Odessa: O massacre que a imprensa “não viu” 3

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Por Natalia Forcat para Oriente Mídia

“Poder e mídia não são apenas relações amigáveis entre jornalistas e líderes políticos, entre editores e presidentes. Não são apenas sobre as relações parasitárias e de osmose entre repórteres supostamente honrados e o eixo do poder que existe entre a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Pentágono, a Downing Street e os ministérios das Relações Exteriores e da Defesa [britânicos]. No contexto Ocidental, a relação entre poder e mídia diz respeito a palavras — é sobre o uso de palavras. É sobre semântica. É sobre o emprego de frases e suas origens. E é sobre o mau uso da História e sobre nossa ignorância da História. Mais e mais, hoje em dia, nós jornalistas nos tornamos prisioneiros da linguagem do poder.”

Robert Fisk
O jornalismo e as palavras do poder

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Depois de enfrentamentos, iniciados após uma partida de futebol, grupos favoráveis ao governo golpista de Kiev cercaram dezenas de manifestantes contrários, que tinham se refugiado no prédio da Central Sindical, e provocaram um incêndio criminoso usando coquetéis molotov. Os extremistas impediram a saída das pessoas -espancando as que tentavam fugir- enquanto incendiavam as dependências do sindicato como pode ser visto nos videos divulgados na internet pelos próprios autores da chacina. O resultado foi de 46 pessoas assassinadas, muitas das quais morreram sufocadas pela fumaça, outras queimadas e ainda houve as que se atiraram ao vazio tentando fugir das chamas. Isto constitui, sem sombras de dúvidas, um massacre. No entanto a mídia ocidental, que atua como um mero canal de propaganda de EUA e da OTAN, sempre pronta para divulgar justificativas para guerras e intervenções “humanitárias”, não viu este massacre.

Com a clara intenção de diminuir o impacto do acontecimento, entrou em cena a “linguagem do poder”, então em vez de ficarmos sabendo que 46 pessoas foram cercadas e queimadas vivas, foram usados artifícios como “enfrentamentos deixam 46 mortos”, ou ainda “incêndio causa mortes”, sem entrar em detalhes e ocultando ou camuflando a autoria do incêndio e tomando especial cuidado para não personificar as vítimas.

Normalmente, quando a imprensa quer nos comover com algum massacre ou com alguma tragédia natural da qual pretenda obter algum lucro político, as vítimas são humanizadas: elas tem nome e uma história, os planos truncados da vítima são apresentados detalhadamente para gerar empatia no público. Mas, em Odessa, a imprensa transformou todas as vítimas em anônimos, pessoas sem rosto, sem nome e sem história. Ninguém sabe no Ocidente, pelo menos não pela imprensa corporativa, que o poeta ucraniano Vadim Negaturov morreu ao pular do prédio da sede sindical em chamas. Ninguém sabe se ele tinha filhos, ou se ele tinha sonhos. Também não seremos informados se ficou algum poema inacabado.

O poeta Vadim Negaturov (em cirílico: ВАДИМ НЕГАТУРОВ) conhecido popularmente como "Katyn".

O poeta Vadim Negaturov (em cirílico: ВАДИМ НЕГАТУРОВ) conhecido popularmente como “Katyn”.

No artigo de Neil Clark, traduzido e publicado pelo Oriente Mídia, o autor questiona “por que o uso da força por parte das autoridades contra os manifestantes era completamente inaceitável ​​em janeiro, mas é aceitável agora?”, Clark disse estar confuso com estas “contradições”. Nós, também estamos. Por esse motivo consideramos que é imprescindível analisar como a mídia corporativa está escolhendo as palavras para mascarar o massacre. Não fizemos um levantamento sobre como a mídia brasileira veiculou a notícia, mas traduzimos dois artigos com dados importantes sobre como vários grandes veículos de imprensa internacional noticiaram o massacre de Odessa.

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Mídia Ocidental evita mostrar quem foram os autores do incêndio em Odessa
Fonte: RT

Apesar que as evidências confirmam que foram os manifestantes partidários do Governo de Kiev os autores do incêndio fatal em Odessa, a mídia ocidental continua divulgando informações ambíguas.

O Pravy Sector provocou intencionalmente o incêndio que aconteceu no final da tarde de sexta-feira na Central Sindical, na cidade portuária de Odessa, em que 46 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas.

Os principais meios de comunicação ocidentais foram, no entanto, muito cuidadosos ao informar sobre a tragédia e tentaram evitar culpar diretamente os reais autores do incêndio mortal.

A cobertura de eventos dependia, quase exclusivamente, de declarações feitas pelo Governo de Kiev, que culpou pela violência os ativistas em favor da autonomia da região, bem como testemunhos dados por membros do grupo ultra nacionalista Pravy Sector. Com base nesta informação, o público poderia interpretar que o prédio pegou fogo sozinho, sugerem alguns jornalistas.

“Em algum momento, ainda não está claro como tudo isso começou exatamente, havia aqui protestos pró-ucranianos e pró-russos. Aconteceram enfrentamentos nas ruas que culminaram, ontem à noite, em um grande incêndio em um edifício”, disse Sky News.

Enquanto isso, a Fox News informou que “o confronto entre manifestantes nacionalistas e anti Kiev causou um incêndio que matou pelo menos 31 pessoas”, sem especificar exatamente como os eventos aconteceram ou como o incêndio começou.

No entanto, a retransmissão ao vivo, desde o local do acontecimento, mostrou claramente como os radicais pró governo de Kiev atiravam coquetéis molotov contra a Central Sindical, onde ativistas “anti Maidan” ficaram presos por horas.

O jornal The Washington Post perguntou à ativista Kiev Diana Berg quem estava por trás do lançamento de coquetéis molotov e ela admitiu que era “nossa gente”.

Quando a tragédia aconteceu, o site da BBC simplesmente citou o escritório regional do Ministério de Interior da Ucrânia. “… não deu detalhes sobre como o fogo começou” disse o portal. “A sequência exata dos eventos ainda não está clara”, acrescentou.

Este tipo de cobertura é consistente com a forma como vêem a situação as autoridades norte-americanas e europeias, afirma o corresponsal de RT, Gayane Chichakyan. Eles têm se posicionado claramente com as autoridades de Kiev e estão dispostos a justificar e defender qualquer ação tomada por Kiev contra os manifestantes, acrescenta.


Mídia hispana também esconde autores do incêndio

Com informações publicadas no site de notícias argentino Indymedia

As manchetes publicadas na mídia hispana sobre incêndio em Odesa evitam mencionar os autores ou dizer quem foram as vítimas. Isso pode ter passado despercebido por muitos, mas outros perguntam  indignados: "O que estão tentando nos vender?"

As manchetes publicadas na mídia hispana sobre incêndio em Odesa evitam mencionar os autores ou dizer quem foram as vítimas. Isso pode ter passado despercebido por muitos, mas outros perguntam indignados: “O que estão tentando nos vender?”

As imagens da transmissão ao vivo a partir de Odessa e o depoimento de testemunhas e ativistas que apoiam o governo autoproclamado de Kiev confirmavam que o incêndio na Casa dos Sindicatos, na cidade portuária de Odessa, em que dezenas de pessoas morreram foi causado por manifestantes favoráveis à nova administração.

No entanto, grande parte da imprensa espanhola (e especialmente a mídia dominante) evitou mencionar em suas manchetes quem estava por trás do ataque e quem foram as vítimas, mesmo sabendo isso. Embora a autoria dos crimes e quem são as vítimas não apareça nas manchetes ou nos primeiros parágrafos de inúmeros artigos, o fato é comentado mais tarde no texto como algo que estaria “sendo verificado”, mas sem dar a importância em geral, e descumprindo os padrões jornalísticos básicos.

Esta forma de apresentar as informações, muitas vezes ignora completamente a clássica fórmula de ouro jornalismo conhecido como o ” Cinco W ‘ (e um H), referindo-se às seis perguntas que todas as notícias corretamente escritas deveria responder, se as respostas são conhecidas: what, who, how, when, where e why? (o quê, quem, como, onde, quando e por quê?)

Jornal El País (Espanha)

Captura de tela de www.internacional.elpais.com

Captura de tela de www.internacional.elpais.com

O início do artigo no site do El Pais, o jornal de maior circulação na Espanha, fala que um surto de violência “arrasou um edifício em Odessa”, deixando 36 mortos.

Apenas no segundo parágrafo da história, como se não fosse algo particularmente importante como para encabeçar a “pirâmide invertida” (estrutura de informação clássica em que os dados mais significativo são colocados no início do texto) afirma que efetivamente eram “partidários de Kiev”, que “colocaram fogo” na Casa dos Sindicatos.
(…)

ABC

Captura de tela de www.abc.es

Captura de tela de www.abc.es

Neste outro artigo de ‘ABC’, o leitor só conhece várias versões do que pode ter ocorrido durante a leitura do terceiro e quarto parágrafo.

Em primeiro lugar é sugerido, citando um portal ucraniano, que os manifestantes anti Kiev lançaram, desde o terraço da Casa dos Sindicatos, as garrafas de gasolina que causaram o incêndio no mesmo prédio onde eles estavam. Depois, inclui a versão do Kremlin, que responsabilizou as autoridades ucranianas pela tragédia.

Infobae

Captura de tela de  www.infobae.com

Captura de tela de www.infobae.com

“Trinta e oito pessoas morreram, nesta sexta-feira no incêndio de um edifício em Odessa (sul da Ucrânia), após confrontos entre partidários do governo e ativistas pró-russos de Kiev”, publicado no site Infobae, o último 2 de maio, citando apenas o Ministério de Interior Ucraniano e sem mencionar quem foram mortos ou quem acendeu o fogo no prédio.

CNN

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No portal da CNN, a morte dessas 46 pessoas não pareceu importante o suficiente como para dedicar um artigo inteiro. De fato, apenas duas frases, perto do final das informações sobre a libertação dos observadores militares da OSCE, dão evidência desta tragédia e de maneira superficial.

“Na cidade portuária de Odessa, no sul, os confrontos no prédio de um sindicato provocaram um incêndio que matou 46, de acordo com um porta-voz das autoridades locais”, foi relatado.

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3 thoughts on “Odessa: O massacre que a imprensa “não viu”

  1. Responder wilson maejima maio 6,2014 21:39

    “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.

    Millôr Fernandes em 2006:
    ““A imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o País. Acho que uma das grandes culpadas das condições do País, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa. Repito, apesar de toda a evolução, nossa imprensa é lamentavelmente ruim. E não quero falar da televisão, que já nasceu pusilânime”.

    “A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.”
    – prof. Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard

    “Na imprensa do Brasil, ninguém vai saber o que aconteceu no Brasil com o meu governo. O futuro leitor tem que ler as revistas inglesas, francesas, os jornais alemães, e, acima de tudo, vocês, a internet”.
    – Presidente Lula, aos Blogueiros
    Por Edu Franco
    “O jornalismo da Globo é tão falso e manipulador que a população está rechaçando seus profissionais na rua, isso tem ocorrido várias vezes, eles são hostilizados, e com razão, são profissionais da farsa, da edição enganosa, se julgam no olimpo da profissão, quando na verdade são a escória, a falta de ética, o serviço sujo, essa gente daqui a pouco vai correr risco de vida, meio parecido com o “marginalzinho” da Sheranazi.”

  2. Responder Renato maio 7,2014 8:22

    Russos e ucranianos sempre se consideraram povos irmãos, o que a impressa não noticia e que passa ser a vergonha do mundo e que menos de 10% sao legalmente nazistas (dentro da Ucrania) e se acham no direito de vingarem a 2 guerra. Claro que novamente e como sempre apoio dos EUA e a perdida Europa que não sabe pra onde vai. Fico com vergonha de ver jornalistas tao bons no Brasil desinformando dessa forma.

  3. Responder Martinhopm maio 27,2014 13:33

    O grande problema é que os grupos económicos nacionais a que pertencem jornais, rádios e televisões possuem em geral ligações profundas ao grande capital financeiro internacional e este por sua vez tem a sua «sede» nos EUA, que controla e dá orientações, através da CIA e de outras organizações, para tudo quanto se publica «all over the world». Para tal exercem apertada vigilância sobre tudo o que acontece no globo. Veja-se o que se vai sabendo através, por exemplo, da WikiLeaks e do que se soube recentemente, através de Edward Snowden.

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