Conversações de Helsinki- Trump tenta reequilibrar o triângulo global

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17/7/2018, Moon of Alabama


“No futuro hoje previsível, o mundo terá três centros de poder. Uma Anglo-América atlanticista, Rússia e China. (A Europa, envelhecida e desunida, irá para onde os ventos a levem.) Esses centros de poder jamais farão guerra direta uns contra outros, mas não pararão de criar situações para desestabilizar as respectivas periferias. Coreia, Irã e Ucrânia estarão no centro desses conflitos. E interesses na Ásia Central, na América do Sul e na África também terão papel e peso.”
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As reações dos EUA polidos à conferência de imprensa dos presidentes Trump e Putin são engraçadíssimas. A ‘mídia’ está enlouquecendo. Parece que foi Pearl Harbor, Golfo de Tonkin e 11/9 tudo no mesmo dia. A guerra começa amanhã. Mas contra quem?

Por trás do pânico estão visões de Grande Estratégia que competem entre elas.

Agora, relendo a transcrição dos 45 minutos da conferência de imprensa (vídeo, ing.), pareceu-me tediosa. Trump nada disse que já não tivesse dito. Poucas referências ao que os dois presidentes realmente disseram, sobre o que realmente conversaram e em que pontos se acertaram. Mais tarde, Putin disse que a reunião foi mais substantiva do que havia previsto. Do que falaram a sós, haverá poucos vazamentos, se houver. Para compreender o que aconteceu, teremos de esperar para ver como se desenvolverão agora as situações nas várias áreas de conflito, na Síria, na Ucrânia e em outros pontos.

O lado ‘liberal’ dos EUA fez de tudo para impedir que o encontro acontecesse. A recente acusação encaminhada por Mueller foi cronometrada para sabotar o encontro. Antes da reunião em Helsinki, o New York Times retuitou uma charge homofóbica já publicada há três semanas, em que Trump e Putin são mostrados como amantes.

É realmente uma desgraça para a “Grey Lady” [lit. “A Dama Grisalha”, o New York Times[1]] publicar tal lixo, mas dá o tom que os demais repetirão incansavelmente. Depois da conferência de imprensa, os agentes de campo anti-Trump de sempre entraram em surto:

John O. Brennan @JohnBrennan – 15:52 UTC – 16 Jul 2018
A conferência de imprensa de Donald Trump em Helsinki já ultrapassou ‘crime e transgressão grave’. É traição. Não é só que os comentários de Trump foram imbecis: ele está na gaveta de Putin. Patriotas Republicanos, onde estão vocês???

O senador John McCain distribuiu declaração feroz:

… “Nenhum presidente jamais se rebaixou mais abjetamente aos pés de um tirano. O presidente Trump não só mentiu sobre um adversário; mas, falando em nome dos EUA para o mundo, nosso presidente fracassou e não defendeu tudo que faz de nós o que somos – uma república de povo livre, dedicado à causa da liberdade em casa e no exterior (…).”

Esses imbecis não compreendem o realismo que dá base à grande política de Trump. Trump conhece a teoria da terra interior (ing. hartland theory) de Halford John Mackinder. Ele compreende que a Rússia é o coração da massa terrestre eurasiana. Essa massa terrestre, quando unida politicamente pode governar o mundo. Nenhuma potência naval, os EUA hoje, como a Grã-Bretanha antes, jamais poderão derrotá-la. Os adversários de Trump não entendem o que Zbigniew Brzezinski, Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Carter, disse em seu livro O Grande Tabuleiro de Xadrez (pdf) sobre uma aliança sino-russa. Não compreendem por que Henry Kissinger aconselhou Trump a esquecer da Crimeia.

O próprio Trump expressou esse pensamento  (vídeo, ing.) sobre o grande quadro e as relações com a Rússia, numa conferência de imprensa em 2015:

“… Putin não tem qualquer respeito pelo presidente Obama. Grande Problema, grande problema. E vocês sabem que a Rússia tem andado – vocês sabem, há anos, há anos ouço dizer isso – uma das piores coisas que podem acontecer ao nosso país é a Rússia algum dia ser levada na direção da China. Nós aproximamos os dois países – com os acordos de petróleo que estão sendo feitos. Nós empurramos um na direção do outro. É uma coisa horrível para o nosso país. Nós os tornamos amigos, por causa de liderança incompetente. Acredito que me entenderei muito bem com Putin – OK? E farei isso, onde temos força. Não acho que precisemos das sanções. Acho que nos entenderemos muito, muito bem. Realmente acredito nisso. Acho que podemos nos entender com muitos países com os quais hoje só nos desentendemos. E que seríamos muito mais ricos do que somos hoje.”

Há três grandes centros geográficos de poder no mundo. O mundo anglo-EUA/transatlântico, que é quase sempre chamado “o ocidente”. A massa terrestre central de Mackinder, que, na essência, é a Rússia, no coração da Eurásia, e a China, que historicamente governou a Ásia. Qualquer aliança desses dois centros de poder pode determinar o destino do mundo.

O maior sucesso político de Kissinger e Nixon foi ter separado China e União Soviética. A separação não fez da China aliada dos EUA, mas quebrou a aliança sino-soviética. Assim os EUA ficaram numa posição superior, um primeiro entre iguais. Mas já naquele momento Kissinger previu a necessidade de devolver o peso à Rússia e o equilíbrio ao sistema:

Dia 14/2/1972, o presidente Richard Nixon e seu conselheiro de segurança nacional Henry Kissinger reuniram-se para discutir a viagem de Nixon à China. Kissinger, que já estivera secretamente na China, para iniciar a histórica abertura de Nixon para Pequim, expressou a ideia de que, comparados aos russos, os chineses eram “igualmente perigosos. De fato, são mais perigosos ao longo de um dado período histórico.”

Kissinger então observou que “em 20 anos um seu sucessor, se for esperto como você, andará na direção dos russos, contra os chineses.” Argumentou que os EUA, que procurava extrair vantagem da inimizade entre Moscou e Pequim, precisam “jogar esse jogo de equilíbrio de poder de modo racional, absolutamente não emocionalmente. Nesse momento precisamos que os chineses corrijam os russos e disciplinem os russos.” Mas no futuro seria o contrário.

Foram necessários 45 anos, não 20 como Kissinger previu, para reequilibrar a posição dos EUA.

Depois da Guerra Fria, os EUA acreditaram que teriam vencido a grande disputa ideológica do século 20. Na sua exuberância do ‘momento unilateral’, os EUA fizeram de tudo para antagonizar a Rússia.  Contra tudo que se comprometeram a fazer os EUA estenderam a OTAN até a fronteira da Rússia. Quiseram ser a potência suprema, sem igual em todo o mundo. Ao mesmo tempo, convidaram a China para a Organização Mundial do Comércio, com o que permitiram o crescimento explosivo dos chineses. Essa política desequilibrada cobrou seu preço. Os EUA perderam a própria capacidade industrial para a China e, simultaneamente, empurraram a Rússia para o colo dos chineses.

Brincar de hegemon global acabou por ser muito caro. Levou ao grande crash da economia dos EUA em 2006 e o povo norte-americano ganhou pouco, ou nada, daquela aventura. Trump quer reverter essa situação, reequilibrando os EUA na direção da Rússia, ao mesmo tempo em que se opõe ao poder crescente dos chineses.

Nem todos partilham esse ponto de vista. Como conselheiro de segurança de Jimmy Carter, Brzezinski continuou a política de Nixon/Kissinger para a China. ‘Uma política para a China’, deixando de lado Taiwan em nome de melhores relações com Pequim, foi trabalho dele. Sua visão ainda é que os EUA devem aliar-se à China, contra a Rússia:

“Não nos interessa antagonizar Pequim. É muito melhor, para os interesses norte-americanos, ter o trabalho chinês como nosso aliado bem próximo, o que forçará os russos a seguir-nos, se não quiser ser deixado do lado de fora, no frio. Essa constelação dá aos EUA a capacidade única de atuar sobre todo o mundo, com influência política coletiva.”

Sim, mas… Por que a China se uniria a esquema desse tipo? Como a Rússia seria “forçada”? Com quais custos os EUA teriam de arcar, para seguir essa rota? (A visão de Brzezinski do que seja a Rússia, sempre foi estrábica. Sua família, da pequena nobreza, tem raízes da Galícia, hoje na Ucrânia ocidental. Foram expulsos da Polônia quando os sovietes estenderam seu império até o centro do continente europeu. Para Brzezinski a Rússia sempre será antagonista.)

A visão de Kissinger é mais realista. Ele vê que os EUA não podem governar sozinhos e precisam conseguir melhor equilíbrio nas suas relações:

Na emergente ordem mundial multipolar, a Rússia deve ser vista como elemento essencial de qualquer novo equilíbrio global, não como ameaça aos EUA.

Kissinger está outra vez em ação para dividir Rússia e China. Mas dessa vez é a Rússia que tem de ser elevada e promovida, que tem de se tornar amiga dos EUA.

Trump está acompanhando a visão de Kissinger. Quer boas relações com a Rússia, para separar Rússia e China. Vê (acertadamente) que, no longo prazo, a China é perigo (econômico) maior para os EUA. Por isso, imediatamente depois de eleito, Trump começou a inflar as relações com Taiwan, e continua. (Ouçam Peter Lee para mais detalhes). Por isso também está tentando arrancar a Coreia do Norte das mãos da China. Por isso mostrou-se cordial com Putin.

Não é provável que Trump consiga arrancar a Rússia de sua proveitosa aliança com a China. É verdade que as atividades da China, especialmente nos ‘-stões’ da Ásia Central são perigo de longo prazo para a Rússia. O poder demográfico e econômico da China é muito superior ao da Rússia. Mas os EUA nunca acreditaram muito em relações com a Rússia. Serão necessárias décadas para que a confiança volte. A China, por outro lado, cumpre o que promete. Os chineses não têm interesse em conquistar a ‘terra central’. Tem peixe maior na frigideira do sudeste asiático, na África e pelo resto do mundo. Não interessa aos chineses antagonizar uma Rússia militarmente superior.

O máximo que Trump talvez consiga é neutralizar a Rússia, enquanto tenta conter o crescimento econômico da China com tarifas, sanções e acenos para Taiwan, Japão e outros países que têm agenda anti-China.

Os EUA desperdiçaram seu ‘momento unilateral’. Em vez de se aproximar da Rússia a favor dos EUA, atacou a Rússia e empurrou-a para o colo da China. Globalização hegemonista e guerras unilaterais são caras demais. O povo dos EUA nada ganhou nem da globalização hegemonista nem das guerras unilaterais. Por isso os norte-americanos elegeram Trump.

Trump está fazendo de tudo para corrigir essa situação. No futuro hoje previsível, o mundo acabará com três centros de poder. Uma Anglo-América atlanticista, a Rússia e a China. (A Europa, envelhecida e desunida, irá para onde os ventos a levem.) Esses centros de poder jamais farão guerra direta uns contra outros, mas não pararão de criar situações para desestabilizar as periferias. Coreia, Irã e Ucrânia estarão no centro desses conflitos. E interesses na Ásia Central, na América do Sul e na África também terão papel e peso.

Trump compreende o grande quadro. Para ‘Fazer a América Grande Outra Vez’, ele precisa lidar com a China e impedir que se aprofunde qualquer aliança China-Rússia. É o que neoconservadores e neoliberais não compreendem. Continuam emperrados da visão de Guerra Fria, de Brzezinski, para a Rússia. Ainda creem que a globalização econômica, que ajudou a China a recuperam sua força histórica, seria o único caminho verdadeiro a seguir. Não compreendem o mal que fizeram a 90% do eleitorado norte-americano.

Por enquanto, a visão de Trump está vencendo. Mas as reações lunáticas à conferência de imprensa mostram que os poderes contra-Trump ainda são fortes. Esses poderes sabotarão o presidente o mais que possam e sempre que possam. O maior perigo agora é que o ponto de vista dos lunáticos sobre o mundo real venha a recuperar o poder de onde Trump a desalojou.

Traduzido por Vila Vudu

[1] “O Wall Street Journal é editado pelos que mandam no mundo; o Washington Post é editado pelos que acham que mandam no mundo; e a Velha Dama Grisalha é editada pelos que acham que só eles deveriam mandar no mundo” [Urban Dictionary].

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