Como é que a “Administração” da ONU organiza a guerra

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O documento interno das Nações Unidas que acabámos de publicar, atesta que a Administração da Organização está a trabalhar contra os objetivos da mesma. A gravidade desta situação implica uma explicação do Secretário Geral, António Guterres, como exigiu o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov. Caso contrário, os Estados Membros poderão pôr em causa a ONU.

| Damasco (Síria)
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Em 2 de Julho de 2012, o antigo assistente de Hillary Clinton, Jeffrey Feltman, torna-se no número 2 das Nações Unidas. Ele presta juramento perante o Secretário Geral, o mui corrupto Ban Ki-moon, sobre a Carta da Organização.

Em Outubro de 2017, o Subsecretário Geral da ONU para os Assuntos Políticos, Jeffrey Feltman, redigiu, secretamente, instruções para todas as agências da ONU sobre o comportamento a adoptar perante o conflito na Síria.

Nunca os Estados membros da Organização, ou mesmo os do Conselho de Segurança, foram informados sobre a existência dessas instruções. Até ao momento em que o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, os revela, em 20 de Agosto de 2018 [1].

Acabámos de obter uma cópia do mesmo. [2].

Este documento atraiçoa a Carta das Nações Unidas [3] porque altera as suas prioridades. Embora o seu objectivo principal seja “manter a paz e a segurança internacionais”, coloca acima desse objectivo, “o respeito pelos direitos humanos”. Desta maneira, esses direitos tornam-se num instrumento contra a paz.

A expressão “direitos do homem” ou “direitos humanos” existia muito antes de ter qualquer significado jurídico (isto é, antes de puder ser contestada em tribunal). O Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico usou-o, amplamente, no século XIX, para justificar algumas das suas guerras. Assegurou que, para defender esses direitos, é que ele estava pronto a lutar contra o Império Otomano. Na realidade, foi apenas um choque entre o Império Britânico e a Porta Sublime/o Império Turco [4]. Nunca os povos supostamente “libertados” por Londres foram mais felizes sob a alçada desse dono ou de qualquer outro. No século XX, os “direitos humanos” foram, primeiro de tudo, a marca registada das ONGs “sem fronteiras” e a seguir, o slogan usado pelos trotskistas ligados à CIA, os neoconservadores.

Se a Carta da ONU emprega seis vezes, a expressão “direitos humanos”, ela não faz do mesmo termo um ideal em si. O seu respeito só pode acontecer em tempo de paz. É preciso lembrar que a guerra é um período de inquietação, no qual os direitos individuais estão excluídos. É uma situação terrível em que, para salvar um povo, devemos decidir sacrificar parte dele.

Por este motivo, é que distinguimos a Polícia em relação ao Exército. A Polícia protege os direitos individuais, enquanto o Exército protege os direitos colectivos. A Polícia deve respeitar os “direitos humanos”, enquanto o Exército pode ignorá-los. Parece que os nossos contemporâneos, presos no seu conforto, perderam o sentido dessas distinções elementares.

Se o “direito da Humanidade” era, inicialmente, um manto de conquistas territoriais, levado ao extremo, tornou-se a ideologia de destruição das estruturas dos Estados nacionais. Para que os nossos direitos sejam respeitados, devemos ser “cidadãos do mundo” e aceitar uma “sociedade aberta”, “sem fronteiras”, administrada por um “governo mundial”.

É ignorar a História e a cultura de cada um desses “cidadãos do mundo”, impor-lhes o que parece ser melhor para nós… e, portanto, para eles.

Neste novo documento de Jeffrey Feltman, os “direitos humanos” são, mais uma vez, um pretexto. Esta personalidade participou no governo do Iraque, numa empresa privada concebida sob o modelo da Companhia das Índias, a mal afamada Autoridade Provisória da Coligação [5], mostrando, assim, o pouco respeito que ela tinha pelos direitos dos iraquianos. Ele exprimiu o seu verdadeiro propósito sobre a Síria, numa série de documentos conhecidos como o “Plano Feltman” [6]. Nos quais ele propõe revogar a soberania do povo sírio e estabelecer, como no Iraque, uma governação estrangeira.

Com arrogância, ele escreve: “O Plano de Ação Humanitária deve permanecer humanitário, a fim de garantir que a ONU possa levar a bem as atividades humanitárias essenciais para salvar vidas e assegurar as necessidades básicas das populações. As atividades de desenvolvimento ou reconstrução fora deste Plano, terão que ser refletidas noutras estruturas que, por natureza, serão negociações mais demoradas com os governos. Isto é essencial, tendo em conta as complexas questões jurídicas e políticas envolvidas”. Por outras palavras, alimentem os refugiados, mas não lutem contra a fome que os consome; que ela seja para nós um argumento de peso, durante as negociações com o Estado sírio.

Os jordanianos, os libaneses, os turcos e os europeus ficarão surpreendidos ao ler: “A ONU não favorecerá o regresso dos refugiados e das pessoas deslocadas, mas apoiará os repatriados para garantir o carácter seguro, digno, informado, voluntário e durável do regresso e da reintegração, bem como o direito dos sírios de procurar asilo”. Retomando a teoria do professor Kelly Greenhill [7], Feltman não deseja ajudar os exilados a regressar ao seu país, mas pretende usar o seu êxodo para enfraquecer a sua pátria.

“A assistência das Nações Unidas não deve ajudar as partes que teriam cometido crimes de guerra ou crimes contra a Humanidade”, afirma Feltman, interditando, por precaução, seja qual for o tipo de ajuda.

Ele estabelece que: “Somente quando uma transição política verdadeira e completa for negociada pelas partes, é que a ONU estará pronta a facilitar a reconstrução”. Estamos muito longe do ideal da Carta.

Tradução
Maria Luísa de Vasconcellos

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