Os sauditas dizem que o Irã apoia(ria) os houthis no Iêmen, mesmo que disso não haja nem fiapo de indício. Nunca se encontrou nenhum iraniano no Iêmen, nem armas iranianas. Os houthis contra os quais os sauditas estão em guerra no Iêmen não são xiitas como os iranianos; estão mais próximos do Islã Sunita, que dos xiitas dozistas iranianos. Não há qualquer prova de que os houthis receberam qualquer ajuda do Irã, e as histórias de que o Irã teria embarcado carregamentos de armas para o Iêmen já foram desmascaradas e já se sabe que eram falsas.
Agora, é provável que tudo isso mude.
Depois da execução de al-Nimr, alguns iranianos linha dura organizaram um grupo que invadiu e saqueou a embaixada saudita em Teerã. Foi ataque contra o que eles veem como políticas de ‘afrouxamento’ do presidente Rouhani do Irã. Foi estupidez do governo Rouhani não ter previsto esse movimento. A segurança da embaixada teria de ter sido reforçada. O governo Rouhani está fazendo de tudo, sem parar, para desculpar-se pelo incidente, mas até agora sem qualquer resultado positivo.
Os sauditas cortaram relações diplomáticas com o Irã e pressionaram Bahrain e Sudão a fazer o mesmo. Os governantes do Bahrain carecem da proteção dos sauditas, e o Sudão, do dinheiro deles. Os Emirados Árabes Unidos só rebaixaram a presença diplomática em Teerã, de embaixador para chargé d’affaires. Interessante é que os demais países do Golfo não acompanharam a decisão saudita.
Os sauditas cortaram todos os voos civis entre Irã e Arábia Saudita e proibiram seus cidadãos de visitar o Irã. Negócios entre os dois países serão interrompidos. Iranianos em peregrinação a Meca continuam bem-vindos.
Ainda não se consegue entender com clareza o que os sauditas esperam obter com tudo isso. O que o Irã poderia fazer que levasse os sauditas a desistir dessas medidas sem fazer papel ridículo? Não se sabe. Foi mais um movimento impulsivo, errático, que só fere o povo saudita e a reputação internacional da família reinante.
Aguardam-se mais movimentos idiotas. Os sauditas provavelmente escalarão a guerra por procuração contra o Irã na Síria e possivelmente também no Iraque, dando mais armas e mais dinheiro a jihadistas de todos os grupos e griffes. Um novo governo no Líbano, para o qual Irã e Arábia Saudita acabavam de se acertar, volta a sumir longe no horizonte.
Os sauditas também escalarão a luta contra os houthis e o apoio que eles deliram que o Irã dê ao Iêmen, embora, depois de nove meses de bombardeio ensandecido contra infraestrutura do Iêmen, já reduzido a pó, não há muito o que escalar. Todos os ataques em solo que os sauditas e seus vários agentes procuradores locais alugados tentaram foram rechaçados, e o impasse é total.
Aí, portanto, é onde o Irã pode escalar, em retaliação.
O Irã tem a tecnologia e sabe como transferir para os houthis algumas sérias capacidades em mísseis. São mísseis que dariam aos houthis capacidades para alcançar alvos sauditas. Todo o sul da Arábia Saudita ficaria ao alcance do fogo houthi. A Arábia Saudita teria de correr, ou para conseguir qualquer paz, ou para evacuar partes significativas do país.
A execução de al-Nimr e a distração do povo saudita, que passa a preocupar-se com o Irã, ajudarão os governantes sauditas a acalmar as perturbações internas. Sim, mas a escalada está custando preço político internacional muito caro. E pode acabar – se mísseis houthis começarem a descer dos céus sobre a Arábia Saudita – por agravar os problemas internos que, quando tudo começou, os sauditas tanto queriam evitar.