Forças dos EUA em Al-Tanf estão cercadas pelo lado sírio e pelo lado iraquiano. Teerã desafia Washington no Iraque. Abadi já não é candidato favorito de todos

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24/7/2018, Elijah J. Magnier, Bagdá, Elijah J. Magnier Blog

O fim da ocupação pelo ‘Estado Islâmico’ (ISIS) de um terço do Iraque, e a retomada do controle sobre todo o território pelas forças do governo não estão trazendo paz e estabilidade à Mesopotâmia.

Em várias províncias do sul a população tomou as ruas em protestos contra a falta de serviços básicos que o país sofre já há mais de uma década. Além disso, apesar do acordo de todos os partidos quanto aos resultados das recentes eleições parlamentares, não será fácil escolher um primeiro-ministro. E não é tudo: problemas continuam na Mesopotâmia, com o braço de ferro entre o Irã e os EUA, que se aprofunda.

O atual primeiro-ministro Haidar Abadi já não é o candidato preferido do Irã, embora continue preferido dos EUA e de seus parceiros regionais no Oriente Médio. A grande questão é: no caso de ser eleito o candidato preferido de um ou outro, quem governará o Iraque, o Irã ou os EUA? Os dois lados estão empenhados em vencer e usando todos os meios disponíveis para promover a agenda do respectivo candidato.

O primeiro-ministro interino Haidar Abadi está conseguindo, por enquanto, absorver a ira da população que tomou as ruas. As pessoas protestam contra a falta de empregos, o racionamento de água potável na cidade de Basra, ao sul, contra os cortes de energia sob o intenso calor no sul e no centro do Iraque, e protestam contra a corrupção avassaladora que se implantou no Iraque a partir da ocupação pelos EUA em 2003.

Alguns manifestantes destruíram prédios públicos (o aeroporto de Najaf), queimaram lojas e residências de propriedade de alguns dos membros do Parlamento e de organizações locais, o que serviu de justificativa para a intervenção dos serviços de segurança. Muitos foram presos, e os agentes de segurança determinaram um local específico onde as manifestações seriam permitidas, em nome de a população poder exercer seu direito à livre manifestação. Os serviços de segurança reabriram todas as estradas bloqueadas, inclusive as que ligam Basra e Kuwait.

A rica região de Basra é marcada pela própria implantação geográfica, sobre um campo gigante de petróleo, o maior do mundo; e por seus enormes recursos de petróleo e gás. A cidade produz em média 3,2 milhões de barris/dia (b/d) e exporta estimados 4,6 milhões de b/d pelo porto ao sul da cidade. Do campo Rumaila, em Basra, um dos maiores da região (340 poços de petróleo) extrai-se o petróleo de melhor qualidade do mundo. Mas apesar da produção de petróleo de altíssima qualidade no sul do Iraque (nas províncias de Basra, DhiQar, Maysan, Muthanna e Wasit), pouco é feito em favor das populações, que até hoje padecem a carência de serviços básicos.

Em junho o Iraque vendeu 3,84 milhões b/d; no mesmo mês alcançou 4,5 milhões b/d e pode chegar a 4,7 milhões b/d nesse mês de julho, ainda que a OPEP tenha fixado o limite de 4,35 milhões b/d para o Iraque.

Os partidos políticos na Mesopotâmia querem que o governo separe-se da OPEP e deixe de limitar a produção diária. O país precisa de dinheiro, tendo consumido centenas de bilhões para dar combate ao grupo chamado ‘Estado Islâmico’ (ISIS) até derrotá-lo.

O sul do Iraque, apesar da riqueza em petróleo e gás, padece de desesperador déficit de energia elétrica. Basra e outras províncias recebem, desde 2012, eletricidade do Irã: Khoramchehr alimenta Basra, Karkhah alimenta Amara, Mirsad alimenta Diyala e Serpil Zahab alimenta Khaniqin. Iraque sofre com falta de energia elétrica desde 1990.

Com a invasão pelos EUA, a corrupção dentro do governo central e os muitos ataques terroristas em usinas de produção de eletricidade levaram a aumento terrível nos cortes diários no fornecimento. Só há energia elétrica por oito horas diárias, num país cuja temperatura alcança frequentemente os 58ºC (conheci pessoalmente durante vários anos as temperaturas do mês de julho no Iraque, que frequentemente alcançavam 49ºC dentro de casa. As pessoas só conseguiam dormir umas poucas horas, depois da meia-noite, sobre o telhado das casas). Mas o Irã suspendeu o fornecimento de mais de 1.200 MW de eletricidade ao Iraque, por causa da dívida acumulada que já ultrapassa $1 bilhão.

É onde começa o problema

O Iraque pagou $100 milhões do que devia ao Irã, mas agora enfrenta as sanções que os EUA impõem ao Irã. O Iraque, governado por Abadi, aceitaria render-se às medidas impostas pelos EUA. Fontes no gabinete do primeiro-ministro disseram que “os EUA tentam substituir o fornecimento de energia iraniana, pressionando um ou dois grandes países vizinhos (Arábia Saudita e Kuwait) no sentido de que apoiem o Iraque nas necessidades básicas do país, e convocando-os para que ofereçam suas capacidades estruturais a Abadi e proponham trocar eletricidade, por petróleo. O objetivo é afastar o Irã e limitar a influência iraniana na Mesopotâmia”.

De fato, os embaixadores dos EUA com base no Oriente Médio e o enviado especial do presidente dos EUA ao Iraque Brett McGurk não estão medindo esforços para convencer os países do Golfo da necessidade de apoiaram Haidar Abadi e Moqtada al-Sadr e promovê-los, de modo a adquirirem poder no novo governo a ser formado, e posicionar-se contra o Irã e seus aliados no Iraque. Os norte-americanos querem que países vizinhos (não o Irã) forneçam a energia de que o Iraque precisa, de modo a que a economia iraniana não seja beneficiada nessa transação.

“O enviado dos EUA Brett McGurk visitou-nos em Bagdá e pediu que apoiássemos Moqtada e Abadi numa coalizão para reeleger o atual primeiro-ministro. Respondemos que Moqtada al-Sadr é imprevisível e não pode ser considerado confiável. As políticas de vocês [dos EUA] no Iraque jamais deram certo, e as escolhas que fazem não são feitas para atender nossos [do Iraque] interesses” – disseram as duas mais altas autoridades políticas sunitas no Iraque que foram visitados pelo enviado dos EUA. O embaixador McGurk, disseram nossas fontes, visivelmente não gostou dessa resposta com a qual não contava: [disse que] se os líderes iraquianos não seguissem as “recomendações” dos EUA, haverá represálias.

“Dissemos ao embaixador Brett que se começar com ameaças, não receberá de nós qualquer cooperação e estará criando resultado negativo para todos” – disseram nossas fontes.

E os sunitas não são os únicos que se recusam a apoiar Moqtada e Abadi. O enviado dos EUA visitou o Curdistão e recebeu respostas semelhantes dos líderes curdos.

Os EUA estão recorrendo também aos líderes do partido xiita, especialmente a Said Ammar al-Hakim, que parece ser o mais cordato de todos que foram contatados, e mostra-se muito disposto a colaborar.

Parece que as chances de Haidar Abadi para renovar seu mandato por outros quatro anos encolhem de minuto a minuto. O Irã e aliados, ou talvez os partidos anti-EUA no Iraque entre xiitas, sunitas e curdos, parecem estar prevalecendo. Houve tempo em que Irã e EUA concordaram num mesmo candidato, o atual primeiro-ministro Haidar al-Abadi. Hoje, os EUA declararam guerra econômica ao Irã, para paralisar suas capacidades, o que afeta o povo iraniano e a moeda local. O embargo entra em vigência efetiva em agosto e será intensificado em novembro.

Por tudo isso, o Irã não pode aceitar governo hostil em Bagdá, e os EUA têm dificuldades com o Iraque ao lado do Irã, particularmente se isso ameaça a efetividade de seu embargo “unilateral”. O Iraque pode ajudar na venda do petróleo do Irã, o que aumentaria o comércio e os negócios com Teerã, o que, por sua vez, derrubaria o plano de Donald Trump para forçar a República Islâmica a algum tipo de submissão.

Além do mais, os EUA sentem-se muito pouco confortáveis com as forças de segurança do Iraque, Hashd al-Shaabi, criadas em 2014 para combater o ISIS, e que respondem ao chamado do Grande Aiatolá Sistani para a Jihad contra o grupo terrorista (erradamente acusado de ser comandado pelo Irã). Essas forças tomaram posições ao longo da fronteira entre Iraque e Síria.

Dia 18 de junho, jatos israelenses bombardearam e destruíram um quartel-general de forças de segurança do Iraque na fronteira com a Síria. Aquela posição da segurança iraquiana servia para monitorar o movimento do ISIS que tentava sair da Síria para entrar no Iraque. Tropas regulares sírias ou iraquianas estão impedidas de atacar e perseguir o ISIS no território que os terroristas controlam, porque o ISIS está implantado na área controlada pelos EUA no nordeste da Síria. Por isso as forças de segurança do Iraque, Hashd al-Shaabi tiveram de:

  1. Lançar ameaça muito clara às forças dos EUA, de que haveria revide ao golpe contra agentes iraquianos, que causou 24 mortos (sem reação de Bagdá). As forças de segurança iraquianas entendem que, com os EUA controlando o espaço aéreo do Iraque, nenhum ataque israelense seria possível sem a aprovação dos EUA. Sem dúvida, as forças iraquianas conservam o direito de retaliar, mesmo que o equilíbrio de poder se altere na Mesopotâmia, e o governo iraquiano decida posicionar-se ao lado dos EUA contra o Irã.
  2. Assumir a decisão de cercar toda a área na qual o ISIS tem sua base. Além disso, as forças de segurança iraquianas avançaram ainda mais: em acordo com o Exército Árabe Sírio, as duas forças, cada uma no respectivo país, cercaram a base dos EUA em al-Tanf – limitando o movimento dos norte-americanos em solo.

Os norte-americanos implantam um círculo de segurança de 80km (50 milhas) em torno de suas bases na Síria e no Iraque. Síria e Iraque respeitam o procedimento dos EUA, mas plantaram forças estáticas em torno da base, fazendo sentir muito objetivamente às forças norte-americanas ocupantes que não são bem-vindas. Na verdade, os soldados norte-americanos só cumprem ali serviço de ocupar território sírio para impedir trocas comerciais entre Síria e Iraque. Todos sabem que não há ISIS na passagem de fronteira em Al-Tanf, no leste.

Mas os comandantes das forças de segurança do Iraque acreditam que os EUA têm o objetivo de implantar várias bases militares no Iraque, especialmente em áreas próximas das fronteiras com a Síria.

As forças de segurança do Iraque entendem que são capazes de conter qualquer tentativa de ressurreição ou ataque do ISIS e, assim sendo, não há absolutamente qualquer necessidade de nenhuma base militar dos EUA no país. Tampouco há hoje qualquer necessidade de se manter no Iraque alguma coalizão militar liderada pelos EUA, no máximo instrutores e mecanismos para troca de experiência e inteligência no combate ao terrorismo, como dizem comandantes das forças de segurança do Iraque.

Várias vezes, em circunstâncias passadas, Abadi tentou demitir o vice-comandante das Hashd al-Shaabi, Jamal Jaafar Mohammad Ali, também conhecido como Abu Mahdi al-Mohandes. É homem do Irã – e dito isso, “já se disse tudo”. Mas o primeiro-ministro do Iraque não está hoje em posição que lhe permita suportar qualquer reação das Hashd al-Shaabi, organização do Estado e muito popular no Iraque. Por isso Abadi visitou o quartel-general das forças de segurança do Iraque, para se reunir com Mohandes e pôr fim aos boatos (pelo menos por enquanto).

É sabido entre os políticos iraquianos, que os EUA aceitaram o papel das Hashd e a inclusão dessas forças como parte da segurança iraquiana, mas os norte-americanos querem que Mohandes seja afastado do poder.

Os EUA vivem em permanente queda-de-braço com o Irã, na disputa pela Mesopotâmia e o Levante. Os norte-americanos tentam reduzir as possibilidades de recursos do Irã no Oriente Médio, para maximizar os efeitos do embargo até o final do ano. É meta de tal importância, que os EUA aceitaram até promover Moqtada al-Sadr – responsável pela morte de muitos soldados dos EUA durante a ocupação norte-americana (2003-2011)!

Moqtada al-Sadr ganhou pontos porque fez declarações contra o Irã em algumas raras ocasiões, e visitou países vizinhos (Arábia Saudita e os Emirados) sempre adversários do Irã.

Na verdade, Moqtada não é pró-EUA nem pró-sauditas, mas tenta construir uma identidade pessoal e ocupar o papel de supremo líder no Iraque. Mas está-se impondo na Mesopotâmia, não pelo carisma (que lhe falta completamente), mas pelo terror silencioso, como chefe de seus “Saraya al Salam“, militantes treinados para manifestações urbanas e provocações. Isso o converte em personalidade temida.

Na verdade, Moqtada várias vezes pediu abrigo no Irã durante a ocupação norte-americana no Iraque, e foi financiado durante anos pelo general Qassem Soleimani do Corpo de Guardas Revolucionários Iranianos [ing. IRGC, Iranian Revolutionary Guard Corps]. Ainda hoje, nos contatos com o general iraniano, Moqtada pede que o general o inclua, que não o deixe isolado de qualquer grande coalizão que venha a formar o novo governo.

Abadi e Moqtada estão formando hoje, com o Movimento da Sabedoria Nacional (al-Hikma) de Said Ammar al-Hakim, uma possível oposição, dentro da comunidade xiita, à coalizão liderada por Nuri al-Maliki e Hadi al-Ameeri. As chances de Abadi diminuem rapidamente aos olhos de muitos líderes iraquianos, que estão entre dois nomes, Ameri e Faleh al-Fay’yad, comandante das Hashd al-Shaabi, para liderar o novo governo iraquiano.

A última palavra ainda não foi dita, mas é esperada para o final do verão. Quem vencerá? Os EUA – com alguns dos vizinhos do Iraque – que promovem a candidatura de Abadi? Ou o Irã que testa – até aqui com sucesso –, nomes não ligados à órbita dos EUA?

Traduzido por Vila Vudu

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