Donald Trump, a quem os dirigentes europeus classificam como um populista sem experiência política, publicou a sua nova Estratégia de Segurança Nacional, um texto desajeitadamente escrito, mas com um alcance filosófico considerável. Aí, ele afirma-se como um mestre em diplomacia e propõe, de acordo com o slogan do Presidente Andrew Jackson, substituir a guerra pelo comércio.
A publicação pela Casa Branca da Estratégia de Segurança Nacional de 2025 vira o quadro do avesso. Ela rompe com todos os documentos precedentes, incluindo a versão de 2017 [1] , aquando do primeiro mandato do Presidente Donald Trump.
Os dois textos têm em comum a sua longa introdução preliminar, mas enquanto o texto de 2017 visava «substituir a guerra pelo comércio», o texto de 2025 responde primeiro às questões de saber o que querem os Estados Unidos e de que meios dispõem. Trata-se de uma reformulação completa da estratégia nacional.
Redefinição
O Presidente Donald Trump escreve : «Antes de mais nada, queremos a sobrevivência e a segurança contínuas dos Estados Unidos como república independente e soberana, cujo governo garante os direitos naturais inalienáveis dos seus cidadãos e privilegia o seu bem-estar e os seus interesses. Queremos proteger este país, o seu povo, o seu território, a sua economia e o seu modo de vida contra qualquer ataque militar e qualquer influência estrangeira hostil, quer se trate de espionagem, de práticas comerciais predadoras, de tráfico de droga e seres humanos, de propaganda destrutiva e operações de influência, de subversão cultural ou de qualquer outra ameaça para a nossa nação.»
Quanto à segunda questão, ele definiu assim os meios : «Queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça suficientemente estável e bem governado para prevenir e desencorajar as migrações maciças para os Estados Unidos ; queremos um hemisfério cujos governos cooperem connosco contra os narcoterroristas, os cartéis e outras organizações criminosas transnacionais; desejamos um hemisfério que permaneça livre de influências estrangeiras hostis. Compromete-mo-nos a evitar qualquer intrusão ou tomada de controle de activos chave, essenciais ao apoio de cadeias de aprovisionamento críticas, e em garantir o nosso acesso contínuo a sítios estratégicos essenciais. Por outras palavras, afirmaremos e aplicaremos um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe.»
Dito por outras palavras, os Estados Unidos irão concentrar-se sobre a sua esfera de influência, as Américas. Aí, eles agirão como um irmão mais velho, e já não como um império («Corolário Roosevelt»). Quer dizer, irão proteger o continente de ameaças externas e esperam, em troca, que os outros contribuam para suas necessidades económicas.
Se isso for verdade, não atacarão a Venezuela, mas poderão atacar organizações de narcotráfico na América Latina, incluindo na Venezuela.
Ele prossegue :
• «Queremos pôr um fim aos danos contínuos que actores estrangeiros infligem à economia norte-americana, mantendo a liberdade e a abertura do Indo-Pacífico, preservando a liberdade de navegação em todas as vias marítimas cruciais e mantendo cadeias de aprovisionamento seguras e fiáveis, assim como o acesso a matérias essenciais.
• Queremos apoiar os nossos aliados na preservação da liberdade e da segurança da Europa, restaurando a sua confiança civilizacional e identidade ocidental.
• Queremos impedir que qualquer potência adversária domine o Médio-Oriente, seus recursos petrolíferos e gasíferos, e os pontos de passagem estratégicos pelos quais eles transitam, ao mesmo tempo evitando as «guerras sem fim» que nos atolaram nesta região a um custo exorbitante.»
Ele conclui que, idealmente, os Estados Unidos deveriam voltar a ser «a primeira economia mundial, em simultâneo a maior e a mais inovadora, que gere riqueza que possamos investir em objectivos estratégicos e que nos dê um poder de negociação com os países que desejem aceder aos nossos mercados.»
Estratégia
Só após essa longa introdução, é que ele aborda as questões estratégicas. Ele previne que esta estratégia «não repousa numa ideologia política tradicional. Ela é motivada antes de mais por aquilo que serve os interesses dos Estados Unidos, ou, em duas palavras, pelo princípio da «América Primeiro» (América First).»
«America First», antes de se ser a palavra de ordem dos partidários norte-americanos dos nazis, foi a do Presidente democrata Woodrow Wilson, no início da Primeira Guerra Mundial, e do conservador (no sentido anglo-saxónico do termo) Pat Buchanan quando lutou contra os discípulos de Leo Strauss.
Ele ameniza então a questão rejeitando a definição ampla de «segurança nacional» que as precedentes administrações desenvolveram, bem como as classificações tradicionais. Assim, declara-se a priori «não-intervencionista», embora sublinhando que esta posição é muitas vezes insustentável e que então é necessário agir. Por fim, defende um «realismo flexível».
Ele escreve : a nossa política «será realista quanto ao que é possível e desejável
nas nossas relações com outras nações. Buscamos boas relações e relações comerciais pacíficas com as nações do mundo, sem lhes impor mudanças democráticas ou sociais que se afastem profundamente das suas tradições e da sua história. Reconhecemos e afirmamos que não há nada de incoerente, nem de hipócrita, em agir segundo uma tal avaliação realista. Ou ainda, em manter boas relações com países cujos sistemas de governo e sociedades diferem dos nossos, ao mesmo tempo que incentivamos os nossos amigos, partilhando ideias comuns, a respeitar os nossos padrões comuns, que nos permita promover os nossos interesses.»
Este ponto marca uma ruptura completa com o pensamento das administrações precedentes. É um retorno ao pensamento tradicional da velha Europa, que esta abandonara tal como os Estados Unidos haviam feito. Donald Trump prega a flexibilidade e a adaptabilidade.
Ele descreve então as relações internacionais que promove, a sua visão do mundo, fundada na «primazia das nações» e «o respeito da sua soberania.» Ele indica que, neste mundo, não pretende ter uma posição hegemónica, antes velará para que nenhuma nação a possa alcançar. Ele concebe a competição entre as nações como a do mercado ou do desporto : que ganhe o melhor !
Afirma que a «soberania das nações» implica a «restauração das fronteiras» e a defesa dos «direitos do homem» (no sentido norte-americano do termo, não no sentido francês dos «direitos do homem e do cidadão»).
Ele afirma igualmente que a «soberania das nações» não pode ser delegada em alianças ou organizações intergovernamentais. Por conseguinte, a pertença à OTAN não deverá dispensar cada Estado-membro em assegurar a sua própria defesa nacional. Da mesma forma, a adesão à Organização Mundial do Comércio não deverá dispensar cada Estado de defender, por si próprio, a abertura de novos mercados e a segurança das suas cadeias de aprovisionamento.
Isto nada tem a ver com a estratégia do seu antecessor, Joe Biden, para quem as fronteiras e as nações não passavam de obstáculos ao triunfo da «democracia» [2] ; uma maneira de ver que levou automaticamente à continuação da guerra sem fim do Presidente George Bush, a doutrina Rumsfeld-Cebrowski [3] .
As regiões do mundo
Donald Trump opta por definir zonas de acção prioritária. Ao fazê-lo, ele expressa-se respeitando todos os seus interlocutores e não, como antes, desprezando aqueles que não contavam (os «países merdosos»).
A – As Américas
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Tendo precisado o «corolário Trump da Doutrina Monroe», ele fixa a sua estratégia sob o lema «recrutar e expandir-se». «Recrutar», é para se apoiar sobre o máximo de parceiros. «Expandir-se», é desejar que o máximo de nações considerem os Estados Unidos como seu parceiro preferencial e dissuadi-los (por diversos meios) de colaborar com outras.
Em resumo, trata-se de garantir que a presença de parceiros estrangeiros nas Américas, como a China, não perturbará as cadeias de aprovisionamento norte-americanas. É por isso que «convêm sublinhar que os bens, serviços e tecnologias americanas representam um investimento muito mais vantajoso a longo prazo, porque são de melhor qualidade e não vem associadas às mesmas condições que a ajuda proposta por outros países.»
B – O Indo-Pacífico
O Indo-Pacífico produz hoje em dia metade da riqueza da humanidade, mas as relações comerciais americano-chinesas estão cada vez mais desequilibradas. Tanto porque as regras entre os dois países foram definidas quando a China era um país subdesenvolvido, como porque a economia norte-americana está em plena regressão. [Não é o que Trump diz, mas é o que deixa perceber.] Ele conta pois reforçar o Quad (Austrália, Estados Unidos, Japão e Índia) para se assegurar que a China não conseguirá atingir uma posição hegemónica.
Ele quer igualmente mobilizar os recursos dos seus parceiros para lançar uma iniciativa concorrente às Rotas da Seda chinesas.
Debruçando-se sobre a questão de Taiwan, ele salienta que a ilha dispõe de uma «posição dominante na produção de semicondutores, mas, sobretudo, que ela proporciona um acesso directo à segunda cadeia de ilhas e divide a Ásia do Nordeste e do Sudeste em dois teatros de operação distintos.» É por isso que os Estados Unidos incrementarão o seu domínio económico sobre a ilha, velando pelo respeito da identidade chinesa de Taiwan e em jamais apoiar qualquer conflito a propósito. De facto, Donald Trump interveio junto a Sanae Takaichi, a Primeira-Ministro japonesa para lhe pedir que cessasse de provocar Pequim.
Os Estados Unidos deverão também garantir que as suas cadeias de aprovisionamento jamais sejam interrompidas no Mar da China Meridional por ninguém.
C – A União Europeia
A produção da UE diminuiu, em trinta e cinco anos (quer dizer, não desde o Tratado de Maastricht, mas desde a conclusão do mercado único), de 25% para 14% da produção mundial. «Mas este declínio económico é eclipsado pela perspectiva muito real e mais sombria de um colapso civilizacional. A sua restauração depende do controle da imigração (alguns Estados poderão em breve ter uma maioria não-europeia) e do abandono da «sua obsessão estéril com a regulamentação excessiva».
Em relação à guerra na Ucrânia, Donald Trump escreve que «é primordial para os Estados Unidos negociar uma cessação rápida das hostilidades a fim de estabilizar as economias europeias, impedir uma escalada ou uma extensão involuntária do conflito, restabelecer a estabilidade estratégica com a Rússia e permitir a reconstrução da Ucrânia após as hostilidades, a fim de garantir a sua sobrevivência enquanto Estado viável.»
Ele deplora que «muitos Europeus considerem a Rússia como uma ameaça existencial», o que implica uma solução da guerra na Ucrânia que eles não aguentarão.
D – O Médio-Oriente
Esta região já não tem o mesmo significado, uma vez que «as fontes de energia se diversificaram consideravelmente — tendo os Estados Unidos voltado a ser exportadores líquidos de energia — e que a competição entre superpotências deu lugar a uma rivalidade entre grandes potências, na qual os Estados Unidos conservam a posição mais invejável». «Esta região irá se tornar cada vez mais uma fonte e um destino para investimentos internacionais.»
Embora deplore a rigidez do Irão, alegra-se por ver os principais governos lutar contra o «radicalismo». Mesmo que não o nomeie explicitamente, ele fala aqui do «jiadismo», que as Administrações Obama e Biden favoreceram durante muito tempo a exemplo do Império Britânico.
E – África Oriental
A estratégia dos Estados Unidos em África «concentrou-se durante muito tempo no fornecer, depois na difusão, da ideologia liberal. Os Estados Unidos deveriam, em vez disso, concentrar-se em tecer parcerias com certos países a fim de apaziguar os conflitos, de promover relações comerciais mutuamente vantajosas e de passar de um modelo de ajuda externa para um modelo de investimento e de crescimento capaz de explorar os abundantes recursos naturais e o potencial económico latente de África.»
Mesmo que os Estados Unidos devessem ajudar na resolução de conflitos em curso (por exemplo, entre a RD do Congo e o Ruanda, e no Sudão) e em prevenir novos conflitos (por exemplo, entre a Etiópia, a Eritreia e a Somália), eles deveriam, sobretudo, «passar de uma relação centrada na ajuda para uma relação centrada no comércio e no investimento com a África, privilegiando as parcerias com Estados competentes e fiáveis, dispostos a abrir os seus mercados aos bens e serviços norte-americanos.»
Conclusão
Contrariamente à caricatura que foi feita pelos seus opositores, tanto norte-americanos, como estrangeiros, a Estratégia de Donald Trump parece ser extremamente coerente e bem elaborada, embora expressa de uma maneira simples e com referências inúteis às vitórias do Presidente.
Ela está numa linha de total continuidade com o seu projecto de 2017 : pôr fim ao «Império Americano». Ele é o primeiro Presidente dos Estados Unidos, desde há quase dois séculos, para quem o seu país não tem inimigos. Ao fazer isto, opõe-se tanto aos imperialistas tradicionais, como aos “straussianos” e aos neoconservadores, mas ainda mais aos belicistas da União Europeia. Enquanto desenvolve o seu Exército segundo o princípio romano Si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara a guerra), posiciona-se de modo a jamais a provocar e empenha-se, pelo contrário, em ajudar a resolver conflitos, mais uma vez em contraponto com a estratégia do seu aliado britânico, a de «dividir para reinar».

