
Mapa feito no Gemini, pode conter leves imprecisões
Com um breve vislumbre no mapa é possível notar a centralidade do corredor formado por Irã e Paquistão no projeto “Cinturão e Rota” da China, demonstrando que ambos formam uma cabeça de ponte logística conectando a Ásia Central, a Ásia Ocidental (erroneamente alcunhada como Oriente Médio) e a Europa [15].
A partir daí entende-se que romper o elo logístico faria a projeção geoestratégica e geoeconômica chinesa regredir não apenas décadas em seu planejamento, como muito provavelmente enfrentar insurgência e levantes em suas próprias fronteiras, como ficará esboçado até o fim do artigo.

Aliança Tripartite formada via mediação do MSS (Ministério da Segurança do Estado – agência de inteligência chinesa).
Logo após a tomada do poder no Afeganistão pelo Talibã, a China engajou diplomaticamente e economicamente com o grupo, garantindo 550 milhões de dólares em investimento na área petrolífera e 13 milhões em auxílio humanitário, em troca recebendo garantias de que o Emirado Afegão não apoiará mais a insurgência dos uigures em Xinjiang [1].
A China também traçou uma parceria estratégica com o Paquistão, coordenando inteligência e operações policiais, de modo tanto a isolar o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, defensor do separatismo uigure, quanto também de modo a proteger trabalhadores chineses na região do Baloquistão, constantemente alvo de ataques terroristas [2].
Além do citado, a China forneceu transferência tecnológica ao tanque Haider paquistanês, desenvolvido em cooperação com a NORINCO via modelo dos VT-4 e VT-1A [3], fazendo o mesmo ao JF-17 do Paquistão, criado conjuntamente pela PAC paquistanesa e a Chengdu chinesa [4].
A Índia, rival geográfico da China na Ásia, não tardou em desenvolver seu próprio projeto, o IMEC – o “Corredor Índia-Oriente-Médio-Europa”, rivalizando com a iniciativa “Cinturão e Rota” chinesa e deixando de lado tanto o Paquistão quanto o Irã, priorizando outros atores regionais, neste caso a Arábia Saudita, os EAU, a Jordânia e Israel [5].

Mapa do IMEC feito via Gemini. Pode conter pequenas imprecisões.
Índia e Israel, por sua vez, são parceiros estratégicos. 34% das aquisições no mercado de defesa israelense, entre 2020 e 2024, foram feitas pelo governo de Modi [6]. Além disso, Israel transferiu a tecnologia dos drones Hermes 450 e 900, da Elbit, aos indianos [8] e do míssil Barak-8 [7], dentre outros.
Indo além dos fatos já demonstrados, a Índia também seguiu fornecendo explosivos, munição e foguetes a Israel durante a guerra em Gaza [9], apesar das condenações internacionais ao país pelo genocídio palestino.
Findando, a inteligência indiana (em específico o RAW) tem armado, segundo as forças de segurança paquistanesas, o Tehrik i-Taliban Pakistan (TTP), também conhecido como Talibã Paquistanês, fornecendo logística, treinamento, armamento e fundos ao grupo insurgente [10].
Os objetivos de Nova Déli, neste caso, parecem claros – minar o projeto geoeconômico chinês de modo a que seu próprio projeto, o IMEC, vá adiante, auxiliando na conflagração da Ásia Central e no rompimento logístico via tanto uma aliança com Israel quanto ataques e guerras de insurgência por procuração – estratégia também utilizada pelo seu rival, o Paquistão, durante a Operação Ciclone contra a extinta União Soviética.
Além das questões anteriormente esboçadas, existem ainda outros cálculos a se considerar. O Movimento Islâmico do Uzbequistão (IMU), outrora fortemente ativo na Ásia Central, está enfraquecido pela repressão do Talibã afegão no momento ao mesmo [11].
Contudo, caso o Irã caia numa guerra vindoura contra o eixo EUA-Israel, com forte apoio indiano ao segundo ator, é plenamente possível esperar uma tendência a que a Teerã pós queda aja como hub logístico ao rearmamento da milícia, reaquecendo a insurgência na Ásia Central e impedindo o avanço dos projetos geoeconômicos de Pequim, sendo possível também uma nova insurgência contra a Rússia no Cáucaso.
Por tal motivo, até o momento, há fortes indícios de que a China enviou ao Irã mísseis HQ-9B [12], radares YLC-8B com capacidade de rastreio de aeronaves furtivas [13], além da negociação de mísseis supersônicos anti-navio YJ-12 [14], provavelmente antevendo a estratégia de contenção e desgaste contra a Marinha Americana.
Neste caso, o conflito frio e em escalada aberta com alta probabilidade de se avizinhar entre EUA, Israel e Irã não é apenas um choque de nações, mas de projetos geoeconômicos e geoestratégicos distintos, visando visões de futuro diferentes para a Ásia e o globo.
Apreende-se, fora da necessidade de determinação estratégica chinesa, caso queira se consagrar enquanto ator global aspirante a hegemon, também a divisão interna no bloco dos BRICS, com 2 de seus membros fundadores, Índia e China, rivalizando abertamente pela superioridade na Ásia Ocidental.
Caso tenha gostado, torne-se membro no YouTube para permitir que a iniciativa continue: https://www.youtube.com/@vento_leste/
[1] WANI, Ayjaz. “China’s dichotomous ties with the Taliban and Uyghurs.” Raisina Debates, Observer Research Foundation. 2023. <https://www.orfonline.org/expert-speak/china-s-dichotomous-ties-with-the-taliban-and-uyghurs>
[2] ALI, Naade. “Pakistan’s deepening strategic reliance on China.” Joint security initiatives and the future of Pakistan-China relations, Analysis, Middle East Institute. 2024. <https://mei.edu/publication/pakistans-deepening-strategic-reliance-china/>
[3] “Pakistan Leans On Untested Chinese Tanks As India Races Ahead With Proven T-90 Bhishma.” RNA Desk, RNA: Research News Analysis, Defence Industry. 2025. <https://rnamedia.in/defence-industry/pakistan-leans-on-untested-chinese-tanks-as-india-races-ahead-with-proven-t-90-bhishma/9724>
[4] ROGOWAY, Tyler. Etc. “JF-17 Thunder Fighter To Be Offered To Saudi Arabia: Report.” Air Forces, Royal Saudi Air Force, TWZ. 2026. <https://www.twz.com/air/jf-17-thunder-offered-as-saudi-arabias-next-fighter-report>
[5] “India-Middle East-Europe Economic Corridor: A Strategic Energy Alternative.” ENERGY Research Letters, Vol. 6, Issue 4. 2025. <https://erl.scholasticahq.com/article/123649-india-middle-east-europe-economic-corridor-a-strategic-energy-alternative>
[6] SHMUEL, Dean. “Modi visit to Israel marks deepening of longstanding Israel-India defense, security ties.” Defense & Tech, Jerusalem Post. <https://www.jpost.com/defense-and-tech/article-887706>
[7] DAHLGREN, Masao. “India, Israel Begin Joint Production of Barak-8 Surface-To-Air Missile.” News, Missile Threat, CSIS Missile Defense Project. 2019. <https://missilethreat.csis.org/india-israel-begin-joint-production-of-barak-8-surface-to-air-missile/#:~:text=On%20July%2012%2C%20Indian%20and,airbornetargets%20at%20a%20100km%20range>
[8] “Israeli arms are being used in the India-Pakistan conflict.” Business, YnetGlobal. 2025. <https://www.ynetnews.com/business/article/hyewxatxlg>
[9] MARSI, Federica. “India exports rockets, explosives to Israel amid Gaza war, documents reveal.” Features, Exclusive, Israel-Palestine Conflict. 2024. <https://www.aljazeera.com/features/2024/6/26/india-exports-rockets-explosives-to-israel-amid-gaza-war-documents-reveal>
[10] KHALID, Muhammad K. “India’s Strategic Use of TTP to Undermine Pakistan’s Stability.” Evidence of India’s Support for TTP, Modern Diplomacy. 2023. <https://moderndiplomacy.eu/2023/02/02/indias-strategic-use-of-ttp-to-undermine-pakistans-stability/>
[11] BAILLEUX, Nathan. “UZBEKISTAN, TADJIKISTAN, KIRGYZSTAN: A NEW EPICENTRE OF ISLAMIST TERRORISM IN CENTRAL ASIA? THE CASE OF THE IMU (ISLAMIC MOVEMENT OF UZBEKISTAN) AND ITS NETWORKS.” Asia Focus, STRATEGIC ANALYST. GRADUATED IN INTERNATIONAL AFFAIRS, Asia Program, Institute de Relations Internationales et Stratégiques. Pág. 2. 2019. <https://www.iris-france.org/wp-content/uploads/2019/01/Asia-Focus-98.pdf>
[12] MATTHEWS, Sean. “Iran receives Chinese surface-to-air missile batteries after Israel ceasefire deal.” News, Israel Attacks Iran, Middle East Eye. 2025. <https://www.middleeasteye.net/news/iran-receives-chinese-surface-air-missile-batteries-after-israel-ceasefire-say-sources>
[13] HELMY, Dr. Nadia. “How Iran Gained the Ability to Track Stealth Aircraft: China Deal and the YLC-8B system.” Defense, Modern Diplomacy. 2026. <https://moderndiplomacy.eu/2026/02/10/how-iran-gained-the-ability-to-track-stealth-aircraft-china-deal-and-the-ylc-8b-system/>
[14] “Report: Iran Nears Deal to Buy Supersonic Antiship Missiles From China.” The Maritime Executive. 2026. <https://maritime-executive.com/article/report-iran-nears-deal-to-buy-supersonic-antiship-missiles-from-china>
[15] DOLATABADI, Ali Bagheri. “Coercion or Choice: Opportunities and Challenges of a 25-Year Agreement for Iran and China.” nternational Relations, Yasouj University, Yasuj, Kohgiloyeh and Boyerahmad, Iran. 2025. <https://www.researchgate.net/publication/371259393_Coercion_or_Choice_Opportunities_and_Challenges_of_a_25-Year_Agreement_for_Iran_and_China>