empurra tudo violentamente para fora.
Fase Negativa: Como grande parte do oxigênio é consumido naquela nuvem e os gases extremamente quentes se expandem e sobem, forma-se uma região de baixa de pressão. O ar ao redor é então puxado de volta com violência, gerando uma sucção intensa para dentro, conhecida como subpressão, popularmente descrita como “vácuo”.
Essa segunda fase é particularmente devastadora, sobretudo em ambientes fechados ou densamente construídos.
Efeito no corpo humano
A onda de pressão gerada por essas explosões rompe órgãos internos, especialmente os pulmões, enquanto a onda térmica incinera os corpos. Isso explica os inúmeros relatos de palestinos afirmando que corpos “evaporavam”, não deixando vestígios além de respingos de sangue e pequenos fragmentos, como couro cabeludo.
Como relatado na reportagem da Al Jazeera, o corpo humano é composto por cerca de 80% de água, que evapora a 100 graus centígrados. Quando um corpo é exposto a temperaturas da ordem de 3.500 graus centígrados, combinadas com pressão extrema e oxigenação massiva, os fluidos corporais entram em ebulição instantânea, os tecidos vaporizam e se transformam em cinzas.
Bombas usadas em Gaza associadas a esses desaparecimentos
Diversos armamentos utilizados por Israel em Gaza estão associados a esse padrão de destruição e desaparecimento de corpos.
MK-84
Bomba norte-americana não guiada, com peso aproximado de 900 kg (2.000 lb). Utiliza tritonal como explosivo e pode gerar temperaturas em torno de 3.500 graus centígrados.
GBU-39
Bomba planadora de precisão, projetada para manter a estrutura externa dos prédios relativamente intacta, enquanto destrói tudo em seu interior. Mata principalmente por meio da onda de choque, que rompe tecidos internos, e da onda térmica, que incinera tecidos moles. Segundo a Al Jazeera, foi utilizada no ataque à Escola Al-Tabieen, cidade de Gaza.
Bomba antibunker BLU-109
A BLU-109 é uma bomba antibunker de fabricação norte-americana, com cerca de 900 kg (2.000 lb), projetada para penetrar estruturas fortificadas antes de explodir. Possui um invólucro de aço extremamente espesso, capaz de atravessar concreto armado e abrigos subterrâneos. Após a penetração, sua carga explosiva à base de tritonal detona no interior da estrutura, gerando uma onda de choque intensa e calor extremo. Em ambientes confinados, seus efeitos se amplificam, causando colapso estrutural, ruptura de órgãos internos e incineração de corpos, sem necessariamente provocar destruição proporcional visível na superfície externa.
Segundo relatos, foi utilizada em Al-Mawasi em setembro de 2024, onde 22 pessoas evaporaram.
Considerações finais
Os relatos de corpos “evaporados”, repetidos por civis, jornalistas e equipes de resgate, deixam de ser metáforas quando confrontados com os efeitos físicos de bombas termobáricas. Neste contexto, o desaparecimento de corpos não é ausência de evidência, mas consequência direta do tipo de armamento empregado.
Em áreas densamente povoadas, o uso de armamentos com efeitos térmicos e de pressão prolongados levanta questões graves à luz do direito internacional humanitário, especialmente no que se refere aos princípios da distinção e da proporcionalidade. A documentação desses efeitos é parte essencial para qualquer avaliação futura dos crimes de guerra cometidos por Israel em Gaza.
Referências bibliográficas
- Al Jazeera. Investigative report on the use of thermobaric weapons and unexplained disappearances of bodies in Gaza. Entrevistas com a Defesa Civil de Gaza e o Diretor-Geral do Ministério da Saúde em Gaza. Fevereiro de 2026.
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